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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Bino - o mochileiro

Bino, no começo, ressentia o termo mochileiro, quando aplicado a ele. Com o passar dos meses, ele notou que os mochileiros eram uma sub-cultura que de fato existia nas estradas e que de uma forma, rotulado nela, o ajudava a disfarçar a sua condição de fugitivo. Daí para diante ele abraçou o termo mochileiro sem ressentimentos.
Bino passou a estudar e definir os grupos de mochileiros que ele encontrava. Existiam vários tipos deles, com distintas características.
Por exemplo, seus equipamentos, suas mochilas e conteúdos eram específicos e mais do que isto, eles tinham um implícito “código de estrada” mais ou menos universal no que diz respeito ao seu bem estar e sobrevivência.
Se um mochileiro adoecesse na estrada todos ajudavam. Ou com remédio, ou procurando hospitais, apelando para conhecidos e no último caso até trazendo-o à sua família.
Eles sempre trocavam entre si informações sobre pousadas, albergues e escolas e também locais amigáveis e hostis a eles. Esse acervo de informações era repassado ao se cruzarem nas estradas lhes permitindo a ter um plano de ação formado muitos quilômetros antes de chegarem a seu destino.
Também se informavam e repassavam o conhecimento sobre fronteiras entre países ou províncias que os hostilizavam ou facilitavam; para os que usavam drogas, havia sempre informações onde ela poderia ser obtida, qual local era perigoso obtê-las ou a penalidade em usá-las em determinadas cidades ou locais.
Geralmente nos anos 1969 a 1970 a droga mais usada era a maconha e o pessoal que “fazia” drogas pesadas usavam o LSD. Os mochileiros usuários de drogas estavam em outra categoria, mais para o lado dos hippies do que dos mochileiros propriamente ditos, mas apesar da distinção, eles também se ajudavam mutuamente, apesar de andar pelas estradas em diferentes bandos.

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Entre os mochileiros era pecado mortal negar cigarros ou deixar de dividir a comida. A fama de um mau mochileiro, ou grupo destes, geralmente andava dias a frente deles – e a comunidade se afastava deles como se fossem infetados de peste bubônica.
Para um mochileiro sobreviver nas estradas já era bem difícil - e não havia necessidade de aumentar mais os riscos com má companhia e “mesquinharia” era considerada um crime muito mais além do que o uso de drogas.
Bino poucas vezes viu um bêbado no meio deles. Mas, geralmente, eles davam o chamado tapa-no-macaco ou tapinha - que era fumar um baseado.
Na América Latina não se levava drogas, pois as penalidades por conta delas eram bem altas. Quase todos os mochileiros sabiam de um ou mais conhecido que pegou de dois a dez anos de cana, em prisões desumanas por causa de drogas, então a maioria dos mochileiros andava de cara limpa.
Havia também todos os tipos e nuances de pessoas pululando as estradas com mochilas nas costas: Alguns estavam lá por turismo barato, outros em férias, outros procurando um sentido na vida, alguns fugindo de guerras, tentando entrar ilegalmente num país e só Deus sabe o motivo de cada um; mas este tema de “por que um foi para a estrada” era privado e era tabu bisbilhotar sobre o assunto.
Também Bino aprendeu a descobrir a história de viagens do mochileiro pela sua mochila, suvenires, roupas ou acessórios.

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Os americanos usavam mochilas grandes, de náilon reforçado, acolchoadas, confortável nas costas, e com armação de alumínio geralmente em cores bem chamativas e refletores de luz por medida de segurança na estrada. Elas tinham vários compartimentos e nelas era fácil de organizar as coisas. As mochilas dos americanos eram como a da amiga Gandira: cheias de souvenires e decalques dos locais por onde passaram eles.
