domingo, 26 de fevereiro de 2012

Fronteria México - Estados Unidos

O Sr. Dominguez fazia questão que toda a comida fosse tipicamente mexicana para aculturar o Bino. Ele chegou a tal ponto que os filhos já reclamavam de seu “chauvinismo”.

Bino conheceu os taquitos, as carnitas, tacos, burritos de todos os tipos e as tortilhas de milho, de trigo e as famosas tapas da Cidade do México, uma variação crioula das de Espanha, e os frijoles, feijão, preparados de varias maneiras diferentes: Com Chile, com pollo, com carne e em sopas. Também experimentou os diversos caldos usados como parte do antepasto mexicano, enfim Bino ficou bem entrossado na culinária riquíssima do México e só ia “devagar” nas pimentas especialmente os jalopenos.

Os chamados desayunos, ou desjejuns mexicanos eram uma verdadeira festa; não eram café da manhã, mas sim um almoço.

Bino também ficou sem-vergonha e, por vezes, a tarde pedia a Dona Marta tacos com carnitas e molho picante de tomatillo ou guacamole, e começou a ganhar peso.

As meninas também não ajudavam: elas queriam ver o irmão e Bino ganharem uns quilinhos extras e sempre estavam trazendo lanchinhos e pedindo a opinião sobre os “istos e aquilos” que sempre diziam: – Fomos nós mesmas que fizemos”...

                                                            



                                                            * * * * * *



Vitor estava absolutamente certo sobre o período de espera para aprovação de um visto para os Estados Unidos. Era de, no mínimo, duas semanas com um bom despachante e um Licenciado para mexer com os pauzinhos nos locais certos. Tudo no México era suscitável de “mexeção de pauzinhos”...

Mas a família Dominguez devia ser peso pesado e o próprio Licenciado do Sr. Dominguez conseguiu num período recorde de sete dias a “visa” para Bino entrar nos EUA.

Neste período eles levaram Bino a restaurantes no Passeo de la Reforma e outros lugares turísticos da Capital, foi ao Castelo de Chapultepec, onde Bino, Vitor e as meninas passaram um dia inteiro, pois era um museu muito grande. Visitaram a Cidade Antiga, Igrejas e Missões barrocas, fizeram piqueniques no Parque Chapultepec, na mesma área onde moravam, um local ameno, quase frio, a mais de dois mil trezentos e vinte e cinco metros acima do nível do mar.

Mas apesar da grande amizade e alegria em estar naquela linda cidade e com aquela maravilhosa família, Bino já começa a ficar com a inquietação de mochileiro de por as mochilas nas costas e bater com os pés nas estradas e se acomodar nos Estados Unidos antes do inverno – e o seu anseio foi bem entendido, especialmente pelo Victor.

                                                          

                                                      * * * * * *



Houve uma mesa redonda com toda a família e o Bino sobre a logística de sua ida aos Estados Unidos e foi decidido que o Bino iria de ônibus e não pedindo carona para diminuir a possibilidade de problemas na fronteira.

Depois de muito discutir, Victor e o pai chegaram à conclusão que o porto de entrada mais racional seria a fronteira de Nuevo Laredo – Laredo, mas ultimamente havia problema com ilegais e lá estava infestado de agentes picuinhas escrutinizando papéis de todo mundo, sempre “procurando pelo em ovo” e predispostos a infernizar a vida de viajantes. Adoravam os seus orgasmos mentais de subalternos com complexo de deuses e exercer os seus momentâneos poderes infernizando a vida dos viajantes. Também foi considerado que Laredo era bastante longe de Fresno destino final do Bino.

Já a fronteira de Tijuana - San Izidro, era a mais próxima de Fresno e os agentes aduaneiros estavam mais voltados ao movimento de hippies americanos indo e vindo por este ponto, a desertores da guerra do Vietnam e de guris evitando a chamada militar  e a CIRCUNSCRIÇÃO.

Também naquela fronteira havia um grande influxo de turistas de todas as partes do mundo entrando e saindo do México, não somente da cidade de Tijuana bem como a praia de Ensenada, La Paz e os inúmeros outros balneários de Baja Califórnia e os agentes aduaneiros de lá era muito mais ocupados e menos tacanhos. E esta fronteira foi à escolha aceita por todos.

Depois de tudo falado e dito, Bino fez as contas na cabeça e comprando o bendito ticket do ônibus, ainda que ele não tivesse que pagar as taxas da visa e os honorários de despachantes e do advogado de imigração, faltaria a ele cinqüenta e dois dólares dos trezentos a serem apresentados na fronteira. O senhor Dominguez propôs a Bino a comprar a passagem como um presente da família, mas Bino não pode aceitar e propôs vender o relógio inocentemente não observando que o seu anfitrião usava um Rolex.

Finalmente, o Sr. Dominguez graciosamente disse que nenhum viajante sério sairia sem um relógio, e Bino nada disse, implicitamente concordando. O Sr Dominguez  também argumentou que em Buenos Aires ele aceitou o ticket para Santiago da família Tedesco e por que os Dominguez não poderiam fazer o mesmo?  Bino argumentou que na América do Sul havia um problema político não existente no México e que como fez o Victor, ele também poderia ir de carona...

O impasse foi quebrado com a diplomacia da Senhora de Dominguez: Bino aceitaria um empréstimo do valor da passagem que era, na época, cerca de duzentos dólares de México até Los Angeles. E ele se comprometeria de pagar: ou em vinte meses ou vinte anos, mas esta era uma dívida entre eles. Um empréstimo. E com muita dificuldade, com a insistência de Victor o Bino aceitou e isto trouxe uma tranqüilidade a todos.

                                                            

                                                            * * * * * *



Bino se despediu da família Dominguez em casa. E foi rápido e no ponto: Poucas vezes em minha vida eu conheci gente como vocês ou uma família como esta. Dizem serem os filhos geralmente o espelho do lar; pelo comportamento sempre correto do Victor eu posso também julgar o seu lar. Vocês foram a minha segunda família nesta jornada e eu prezo imensamente uma família. Obrigado por terem me recebido. Agradeço o que vocês fizeram por mim de todo o coração. A divida que contrai com vocês será paga. Finalmente, dos muitos defeitos que tenho, tive a felicidade de não adquirir dois: deslealdade e ingratidão. Serei eternamente grato a todos vocês.

Abraçou a todos e foi para o Peugeot do Victor e ele mesmo carregou a sua mochila de roupas limpíssimas e entrou no carro. Victor saiu em direção a rodoviária central e todos acenaram as mãos em despedida. A Dona Marta veio correndo chorosa com um saco de papel manilha dobrada e disse: Un lanchito para Usted, que vayas con Dios. E Bino a abraçou.