Era um tipo de exposições das “medalhas de honra ao mérito”, de locais conhecidos, de “moral de estrada”. Os americanos também sempre tinham algo bom de comer em suas mochilas como carne e sopas desidratadas, chocolate, sabão, sabonete e xampu sem falar em pente, escova e pasta de dentes. Alguns até levavam uma mini barraca e um fogãozinho a gás, butano, canivete suíço e kit de primeiros socorros.
Carregavam também sempre um livro. Andavam de passaporte e bem documentados e traziam também com eles até cheques de viagem.        
Diferentes do resto dos mochileiros, os americanos e europeus eram respeitados como cidadãos em suas respectivas embaixadas, em caso de necessidade se faziam presente e lhes davam assistência. Este tratamento de suas embaixadas fazia com que eles fossem menos escorraçados pelas autoridades locais e algumas autoridades tinham até deferência por eles, os elevando a categoria de “turistas”.
Também eles sempre tinham informações de banhos públicos e onde se vendia isto ou aquilo. Os americanos tinham por uniforme, calças Lewis de jeans, óculos escuros, boné, camiseta e tênis confortáveis para a caminhada. Geralmente todos eram brancos e Bino nunca viu um negro, por estranha razão, entre eles.
Já os mochileiros europeus e canadenses eram simplesmente uma versão mais modesta dos americanos. Suas mochilas eram também de ótima qualidade, porém voltada mais para a durabilidade e essenciais - com cores menos berrantes, como verde, azul e marrom.
Eles também tinham sempre algo de comer em suas mochilas, mas era algo local, comida adquirida na estrada, Por exemplo, pão e queijo; tinham também café instantâneo, cigarros, lanternas e sempre com uma bandeirinha discreta de seus países colada a mochila. Era comum ver os europeus com uma dúzia ou duas de bananas penduradas em suas mochilas. Eram parcimoniosos com os decalques sobre a mochila e sempre tinham um vinho marca diabo com eles para desinfetar seus estômagos da comida local.
Diferente dos americanos eles quase sempre falavam vários idiomas, andavam com dicionários e sempre tentavam falar e aprender com os nativos. Os europeus não tinham tanta mania de banho quanto os latinos e americanos, tinha mais odor corporal e suas mulheres muitas vezes não barbeavam os sovacos. Usavam mais botas de trilha ou de escalada de montanhas, dificilmente se via um deles de tênis; eles também eram bem seguros com o dinheiro.
Já os argentinos, chilenos, uruguaios e latino-americanos em geral, eram mais pobres. Suas mochilas eram menores, de lona, mais modestas e algumas foram até acampadas das forças armadas de seus países. Eram bolsas quadrangulares ou triangulares com alguns bolsos e correias de couro e não tinham armação de metal, ou divisões.
O carregamento destas mochilas exigia certa logística nas camadas dos itens nela contidos. Os itens de maior e mais uso, iam sempre à parte superior, roupa lavada no meio e as sujas em baixo, quando possível enrolada em sacos de plásticos e quando não, iam perfumando as roupas limpas com cheiro de roupa usada.
As mochilas dos latinos geralmente eram pequenas, para os mochileiros de curta distância, como por exemplo, de Chile a Equador, e geralmente tinha a capacidade de 10 quilos de carga; as maiores, como a do Bino, era dos mochileiros de longa distância, era capaz de carregar até uns 25 quilos e eram maiores. A mochila “latina” também era reforçada com cantoneiras, fundos e tiras de couro e nada tinham de sintéticos. O couro de proteção evitava o esgarçar da lona depois de muito uso.
Também os latinos usavam tênis mais modestos, tipo o “Conga”, também usavam jeans ou camisetas, mas sempre usavam ponchos ou abrigos de lã. Muitos carregavam violões em suas jornadas e vez por outra um argentino trazia junto à mochila o seu bandoneón que é um tipo de concertina – o que Bino considerava um “trambolho” desnecessário.
Também sempre havia um vinho barato com eles e dormiam onde podiam: Em postos de gasolina, albergues, igrejas e escolas. Usavam de torneira, rios e riachos para banhar-se – mas tinham que ter os seus banhos diários.