                                                             * * * * * *



Ao chegar à rodoviária Bino verificou os dois tickets da companhia de ônibus Greyhound. Um ticket era para Tijuana e o outro era de Tijuana para Los Angeles. Para Fresno, destino final, o Ray Simpson, irmão do Pastor Tommy, disse que iria buscá-lo.

Bino e Victor se abraçaram longamente e ele disse: Se cuide mano. Se tiver algum problema, volte a México, encontraremos alguma coisa para você fazer e continuar os estudos aqui. O pai pode não ser muito grande mas tem os braços bastante compridos, entendeu?

– Sem dúvida, disse Bino sorrindo.

– Se cuide com a guerra do Vietnam. Eles falam há dez anos que aquela merda está para terminar, mas a coisa nunca termina.

– Isto é coisa deles Victor. Como se diz no Brasil “eles que são brancos que se entendam”. E com o seu humor sardônico, ele retrucou: – Então continuemos morenos, e após dizer isto, piscou maliciosamente o olho.

Olhou o saco de comida do Bino e disse: – A Marta está tirando a sua barriga da miséria.

No saco havia taquitos, tacos, sodas, sanduíches, peras e maçãs, tudo cuidadosamente enrolados em celofane e tinha até guardanapos de papel. Marta pensou em tudo.

– Aqui tem comida para nós dois sairmos do México, cruzar os Estados Unidos e chegarmos ao Canadá. E continuou:

– Coma tudo até Tijuana, pois eles não admitem comida entrando lá.

Fizeram uma última inspeção no visto do passaporte, dos trezentos dólares trocados agora em travellers checks, o resto do dinheiro vivo estava na carteira.

– Certo Victor: comer primeiro os taquitos e tacos, depois os sanduíches, no meio dos dois as frutas. Entrar nos States sem nada para ser tomado pelos caras – E riram novamente. - Parece até que eu estou indo também Bino, disse o Victor meio sem graça.

As 23h30min se abraçaram e Bino foi o último a entrar no ônibus.

– Não perca nosso endereço e telefone.  Escreva assim que estiver instalado por lá.

– Saia daqui cara, você está a fim de me ver chorar? Disse Bino sério. E completou:

– Lhes escreverei em breve.

O ônibus saiu, e Victor permaneceu na rodoviária até o Greyhound desaparecer no tráfego da Cidade do México.

                                                          

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A viagem para Tijuana foi sem incidentes. O ônibus estava quase vazio e Bino dormiu muito no Banco de trás. O ônibus parava muito e entrava sempre em cidadezinhas secundárias para pegar e deixar passageiros.  Parecia demorar uma eternidade para chegar até a fronteira.

Ao chegar a Tijuana, Bino teve que esperar quase duas horas para o ônibus que o levaria até Los Angeles em uma rodoviária muito mal equipada. Lá estava frio e o aquecedor do local estava demasiado quente e desconfortável. Devia ser a querosene, pois havia um cheiro pungente de querosene queimado no ar.

Bino saiu para respirar um ar fresco, e um mexicano baixinho, com uma cara de fuinha lhe bateu as costas, Estava com um chapéu e botas de texano com um cinturão de caubói e foi logo dizendo:

– Oi amigo, quer fazer uma grana boa e fácil? Ele falou em inglês meio quebrado e Bino o respondeu em Espanhol: – Que quiere Usted?

E o cara disse que procurava “culeros”. Mostrou um tubo metálico tipo um grande supositório e disse: – Cem dólares por tubo.

– Porra de que é que você fala cara? O que é isto?

Ai a fuinha explicou que era só entrar com o cilindro no “culo” e entregá-lo no banheiro na parada de San Izidro para outro culero.

– Eu rasgo esta nota de cem dólares aqui – disse ele mostrando um bilhete de cem - e em San Izidro, no banheiro da rodoviária, você receberá a outra metade após entregar o cilindro. Facilito no es mismo?

Bino olhou para a cara do rato fantasiado de vaqueiro texano e disse: – “Facilito” é para a puta que lhe pariu. Enfie esta merda no rabo dela, e limpe-o com esta meia nota de cem dólares.

E não satisfeito Bino berrou para ele: – E mais, seu “culero” de merda: – Onde nasci o culo é como uma porta de emergência: “Somente Saída”

O Culero levantou a sua camisa de flanela e mostrou a coronha de uma pistola automática, e disse: – Nos veremos, e sumiu na noite em direção a uns bares vagabundos.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

AMERICA CENTRAL - e subindo...

 A Capital do Panamá, definitivamente não era lugar para mochileiros.

Não havia albergues de estudantes, não havia albergues religiosos, não havia alojamentos estudantis. Tudo lá era caro em relação a América do Sul e o dinheiro panamenho era o dólar americano.

Caia a noite e parecia que a cidade era uma versão de primo pobre de Nova Iorque, no que tange a negócios.

Parecia que todos queriam vender alguma coisa, com os bazares abertos até à noite, gente andando apressada; muitos ternos e gravatas dentro de carros, a maioria deles carros americanos: De todos os tipos, de calhambeque a carros do ano.

O centro da cidade em realidade não acompanhou o clima de aparente progresso: havia muitas casas de madeira e cobertas de zinco, quase todas com sacadas ou balcões com grades de ferro, e as casas pareciam se encarquilharem com a passagem dos anos.

Eram dez e meia, e Bino estava cansado de andar, exausto da Colômbia, não se sentia seguro na cidade e começou a procurar um local qualquer para por o seu saco de dormir e morrer, quando ele passou a frente de um ginásio, com um ringue de boxe.

Como as portas estavam abertas, Bino entrou no ginásio. A luta havia acabado, e havia um grupo faxineiros limpando o local.

Novamente o tricampeonato brasileiro ajudou Bino. Um mulato mais velho, que provavelmente era o chefe dos faxineiros, conversou um pouco com Bino, e reclamou do futebol do Panamá. Ele disse que o futebol no Panamá era fraco e sem tradição.

O velho assunto abriu as portas de comunicação e logo depois Bino estava com uma vassoura e uma pá, varrendo os detritos debaixo das cadeiras dos espectadores, e passarelas e pondo tudo em latões de lixo - e em troca ele encontrou um pouso para dormir debaixo da estrutura de madeira do ringue.

Enquanto varria, Bino estava intrigado com vários dos negros falando inglês, bem chegado ao Inglês  americano que ele conhecia, sem o sotaque peculiar do inglês do Caribe, com algumas inflexões britânicas.

Tão pronto acabaram de varrer o ginásio, Bino se sentou com o seu amigo mulato, que tranquilamente fumava um cigarro e olhava outro preto que passava uma bucha com água e cloro limpando vestígios de sangue na lona do ringue. Os dois negros falaram alguma coisa entre si em inglês sobre cloro na água, mas Bino não os entendeu e curioso perguntou ao velho que sentava com ele: – O senhor é de onde?

– Sou panamenho, disse ele como se fosse isto uma coisa óbvia.

– Mas o senhor fala inglês muito bem, mas não fala como a gente da Jamaica que eu conheci. Vocês são dos Estados Unidos?

O velho negro sorriu e disse: – Bem, viemos há muitos anos  da América para trabalhar na construção do “Valão”, entendeu? Do canal. Mas eu creio que eles se esqueceram de levar nossos pais e avós de volta para os Estados Unidos quando acabou a construção, e ele explodiu em uma longa risada cheia de sarro que mais parecia uma tosse.

Também no Panamá, Bino viu várias coisas estranhas: lá havia uma cerca de ferro que separava, literalmente, o terceiro mundo da América do Norte. Parecia um tipo de campo de concentração ao inverso: Um universo de riqueza, fechado por um bolsão de pobreza. 
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Panamá para Bino era um país que já era empenado desde o seu Genesis: uma província da Colômbia arrancada à força pela América, com o apoio de alguns navios de guerra e de alguns políticos venais da região, com o objetivo de se construir um “valão” com muitos trabalhadores negros que resistiram à malária - mas não o ostracismo da pátria - e tornando-se um pais condenado a viver na subserviência e  discriminação em próprio solo pátrio. Até quando duraria isso?
Esta situação surrealista pensou Bino, não duraria muito com o Comandante Zeta e sua tropa maltrapilha avançando norte. Para segurá-los seriam necessárias milhões de Lacunas de Darién.  Aquele país era um arsenal de pólvora, guardado por bêbados fumantes e piromaníacos em uniformes, liderado por futuros milionários e aposentados precoces que viverão abastadamente com dinheiro roubado de seu povo em Miami - a América Latrina dos EUA.
Ao menos que houvesse uma grande mudança no Panamá, Bino não via grandes futuros para o país do “valão” – como os crioulos panamenhos chamavam o canal.
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Costa Rica era um país pequeno, mas progressista e organizado, com boas estradas e grande parte da viagem foi feita em zona montanhosa e de temperatura amena, na Serra de Talamana.  Bino chegou até a usar a sua jaqueta náilon e dormiu bastante a noite neste percurso.
Durante a viagem Bino conheceu alguns jovens da Guarda Nacional de Costa Rica que lhe informaram muitos fatos sobre o país, inclusive o de não existir exército em Costa Rica desde 1949 e que a Guarda Nacional ajudava bastante o país em construções civis, e assistência em emergências. Estes jovens, ao chegarem a San José, arranjaram acomodações no quartel  para Bino, como convidado, e ele aceitou.
Apesar da aversão que o Bino tinha adquirido aos militares de ditaduras, esta Guarda Nacional de Costa Rica era uma força do, e para o povo.
Em São José Bino mais uma vez chegou à conclusão: nada em si é mau ou bom. O uso nocivo ou benigno de uma coisa ou entidade é o determinante de seus predicados. A farda em si era nada. Uma ditadura sob farda fazia desta um símbolo nefasto.
Bino gostou da Costa Rica, Era um país limpo, estável, industrioso e não tinha um exército regular desde 1949
Mas assim mesmo, a América central da época não era um jardim de flores a ser apreciado. De modo geral a estabilidade local era bem precária.
Meses antes de Bino passar por lá houve a infame Guerra do Futebol entre El Salvador e Honduras. Nicarágua era uma ditadura hereditária e o atual caudilho era o “ Anastácio “Tacho” Somoza, um caudilho criado nos EUA, com educação militar numa escola da Flórida e também  na prestigiosa Escola de Oficiais americana de West Point. A família Somoza estava às rédeas do poder em Nicarágua desde 1936 – eleitos ou não.
A Costa Rica era uma estória diferente, sempre houve neste país uma tradição de democracia e Costa Rica era considerada uma nação “iluminada” na América Central, mas mesmo assim com uma série de antigos problemas de fronteira com a Nicarágua.
Quando Bino chegou à América Central, a Nicarágua dos Somozas estava envolvida em uma não-declarada guerra interna contra o movimento Sandinista – um movimento populista de tendências esquerdistas que por muitos anos lutou contra a homogenia da família Somoza.
           www.wikipedia.org/wiki/América_Central

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

NA TENTATIVA DE SAIR DA COLOMBIA UM ENCONTRO COM AS FARC

Uns diziam que a interrupção na Carretera Pan Americana no Passo do Darien ou Lacuna de Darien, entre a Colômbia e o Panamá, era causada de propósito, por que estrategicamente protegia melhor o flanco das tropas americanas aquarteladas na Zona do Canal do Panamá. Isso Bino achava arcaico e estúpido: seria uma estratégia de cavalaria ainda dos tempos das guerras napoleônicas.
Também havia uma explicação menos plausível para esse hiato na rodovia, que era a chamada desculpa agropecuária. Diziam que a própria Colômbia queria esta zona de separação pelas constantes doenças endêmicas de rebanhos no Panamá, tal como a febre aftosa, doença viral resistente a antibióticos que continuamente aniquilava as vacas e porcos no Panamá - e esta epidemia era uma constante ameaça aos rebanhos do norte da Colômbia.
Outros mais deslumbrados diziam que a não existência de estrada entre os dois países era para proteger a floresta prístina local e os povos indígenas lá existentes e Bino viu muita devastação da natureza em sua jornada para também não acreditar nesta fantasia ecológica,
Outra teoria era que se a Lacuna no Passo de Darién fosse aberta, os colombianos, em número muito superior aos panamenhos, retornariam aos poucos para terras férteis que tinham sido uma província colombiana. O Panamá foi subtraído da Colômbia por meio de manobras políticas dos EUA e políticos corruptos locais para a “criação” do Panamá e subseqüente construção do Canal. Esta teoria parecia a mais plausível para o Bino: dividir para conquistar era um método bem antigo, muito usado por Roma.
Seja qual for a explicação, para Bino o trágico é que naquele trecho não havia estradas ligando a Colômbia ao Panamá e as razões acima, exceto por cultura geral, em nada ajudaram a ele.

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A primeira tentativa de Bino para cruzar a chamada Lacuna de Darién foi pedindo carona até uma pequena vila chamada Chigorodo, a uns cem quilômetros ao norte de Medelín, na Pan Americana. Ele ficou dois dias no local com os nativos adquirido informações sobre trilhas que o levassem ao Panamá.
Em Chigorodo, Bino encontrou um casal de missionários evangélicos que suava e tremia enfermos de malária. Eles esperavam um transporte mandado pelo consulado americano para Medelín e de lá para o hospital em Bogotá.  Esses jovens missionários tentaram cruzar a Lacuna de Darién e só chegaram até o Parque Nacional de Los Katios, no lado colombiano da Lacuna.
Eles disseram também que os guias nativos da área talvez conhecessem trilhas alternativas para cruzar a Lacuna. Eles disseram que viram algumas trilhas, mas os guias tinham medo de seguir adiante por medo de guerrilheiros da FARC e também o casal já estava muito enfraquecido com a malária e resolveram voltar. 