Os latinos tinham muito pouco para dividir, mas dividiam o que tinham. Também não hesitavam em beber um pouco de leite de um latão esperando transporte na beira da estrada ou de passar por debaixo de uma cerca para pegar umas laranjas aqui e umas bananas ali.
Os mochileiros brasileiros viajavam só, eram namoradores, e escolhiam as suas namoradas fortuitamente em diversas localidades. Eram de boa paz com o mundo e tudo era beleza.
Os argentinos eram mais temperamentais, os chilenos mais sonhadores e poetas, e ambos levavam com mais freqüência as suas namoradas que eram afinal, que mandava neles.

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Os verdadeiros hippies eram um grupo heterogêneo, que geralmente vivia com o mínimo indispensável à manutenção da vida, sempre descobrindo onde encontrar drogas, quem as vendiam e não se preocupavam muito com o resto da vida.
Não tinham mochilas e andavam com bolsas, cestas e uns até com um saco de plástico com seus pertences. Seus trajes eram extravagantes e sujos, suas aparências não cuidadas e viviam em seu mundo, com a sua lógica e seus costumes tribais.
Eram fedorentos e suas meninas também, e desprezavam os mochileiros por serem adeptos da água e sabão, caretas em relação a eles e mais ou menos obedeciam à lei.
Geralmente os hippies tinham problema nas fronteiras de países por falta de documento,. ou por entrarem nos países sem vistos no passaporte, enfim Bino achou-os interessante e observou que individualmente, a maioria deles, era gente boa, mas como grupo, inconfiáveis e criadores - ou pára-raios - de problemas.
Para Bino que tinha um destino final quase que um Dharma a ser cumprido, ele evitava os hippies. Bino não queria problemas: ele tinha prometido sobreviver para dar testemunho do que viu, ele tinha que se cuidar muito e chegar ao seu destino.
Na estrada havia também hábitos idênticos a quase todos: não se carregava dinheiro a vista, armas ou nada de comprometedor nas mochilas – que constantemente eram revistadas, por qualquer motivo fortuito que julgassem as autoridades.
Já Bino era um completo “mochileiro” – ainda que meio “híbrido”: Primeiro, ele conhecia lugares e visitava pontos interessantes em sua jornada, mas ele nunca perdeu a perspectiva de que ele era também um “fugitivo”. A sua “logística” em cruzar fronteiras e lidar com autoridades não dava margens a erro.
Mas como um mochileiro qualquer, ele andava com uma mochila tipo americana, verde e bem usada que ganhara da Gandira, cheia de decalques de lugares que ele ainda não conhecia, usava calças jeans, uma camiseta de algodão, tênis nacional, e uma jaqueta americana acolchoada e de zíper, que ganhara do pastor Tommy; tinha seu passaporte verdadeiro, pensava ter uns cem dólares escondidos na jaqueta, junto com seus documentos – inclusive uma carteira de identidade falsa da UPF, com o nome de Arthur Lange.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O PREFÁCIO QUE FOI CORTADO NA EDIÇÃO

O chegar a pagina 428 do livro meu ultimo livro, O PAPA BESOUROS (Redes Editora, Porto Alegre) a Salete Mores (minha editora) começou o corta-corta editorial, para que o livro não se enquadrasse no "genre" de "epistola", e como resultado, cortamos, entre outras coisas, o seu longo PREFACIO. Bem, gostava tanto dele que aqui, com saudosismo, o publico: SdM

PREFÁCIO

A viagem relatada neste livro é complicada e bem mais longa do que a antecipada. Teve os seus ziguezagues, me levou a locais imprevistos e teve o seu começo em Vitória (ES), onde nasci, que para mim já foi uma ilha coberta de sol, sonhos e poesia. De certo modo, esta jornada também começou em João Neiva, uma vila não muito longe da capital onde passei inúmeras férias de verão no casarão da velha Maria Elizabeth, a minha avó alemã, com as tias Damaris e Clélia, o saudoso e proverbial tio Corintho, os primos Adilson e Arilton, a prima Eugenia Maria e uma mão cheia de bons amigos.