No vilarejo de Rio Sucio, disse o casal, a uns vinte quilômetros da Lacuna de Darién, eles viram coisas escabrosas: Europeus e americanos drogados, corpos cobertos de chagas e perambulando como zumbis pelas florestas e até mesmo os índios estavam infectados com a enfermidade que eles chamavam de “Fogo selvagem”.

Depois deste relato Bino resolveu se preparar melhor: Conseguiu com os americanos, pílulas de cloro para purificar a água, também lhe deram um vidro de repelente de insetos na vila comprou tortinhas e broa de milho, duas garrafas de Aguardente Cristal e com um nativo da vila foi para Rio Sucio na esperança de encontrar uma trilha que cruzasse a Lacuna de Darien para entrar no Panamá.

Três horas trilha adentro, ele viu uma tropa de uns vinte e quatro burros indo em direção ao rio, carregando cada burro dois tonéis de 25 galões.
Ele perguntou aos tropeiros para onde iam, mas eles estavam armados com automáticas de grosso calibre e não lhe responderam. Bino decidiu seguir a distância as pegadas dos burros na esperança de que mais adiante, ele encontrasse outro tipo de pessoas com disposição mais amena.
Em dado momento Bino não viu mais seu guia nativo. Já pensava em retornar por onde veio aproveitando a luz do dia. Várias vezes chamou o guia e de resposta só o barulho da floresta.

Já ia dando meia volta quando viu um bando de guerrilheiros alguns armados de fuzis, outros de submetralhadoras, usando roupas de camuflagem, já desgastado, e acompanhado por indígenas com facões.  Estavam suados, sujos, barbudos, gente dura e de má aparência. Bino se assustou e estupidamente enfiou a mão na jaqueta para pegar o passaporte e documentos quando um deles lhe meteu a coronha do rifle em sua cabeça, lhe derrubando na lama. Eles se identificaram como soldados da FARC e que eram uma força armada de libertação da Colômbia.

Cobriram a cabeça de Bino com um capuz negro e  andaram umas duas horas de floresta adentro até que eles pararam, retiraram o capuz que cobria a cabeça de Bino e ele se deparou com uma vila de taperas bem primitivas, de tetos cobertos com folhas de coqueiros que lhe foi dito ser o “acampamento temporário” deles.  Um dos guerrilheiros, de biótipo indígena e de não mais do que vinte anos de idade, pegou o seu passaporte e cuidadosamente o olhou, e finalmente disse:
Brasileño?
– Sim, Brasileiro.
E continuaram as perguntas:
– De que província?
– Qual o número de teu passaporte?
– O que tu fazes aqui?
– Com quem jogou o Brasil no jogo final e qual foi o resultado do jogo?
– Porque tu estás indo para América?

E este interrogatório foi só o começo de outros que vieram.
Questionaram Bino por tres horas a fio; depois trocaram de interrogador; revistaram toda a sua mochila, cada centímetro quadrado, olharam dento da bainha da faca de gaúcho ganha do CTG Lalau Miranda e até reviravam os diários do pai e do avô do Bino, página por página, inspecionaram as suas roupas, o puseram nu e inspecionaram todas as cavidades de seu corpo.
Após isto, silenciosamente o colocaram em uma jaula de madeira fortemente amarrada de embiras e sob constante vigilância ele lá ficou sem comer ou beber.
Cedo na manhã do dia seguinte, chegou um guerrilheiro alto, de feições européias, com uma expressão que poderia ser um sorriso indescritível que somente disse: Sou o Comandante Zeta, que significa a letra “Z” em espanhol.
– Contatamos alguns de teus amigos no Brasil, Sr. Tedesco. Parece que os militares reacionários brasileiros, os teus Botones, andam te buscando.
– Sim, eles andam.
– Por que tu seguias meus homens?
– Queria encontrar uma trilha para passar pela Lacuna de Darien.
–Por quê?
– Quero ir para o Panamá.
– Por quê?
– Estou pedindo carona para os Estados Unidos; não posso estudar em meu país, não tenho como ficar na América Latina.
– Digas sem mentir. Por que não podes?
– Por contas dos Botones.
Ai o Comandante Zeta esboçou o seu primeiro sorriso discernível.
– Então também esteve na Argentina... E como aprendestes espanhol com o modismo Portenho?
– Com minha família.
E o interrogatório continuou. Bino sabia que mentir ali era assinar a própria certidão de óbito.
– Tu sabes por que os Botones estão no poder no teu país e em quase toda a América Latina?
– Não sei. Talvez por que eles têm as armas.
– Parcialmente certo, mas a grande realidade é porque nós temos políticos venais e corruptos e o povo já não agüenta mais.

E o interrogatório parecia entrar numa área perigosa de doutrinação política e Bino sabia que isto era campo minado, mas ele ficaria firme com a honestidade. Comandante Zeta parecia ser um homem capaz de matar sem pensar duas vezes.
– Os militares também são corruptos, disse o Bino
– Sim creio até mais do que os civis. Mas sabe qual é a maior causa da corrupção do povo?
– Não sei, Alguns nascem deste jeito, outros o meio ambiente, dinheiro, há muitas razões.
– Fato, mas aqui não é uma faculdade, guri. A razão social ou genética porque um é corrupto não me interessa. Agora uma vez que ele se torne corrupto em meu país, ai se torna o meu problema.
Bino ficou quieto e o Comandante continuou: – Uma das razões que você me deu para a corrupção foi o dinheiro.
– Sim, mencionei esta razão.
– E quem solta a grana para dar poder aos políticos venais? Para que nos mantenham ignorantes e na merda, vivendo em Repúblicas de Bananas? Quem puxa as cordas destas marionetes que governam toda a América Latina?

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Mas o seu veneno não tinha terminado ainda: Leu mais uma vez vagarosamente, como não pudesse acreditar no carimbo do passaporte de Bino, com uma expressão quase de espanto e disse: Nunca vi um passaporte com este carimbo, e repetiu: – Não é válido para Cuba, - e irritado disse:
– Sabes por que os Gringos odeiam Cuba? Por que Fidel Castro nunca foi subserviente a eles.
– Mas parece que agora Cuba está dependendo é dos Russos, disse Bino.
– Tu estas certo: Cuba agora é o Bordel da Rússia. Mas se tu te tornares uma puta, melhor te deitares com um homem que tu gostas e que te trate bem. Mas este é outro assunto, e o Comandante Continuou:
– Tu conheces a campanha revolucionária do Fidel para depor o corrupto fantoche dos Gringos em Cuba, o vagabundo do Fulgêncio Batista?
– Não.
Carajo, tu não sabes nada! E continuou: Foi uma luta de raízes, do povo cubano para se libertar de um hijo de puta posto no poder pelos Gringos e nele mantido pela Mafia! Mas quando Fidel o derrubou e assumiu poder para limpar a Ilha, advinha a quem ele foi pedir ajuda primeiro?
– A Rússia, respondeu Bino.
 Zeta riu complacentemente e disse: – Sabia que diria isto.
– Então a China, disse Bino.
– Não carajo, ele foi para La Gringolandia, a Nova York para pedir ajuda a eles. A ajuda foi negada; eles queriam a volta do Batista e daí ele teve que correr para os braços da Rússia ou ter a sua revolução aniquilada...
– Marque minhas palavras Tedesco. Tu estás indo para La Gringolandia e  ficarás corrupto.
– Não; não vou!
– Sabe de uma coisa, guri. Estou tentado a deixar tu ires só para ter o prazer de provar o que estou dizendo, e o Comandante parecia estar muito cansado, sorriu ameno e perguntou?
– Então tu és mesmo goleiro?
– Como o senhor sabe?
– Isto não vem ao caso, mas lembre-te: aqui quem faz as perguntas sou eu.
Aí, mudando de assunto, ele voltou ao interrogatório básico:
– Porque tu não compraste passagem de avião de Medellín até a Ciudad de Panama?
– Porque não tenho dinheiro suficiente?
– Ah, não? Quanto você tem?
– Acho que agora estou com uns noventa e três dólares.
– Penses de novo e fale a verdade.
– Eu disse a verdade. Conto este dinheiro todo o dia.
Sarcasticamente o Comandante tirou um envelope branco de seu bolso e disse: E estes quinhentos aqui, neste envelope, e quase esfregou o envelope na cara do Bino, que pode ler seu nome no envelope escrito com a caligrafia da prima Alicia de Buenos Aires.
–Este envelope eu não sabia que estava na mochila.
Então Bino se lembrou que tinha recusado este dinheiro e a sua mente foi até as Tias Maria e Pilly, o primo Edmundo, Alicia, Carlos e os Martinez, e ele sorriu, e disse:
– Comandante eu não tenho nenhum motivo para lhe mentir. Minha prima Alicia deve ter escondido o envelope em minha mochila: Reconheço a caligrafia dela e eu tinha recusado este dinheiro em Buenos Aires.
– Tens família então em Buenos Aires?
– Sim: Duas tias-avós e primos.
–Gostas de ler?
– Muito.
– Qual o livro que andas lendo?
– Um de Pablo Neruda: “Plenos Poderes”.
– E o Sidarta do Hess?
– Este já li várias vezes, A última vez foi ao chegar em Buenos Aires.
– Tivestes sorte...
– Por quê?
– Teu dinheiro estava no Sidarta.

domingo, 11 de dezembro de 2011

UMA ALIANÇA INFELIZ DA DITADURA

Ele chegou a rodoviária, sentou-se num banco ao lado do guichê que vendia passagens para Tulcan, na fronteira do Equador com o sul da Colômbia.  Até a noite Bino tinha que deixar o Equador, pois seu passe de três dias expiraria.
No mapa ele calculou que indo pela Rodovia 25, que era simplesmente a continuação da Carretera Pan Americana, a distância seria de 350 quilômetros, e calculou, que pelas freqüentes paradas do ônibus e pelo estado das estradas no país, que, no mínimo, a viagem seria de oito horas.
Bino queria sair no primeiro ônibus as seis da manhã: Apesar do Equador não ter fronteiras com o Brasil e ele temia que houvesse troca de Telex entre as autoridades militares equatorianas e o DOPS do Brasil e ele pensou que na Colômbia, sob um governo de civis, ele estaria mais protegido.
Às cinco e meia Bino comprou seu ticket para Tulcan e estranhou que o preço fosse tão baixo, até que ele visse o “ônibus” chegar.
                                                  
                                                              
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O ônibus era uma adaptação de carroçaria de madeira, incluindo os assentos montados numa estrutura de um caminhão americano International. Era um pouco melhor do que o nosso pau-de-arara brasileiro, só pelo teto de madeira e umas lonas com plásticos transparentes que se rolavam pelas laterais protegendo os passageiros em caso de chuva.
As malas iam por uma escada atrás do “ônibus” para cima do teto de madeira, colocadas em um berço de ferro e cobertas por lona e amarradas por cordas e mais: em cima com as malas um policial solicitou ao motorista que levasse dois pobres coitados, provavelmente indigentes e estes não podiam se proteger debaixo da lona em caso de chuva. Pelo menos estes pobres coitados ficaram com as melhores vistas dos Andes.
Dentro do baú de madeira era um carnaval caótico. Jovens mestiços tocavam violão e cantavam “cuencas” com ajuda de uma “charanga” improvisada, garrafas de pisco eram passadas entre alguns passageiros, antes mesmo de sair “a coisa”, senhoras nativas já passavam as suas tortilhas e tamales entre si e muitas delas já estavam de peito para fora acalmando seus rebentos.
Havia passageiros levando iguanas precariamente amarradas por embiras, e este animal era um prato entre os nativos, ainda mais apreciados do que galinha.
Na metade da viagem uma desses iguanas se desvencilhou de sua amarração e saiu correndo por baixo dos pranchões de assento e foi um Deus-nos-acuda, com um pobre índio velho, meio embriagado, se metendo debaixo dos assentos e os mais jovens o sacaneando espantando o lagarto-almoço, enfim o ônibus teve que parar, a iguana foi caçada, presa e amarrada, e depois seguiu-se viagem.
                                                  
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Como a cabine estava cheia de passageiros, Bino subiu numa carroceria de quase três metros de altura, carregada de cenouras e se acomodou no topo do mundo, como se fosse o Monarca das Cenouras, e seguiu viagem por mais uns 135 quilômetros no topo dos Andes em estrada perigosa, estreita e de barro até a cidade de Pasto.
De cima da carga de cenoura Bino pode apreciar as montanhas e o vale a mais de mil metros abaixo, rolando-se até a lateral da balouçante carroceria ele ficou a olhar as rodas do caminhão, tão perto do abismo, negociando a lama vermelha que  espirrava em todas as direções.
 A estrada não tinha cercas de proteção  e muito menos acostamento. A fome apertou e Bino começou a comer cenouras, O frio das montanhas era intenso e havia uma garoa muito úmida, Bino retirou a sua jaqueta azul de náilon da mochila, desenrolou seu saco de dormir, entrou nele e se aninhou debaixo de uma lona esfarrapada que cobria só parte das cenouras.
Ainda era frio, e de novo ele pegou a mochila, tirou o seu poncho e a sua garrafa de pisco e deu duas goladas grandes e a guardou.  Depois enrolou o poncho e o transformou em travesseiro. A carroceria do caminhão continuava a balançar e ele se preocupava com a estrada, mas entregou seu destino aos deuses e dormiu profundamente, sonhando com praias ensolaradas e de por de sois amarelo-cenoura.
                                                