Lá havia cachorros, pássaros, papagaios - quase uma cena de Gabriel Garcia Marques - num chalé de alegria, com um pomar de sonhos e em frente da casa, rolando lerdo, preguiçoso um riozinho todo cheio de curvas e voltas, onde aprendi a nadar.
No pomar havia muitas frutas. Meu finado avô Silvino não acreditava em semente de fruta que não fosse plantada. Havia mangueiras de muitos tipos, jaqueiras, caramboleiras, parreiras, coqueiros, goiabeiras, pinhais, bananeiras de todos os tipos e frutas raras no Sudeste - como serigüela, cajá-manga, cajueiros e até um gigante jenipapeiro.
Durante um hiato de inocência, a linda ignorância infantil me fez pensar que tudo aquilo seria eterno e que João Neiva de fato era um paraíso.
Também havia sempre na casa um constante aroma de café e bolinhos de chuva, vozes familiares, trinar de pássaros e latir de cães, cheiro doce de pomar, do verde, de pedaços da floresta atlântica, um pot-pourri de inocência, descobrimento, vitalidade e alegria que pensei ser aquele tempo eterno.
Ainda hoje, embaçadas pelo filtro do julgamento adulto, remanescem em mim deste tempo um aroma verde de infância, de simplicidade e imagens passadas que rolam em minhas memórias como águas de um regato prístino de sonhos inocentes, rolando entre samambaias, bambuzais, árvores frondosas, murmurando entre troncos caídos, orquídeas e cogumelos, gentilmente fluindo por lisas pedras, com suas águas rolando mansas, cobrindo miríades de seixos em seu leito que brilham tênues sem ferir meus olhos envelhecidos. Foi deveras um tempo bom que tento manter vivo no menino que ha em mim,
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Educação sempre foi de grande prioridade em minha família.  Fui a terceira geração da minha família que estudou no Colégio Americano de Vitória;  e. nesta escola, eu contava os dias para chegar as férias, para embarcar no trem da Vitória-Minas e voltar à vila, ao chalé-sonho, que ainda sempre busco, talvez até mesmerizado em conseqüência de genes atávicos de imigrante que me impelem em diáspora contínua em busca do campo, da terra em busca de raízes. 
Bem, mais ou menos coberto o período de infância, estipularei a quota zero desta jornada como Ouro Preto. 
Quando terminei o segundo grau, fui para Ouro Preto para fazer o curso pré-vestibular de engenharia, para a venerável Escola de Minas; passei no vestibular e após um mês de severo trote eu me tornei um acadêmico da nobre escola.
Ouro Preto foi amor a primeira vista: encantei-me com a cidade, com a sua história e com os seus fantasmas, suas pontes, seus casarões históricos e a sua gente. Parei, ouvi e senti a vila a transpirar ecos de assombros, sussurros dos conchavos dos inconfidentes, e sentimentos de dejá-vù de quase ter participado de encontros secretos e intrigas dos que conspiravam pela liberdade e independência do Brasil.
Durante minha vida estudei o Tiradentes, mas em Ouro Preto me encontrei com ele - nas ruas e botecos, tornei-me camarada do Jovem Alferes Joaquim José Xavier do Exército Imperial, conheci seus amigos e amigas e triste sentei-me na praça que hoje tem o seu nome, debaixo do obelisco que marca onde a sua cabeça foi exposta depois de esquartejado.
Mais foi a Vila Rica do que a Escola de Minas que mais abriu minha imaginação e me expôs a diversas facetas da vida artística, política, filosófica, literária e religiosa.  A cascata de novos estímulos polinou a minha mente e me deu uma renovada concepção da vida.