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Acordou em Pasto muito cedo de manhã, o e motorista do caminhão gritou para cima da carga:
– Eh, Brasilenho, te invito a un desayuno Pastusco!
E novamente a amabilidade Andina se fez presente: Foram a um modesto banheiro e em seguida sentaram a mesa de uma construção antiga de alvenaria que era um armazém ao lado de um posto de gasolina.
O motorista pediu um café da manhã com Huevos Rancheros, que era feito refogando-se tomates picados, com pimentão e bastante cebola, cheiro verde e depois se colocava um pouco d’água e três ovos, fechava-se a tampa da frigideira, cozinhava-se os ovos no vapor por pouco tempo, colocava-se mais salsinha e coentro sobre eles e logo em seguida os serviam na frigideirinha, com pão, manteiga, queijo e um café forte, delicioso e aromático, numa caneca esmaltada.
Estes Ovos Rancheiros era o café da manhã reforçado dos campesinos locais.
                                                         
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Bino ainda estava na mesa com o motorista amigo e na mesa do lado sentou-se um motorista dirigindo um caminhão tanque e após conversa entre os dois motoristas Bino conseguiu uma carona de boleia até Cali.
O caminhão saiu a tarde e ao cair da noite estava no Vale do Rio Cauca. A estrada foi se apertando:  para o oeste a parte ocidental do maciço andino que faz fronteira com a floresta Amazônica e para o leste por um outro braço do maciço dos Andes e, a visão gigantesca desta bifurcação dos Andes mais a estrada enluarada  bordejando o rio Cauca era simplesmente linda, e Bino se sentiu pequeno naquele lugar.
As três da manha o caminhão tanque subia gemendo e engatado em marcha forte em direção ao Maciço Leste, e subiu por muitos quilômetros de asfalto mal cuidado, até que de manhã eles chegaram a uma linda cidade chamada Cali, localizada num platô a dois mil e seiscentos metros de altura.
Cali é uma cidade pujante, limpa, européia, com amplas avenidas, edifícios modernos, uma universidade de primeira linha e um campus grande e bem bonito.
Bino conseguiu hospedaria no campus, e lá fez amigos entre os estudantes que lhes deram mais endereços de outros amigos que estavam no campus da Universidade de Bogotá, na capital federal, e também no campus da Universidade de Medellín.
Lá pela primeira vez ele conheceu a arte do mundialmente  renomado pintor Botero e também conheceu mais a fundo alguns livros, ainda não publicados no Brasil,  de um grande escritor colombiano, da cidade litorânea  de  Cartagena, o Gabriel Garcia Marques.
Bino leu ávida e rapidamente um de seus livros, escrito de modo realístico e simultaneamente fantasmagórico, chamado Cien Años de Soledad, e ao terminar de ler Bino sabia que também na literatura, Colômbia possua um Campeão Peso Pesado.
Na Universidade de Colômbia em Cali, com os estudantes de Arquitetura, Bino adquiriu um gosto por uma aguardente muito boa, chamada Cristal, forte como uma boa caninha brasileira, mas com um toque de anis que a “arredondava” ainda mais ao descer esôfago adentro. Também com os estudantes bebeu o famoso Tinto, um café expresso, feito dos melhores grãos dos cafés colombianos que se tomava imediatamente após ser passado. Além do gosto, o aroma do café colombiano era único, até para Bino, criado em zona cafeeira.
Muitos dos estudantes de Cali, após beberem o tinto, sempre fumavam um cigarro barato, sem filtro, de tabaco negro, chamado Piel Roja, ou Pele Vermelha. Um dia depois de umas doses de Aguardiente Cristal, Bino quis fazer graça fumando um dos Peles Vermelhas oferecidos por uma estudante de Literatura. Bino passou mal e foi forçado a perder um belo almoço.
De volta à turma, ainda meio mareado e esverdeado, ele foi motivo de chacota amiga por não manusear bem o mata-rato e principalmente por suas botas pastuscas, pois os intelectuais de Cali tinham, enganosamente, a concepção de que os Pastuscos eram brutos e burros – e, paradoxalmente, eram admirados por sua simplicidade, honestidade e ética de trabalho.
Pela Colômbia afora Bino sempre notou esta relação amor-ódio entre os citadinos e os camponeses das montanhas, genericamente chamados de Pastuscos.