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Ouro Preto é uma cidade serrana, localizada nas montanhas das Minas Gerais a cerca de novecentos metros de altura, com uma temperatura sempre agradável, nem muito quente nem muito fria. Fundada em 1698, ela parece estar congelada no tempo.
A arquitetura de suas construções é um raro estilo barroco colonial português. Igrejas foram construídas como fortalezas, e há por toda parte esculturas de santos, feitas no século XVIII em pedra-sabão, espalhadas pela cidade e co-habitando com seus habitantes. Por força de lei, suas construções foram tombadas, e assim a arquitetura da cidade permanecerá preservada, sem mudanças. Mas isso não se dá com a sua vida artística e literária: ela se agita, desenvolve-se e cresce entre os estudantes e também entre os cidadãos em geral.
Naquela vila, deparamo-nos em suas ruas com artistas e seus cavaletes fazendo pinturas a óleo sobre tela; outros fazem escultura em suas praças, artesanato pelas esquinas e outros tipos de arte; o velho Teatro da cidade está sempre em atividade e há música erudita, cantatas e madrigais em suas igrejas barrocas.  Ouro Preto dos anos setenta vibrava com o Festival de Inverno, realizado no mês de junho – onde seminários de arte, literatura, fotografia e cinema eram oferecidos gratuitamente ou por um preço nominal às pessoas da cidade e aos turistas que vinham de outras partes do Brasil e até do exterior. Os preletores desse Festival – especialistas em suas respectivas áreas artísticas – amando também seus ofícios e a cidade, ofereciam gratuitamente a sua arte e o seu ensino aos participantes desses festivais de inverno.
  Por um decreto da UNESCO em 1980, a cidade tornou-se um Patrimônio Cultural da Humanidade, assegurando-se desse modo, a preservação da sua arquitetura, da sua arte, e suas construções salientes, tais como: o mais antigo teatro em funcionamento da América Latina, a primeira Escola de Farmácia e a segunda mais antiga Escola de Engenharia do Brasil, seus casarões do século XVIII em estilo barroco colonial, pontes de granito em arquitetura romana, estátuas do aleijadinho, pinturas e obras de arte, em suas igrejas e ainda vários cemitérios centenários bem cuidados, mas esquecidos pelo tempo.
  A UNESCO protege também dezenas de antigas igrejas coloniais portuguesas, construídas com sólidas paredes feitas de pedra, cal viva e óleo de baleia. Suas paredes internas ricamente ornamentadas com seus santos de aparência piedosa e anjos cintilantes, cobertos com uma fina camada de ouro em pó.
Essas velhas igrejas são depositárias de antigas pinturas sagradas a óleo sobre tela, e de envelhecidas imagens de madeira esculpida, colocadas sob tetos em arco. Cada igreja reflete o feitio pessoal de seus antigos freqüentadores. Por exemplo, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, construída por negros, livres e escravos, em meados do século XVIII, é considerada a única igreja barroca no Brasil com fachada arredondada e com anjos, imagens e santos de pele de cor escura.
No dia da sua inauguração, o nobre ex-escravo Chico Rei lá chegou em sua luxuosa liteira dourada, com vários de seus compatriotas por ele alforriados, para dançar em frente da igreja um africano congado.
A tradição diz que Chico havia sido um escravo que na África era da nobreza local e que comprou sua liberdade - bem como a de dezenas de escravos da sua nação natal. Ele tornou-se muitíssimo rico por explorar minas de ouro, e estabeleceu sua própria corte na nobreza portuguesa de Ouro Preto. Sob a proteção da Igreja Católica e de homens de negócio que aferiam lucros provindos de sua imensa fortuna, Chico Rei foi um dos Gaius Maecenas da Nossa Senhora do Rosário e de outras igrejas de negros da cidade.