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Depois de alguns meses na estrada, o mochileiro começa a adquirir um sexto sentido sobre uma determinada cidade, com um companheiro de estrada ou até mesmo com a carona que lhe está sendo oferecida. Bino não podia explicar isto em palavras, mas era um sentimento que não vinha do intelecto, mas talvez do hipotálamo, algo intuitivo ou visto pelo terceiro olho, como diziam os amigos Krishnas.
Bino sentiu que havia alguma coisa muito errada com aquela linda cidade florida e de eterna primavera. Em condições normais, sustentada pela economia local Medellín não poderia, como New York e Paris ter tanto vestidos de grife famosas pelas suas ruas, tantas jóias caríssimas, e uma estranha entourage de tiras de guarda-costas vestidos de ternos custosos e em carros importados dos EUA e da Europa. Aquele padrão de vida, aqueles bares servindo algumas vezes champanhe de vinte mil dólares aquilo não era produto da economia formal da área.
Às noites na cidade eram longas, festivas, comemoradas em restaurantes finíssimos sempre cheios e o mesmo com as discotecas; corria muito dinheiro vivo, e até havia muitas vadias de luxo, também importadas dos EUA, Europa e ate do Brasil. Havia muita cocaína rolando. Não faltavam carros de luxo, limusines, muitos “turistas” com guarda-costas, muitos gorilas trabalhando de segurança...  Algo em Medelín não andava certo.
Era o comércio de drogas. De cara no campus, ele foi informado do pó luminoso que cobria a cidade, mas parecia que a maioria dos estudantes era complacente com a situação: bem, os gringos buscam o pó, aqui se tem muito, é só uma mera questão de oferta e procura, era o raciocínio quase universal.
Outros iam mais além dizendo que o problema era na demanda, sem ela não haveria produção, daí as drogas na Colômbia eram um problema sim, mas um problema causado por norte-americanos.
Eles pareciam estar cegos que o problema  já tinha se tornado  também dos supridores, dos colombianos, com bandos de crianças viciadas em Bazuco, já não mais vivendo com suas famílias e que dormiam promiscuamente nos bueiros de Santa Fé de Bogotá; com tiroteios nas favelas; com assassinatos dia e noite; bombas explodindo em jornais da capital, intimidando a imprensa e mais - com a dissolução familiar, prostituição infantil, e violência urbana em geral.
Um dos estudantes que Bino encontrou no refeitório, que defendia o tráfico, estava de olhos vermelhos, falava rápido e desconexo, mãos trêmulas, e, por trás de todas as suas argumentações sócio- econômicas postas de maneira lúcida e elegante, com lógica amparada no princípio de Colbert, a lei de oferta e procura, por trás de tudo aquilo,  era puro sofisma: Bino falava com um viciado que nem mais atinava para a realidade.
Depois desta “palestra” Bino decidiu que viu o bastante da bela e sedutora Medellín, dos anos setenta e que já era tempo de ganhar a Carretera Pan Americana para o norte.
Estudou seu mapa e decidiu que sairia cedo no outro dia e iria até Chigorodo e de lá pegaria outra carona até Rio Sucio, tentaria entrar no Panamá pelo Parque Nacional Darién.
Uma vez no Panamá, Bino tentaria de um modo qualquer a ser decidido lá, se re-conectar com a Pan Americana Norte na cidade de Yavisa, no Sul do Panamá.
No Café Universal se reuniam bastantes mochileiros e alguns hippies e Bino foi lá a tarde para ver se conseguia alguma informação de primeira mão como negociar a problemática fronteira, com pouquíssimas estradas, onde a Carretera Pan Americana parecia sumir.
A sua primeira decepção foi com as notícias dadas a ele por um casal de mochileiros alemães, que se julgavam com muita sorte de terem sobrevivido àquela fronteira e voltado para Medelín, depois de muitos dias perdidos na floresta e fugindo de guerrilheiros.
Eles afirmaram que o tal do Passo do Darién era simplesmente impassável. Era uma área de quase cem quilômetros de terreno difícil, montanhas, rios caudalosos, cheio de bandidos, forças colombianas para-militares e guerrilheiros das FARC, ou Forças Armadas Revolucionárias Colombianas.
“Por lá você não passa”, disse o alemão bem direto e reto. Bino se sentiu frustrado e impotente com estes cem quilômetros intransitáveis adiante dele, numa rodovia que saia praticamente do pólo sul, ou seja, da Patagônia, cortando todas as Américas até os gelos do Alaska e só com a exceção de menos de cem quilômetros entre Colômbia e Panamá incompletos.
Porque a Pan Americana desaparece nessa fronteira? E ninguém tinha uma resposta definitiva.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Bino - o mochileiro

Bino, no começo, ressentia o termo mochileiro, quando aplicado a ele. Com o passar dos meses, ele notou que os mochileiros eram uma sub-cultura que de fato existia nas estradas e que de uma forma, rotulado nela, o ajudava a disfarçar a sua condição de fugitivo. Daí para diante ele abraçou o termo mochileiro sem ressentimentos.
Bino passou a estudar e definir os grupos de mochileiros que ele encontrava. Existiam vários tipos deles, com distintas características.
Por exemplo, seus equipamentos, suas mochilas e conteúdos eram específicos e mais do que isto, eles tinham um implícito “código de estrada” mais ou menos universal no que diz respeito ao seu bem estar e sobrevivência.
Se um mochileiro adoecesse na estrada todos ajudavam. Ou com remédio, ou procurando hospitais, apelando para conhecidos e no último caso até trazendo-o à sua família.
Eles sempre trocavam entre si informações sobre pousadas, albergues e escolas e também locais amigáveis e hostis a eles. Esse acervo de informações era repassado ao se cruzarem nas estradas lhes permitindo a ter um plano de ação formado muitos quilômetros antes de chegarem a seu destino.
Também se informavam e repassavam o conhecimento sobre fronteiras entre países ou províncias que os hostilizavam ou facilitavam; para os que usavam drogas, havia sempre informações onde ela poderia ser obtida, qual local era perigoso obtê-las ou a penalidade em usá-las em determinadas cidades ou locais.
Geralmente nos anos 1969 a 1970 a droga mais usada era a maconha e o pessoal que “fazia” drogas pesadas usavam o LSD. Os mochileiros usuários de drogas estavam em outra categoria, mais para o lado dos hippies do que dos mochileiros propriamente ditos, mas apesar da distinção, eles também se ajudavam mutuamente, apesar de andar pelas estradas em diferentes bandos.

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Entre os mochileiros era pecado mortal negar cigarros ou deixar de dividir a comida. A fama de um mau mochileiro, ou grupo destes, geralmente andava dias a frente deles – e a comunidade se afastava deles como se fossem infetados de peste bubônica.
Para um mochileiro sobreviver nas estradas já era bem difícil - e não havia necessidade de aumentar mais os riscos com má companhia e “mesquinharia” era considerada um crime muito mais além do que o uso de drogas.
Bino poucas vezes viu um bêbado no meio deles. Mas, geralmente, eles davam o chamado tapa-no-macaco ou tapinha - que era fumar um baseado.
Na América Latina não se levava drogas, pois as penalidades por conta delas eram bem altas. Quase todos os mochileiros sabiam de um ou mais conhecido que pegou de dois a dez anos de cana, em prisões desumanas por causa de drogas, então a maioria dos mochileiros andava de cara limpa.
Havia também todos os tipos e nuances de pessoas pululando as estradas com mochilas nas costas: Alguns estavam lá por turismo barato, outros em férias, outros procurando um sentido na vida, alguns fugindo de guerras, tentando entrar ilegalmente num país e só Deus sabe o motivo de cada um; mas este tema de “por que um foi para a estrada” era privado e era tabu bisbilhotar sobre o assunto.
Também Bino aprendeu a descobrir a história de viagens do mochileiro pela sua mochila, suvenires, roupas ou acessórios.

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Os americanos usavam mochilas grandes, de náilon reforçado, acolchoadas, confortável nas costas, e com armação de alumínio geralmente em cores bem chamativas e refletores de luz por medida de segurança na estrada. Elas tinham vários compartimentos e nelas era fácil de organizar as coisas. As mochilas dos americanos eram como a da amiga Gandira: cheias de souvenires e decalques dos locais por onde passaram eles.
Era um tipo de exposições das “medalhas de honra ao mérito”, de locais conhecidos, de “moral de estrada”. Os americanos também sempre tinham algo bom de comer em suas mochilas como carne e sopas desidratadas, chocolate, sabão, sabonete e xampu sem falar em pente, escova e pasta de dentes. Alguns até levavam uma mini barraca e um fogãozinho a gás, butano, canivete suíço e kit de primeiros socorros.
Carregavam também sempre um livro. Andavam de passaporte e bem documentados e traziam também com eles até cheques de viagem.        
Diferentes do resto dos mochileiros, os americanos e europeus eram respeitados como cidadãos em suas respectivas embaixadas, em caso de necessidade se faziam presente e lhes davam assistência. Este tratamento de suas embaixadas fazia com que eles fossem menos escorraçados pelas autoridades locais e algumas autoridades tinham até deferência por eles, os elevando a categoria de “turistas”.
Também eles sempre tinham informações de banhos públicos e onde se vendia isto ou aquilo. Os americanos tinham por uniforme, calças Lewis de jeans, óculos escuros, boné, camiseta e tênis confortáveis para a caminhada. Geralmente todos eram brancos e Bino nunca viu um negro, por estranha razão, entre eles.
Já os mochileiros europeus e canadenses eram simplesmente uma versão mais modesta dos americanos. Suas mochilas eram também de ótima qualidade, porém voltada mais para a durabilidade e essenciais - com cores menos berrantes, como verde, azul e marrom.
Eles também tinham sempre algo de comer em suas mochilas, mas era algo local, comida adquirida na estrada, Por exemplo, pão e queijo; tinham também café instantâneo, cigarros, lanternas e sempre com uma bandeirinha discreta de seus países colada a mochila. Era comum ver os europeus com uma dúzia ou duas de bananas penduradas em suas mochilas. Eram parcimoniosos com os decalques sobre a mochila e sempre tinham um vinho marca diabo com eles para desinfetar seus estômagos da comida local.
Diferente dos americanos eles quase sempre falavam vários idiomas, andavam com dicionários e sempre tentavam falar e aprender com os nativos. Os europeus não tinham tanta mania de banho quanto os latinos e americanos, tinha mais odor corporal e suas mulheres muitas vezes não barbeavam os sovacos. Usavam mais botas de trilha ou de escalada de montanhas, dificilmente se via um deles de tênis; eles também eram bem seguros com o dinheiro.
Já os argentinos, chilenos, uruguaios e latino-americanos em geral, eram mais pobres. Suas mochilas eram menores, de lona, mais modestas e algumas foram até acampadas das forças armadas de seus países. Eram bolsas quadrangulares ou triangulares com alguns bolsos e correias de couro e não tinham armação de metal, ou divisões.
O carregamento destas mochilas exigia certa logística nas camadas dos itens nela contidos. Os itens de maior e mais uso, iam sempre à parte superior, roupa lavada no meio e as sujas em baixo, quando possível enrolada em sacos de plásticos e quando não, iam perfumando as roupas limpas com cheiro de roupa usada.
As mochilas dos latinos geralmente eram pequenas, para os mochileiros de curta distância, como por exemplo, de Chile a Equador, e geralmente tinha a capacidade de 10 quilos de carga; as maiores, como a do Bino, era dos mochileiros de longa distância, era capaz de carregar até uns 25 quilos e eram maiores. A mochila “latina” também era reforçada com cantoneiras, fundos e tiras de couro e nada tinham de sintéticos. O couro de proteção evitava o esgarçar da lona depois de muito uso.
Também os latinos usavam tênis mais modestos, tipo o “Conga”, também usavam jeans ou camisetas, mas sempre usavam ponchos ou abrigos de lã. Muitos carregavam violões em suas jornadas e vez por outra um argentino trazia junto à mochila o seu bandoneón que é um tipo de concertina – o que Bino considerava um “trambolho” desnecessário.
Também sempre havia um vinho barato com eles e dormiam onde podiam: Em postos de gasolina, albergues, igrejas e escolas. Usavam de torneira, rios e riachos para banhar-se – mas tinham que ter os seus banhos diários.
Os latinos tinham muito pouco para dividir, mas dividiam o que tinham. Também não hesitavam em beber um pouco de leite de um latão esperando transporte na beira da estrada ou de passar por debaixo de uma cerca para pegar umas laranjas aqui e umas bananas ali.
Os mochileiros brasileiros viajavam só, eram namoradores, e escolhiam as suas namoradas fortuitamente em diversas localidades. Eram de boa paz com o mundo e tudo era beleza.
Os argentinos eram mais temperamentais, os chilenos mais sonhadores e poetas, e ambos levavam com mais freqüência as suas namoradas que eram afinal, que mandava neles.

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Os verdadeiros hippies eram um grupo heterogêneo, que geralmente vivia com o mínimo indispensável à manutenção da vida, sempre descobrindo onde encontrar drogas, quem as vendiam e não se preocupavam muito com o resto da vida.
Não tinham mochilas e andavam com bolsas, cestas e uns até com um saco de plástico com seus pertences. Seus trajes eram extravagantes e sujos, suas aparências não cuidadas e viviam em seu mundo, com a sua lógica e seus costumes tribais.
Eram fedorentos e suas meninas também, e desprezavam os mochileiros por serem adeptos da água e sabão, caretas em relação a eles e mais ou menos obedeciam à lei.
Geralmente os hippies tinham problema nas fronteiras de países por falta de documento,. ou por entrarem nos países sem vistos no passaporte, enfim Bino achou-os interessante e observou que individualmente, a maioria deles, era gente boa, mas como grupo, inconfiáveis e criadores - ou pára-raios - de problemas.
Para Bino que tinha um destino final quase que um Dharma a ser cumprido, ele evitava os hippies. Bino não queria problemas: ele tinha prometido sobreviver para dar testemunho do que viu, ele tinha que se cuidar muito e chegar ao seu destino.
Na estrada havia também hábitos idênticos a quase todos: não se carregava dinheiro a vista, armas ou nada de comprometedor nas mochilas – que constantemente eram revistadas, por qualquer motivo fortuito que julgassem as autoridades.
Já Bino era um completo “mochileiro” – ainda que meio “híbrido”: Primeiro, ele conhecia lugares e visitava pontos interessantes em sua jornada, mas ele nunca perdeu a perspectiva de que ele era também um “fugitivo”. A sua “logística” em cruzar fronteiras e lidar com autoridades não dava margens a erro.
Mas como um mochileiro qualquer, ele andava com uma mochila tipo americana, verde e bem usada que ganhara da Gandira, cheia de decalques de lugares que ele ainda não conhecia, usava calças jeans, uma camiseta de algodão, tênis nacional, e uma jaqueta americana acolchoada e de zíper, que ganhara do pastor Tommy; tinha seu passaporte verdadeiro, pensava ter uns cem dólares escondidos na jaqueta, junto com seus documentos – inclusive uma carteira de identidade falsa da UPF, com o nome de Arthur Lange.