Outro exemplo em que o feitio pessoal dos membros foi o que influenciou a natureza da congregação acha-se na Igreja de Nossa Senhora do Pilar, a mais suntuosa igreja barroca da cidade. Seus freqüentadores eram principalmente abastados comerciantes, políticos e ricos “cristãos novos”, que literalmente esbanjaram mais de quinhentos quilos de ouro em pó no rico e luxuoso interior dessa Igreja. A branca Igreja de Pilar não podia ficar nada atrás do negro templo do Rosário...
O ritmo e a cadência suave da cidade de certo modo decorrem do freqüente badalar de dezenas de sinos de igrejas. Seus toques fluem como melaço, ressoando de forma vagarosa o dia todo, sempre chamando para missas, casamentos ou funerais – e anunciando também a hora de Ângelus, dando a impressão de que, na maioria das vezes, os sinos badalavam uns para os outros, sem produzir som. Eles pareciam soar para aqueles que haviam se tornado surdos a seus apelos, soavam para a irreverência dos turistas, e o seu som era uma advertência às armadilhas dos novos tempos – um triste lamento diante de uma já passada era de diamantes, cavalos e carruagens, luxuosas liteiras, exóticas sedas chinesas, licores, vinhos do Porto, diamantes, esmeraldas e muito ouro.
Uma riqueza de valor inestimável de ouro e pedras preciosas foi explorada em Ouro Preto, mas a maior parte dela foi embarcada para a Corte Imperial de Lisboa, e uma porção menor, se bem que substancial, contribuiu para alimentar a Revolução Industrial na Inglaterra. As migalhas que foram deixadas em Ouro Preto, no entanto, foram suficientes para torná-la mundialmente uma das mais ricas cidades do seu tempo.
Por mais de um século, até o dia de hoje, estudantes têm vindo de toda parte do país para se alojarem em grandes casas coloniais, estabelecidas como dormitórios pela Universidade. Os estudantes as chamam de repúblicas, cada uma delas tendo um nome que tenta refletir as características de seus fundadores: Os menos religiosos estão na república de nome Vaticano; os mais sensuais ficam no Jardim de Alá; os nordestinos agremiam-se na Verdes Mares – e assim por diante.
Quando cheguei a Ouro Preto, antes de entrar na Escola de Engenharia, minha primeira república localizava-se bem perto da Igreja de Nossa Senhora do Pilar, e seu nome era Buraco do Tatu. Este nome tem a ver com a condição de seus moradores, que viviam numa rua situada na extremidade mais baixa da cidade, perto da Igreja do Pillar.
A aldrava sobre a porta de entrada da república Buraco do Tatu era uma velha tampa de privada de madeira pintada de vermelho. Sobre ela estava, em letras brancas, a famosa frase atribuída ao imperador Constantino ao marchar contra Roma: In Hoc Signus Vinces. Essa infame aldrava, com um pouco da história bizantina, era um insulto aos bem-educados sacerdotes que conduziam procissões que passavam à frente daquela república, e mais ainda, uma permanente fonte de atrito entre os estudantes do Tatu e o povo devoto, em geral.
            Ao entrar na Escola de Minas, fui convidado a entrar numa república de estudantes de engenharia chamada Pureza, que ficava ao lado duma outra república, chamada Vaticano. Dizia-se que Pureza era tão pura como neve suja em beira de rodovias, mas na época, só conhecendo a neve em cinemas, pensava que toda neve era branca e linda... 
A maioria de seus estudantes, os assim chamados “os Puros”, eram bons meninos provindos de vários estados do Brasil. Eles eram um pouco desregrados, dedicados boêmios que tinham a reputação de serem beberrões, e, pior: em sua maioria, mantinha boas relações com as funcionarias da madame Santita, à guardiã do bairro proibido, localizado um pouco abaixo da Escola de Farmácia.
O povo da cidade nos tolerava, a menos que tentássemos sair com as moças da localidade – neste caso toda a tolerância terminava e eles tornavam-se tão “amigos” quanto foram os romanos de Átila. Somente com as moças que vinham de fora (turistas, por falta de conhecimento) e com as meninas da madame Santita (porque sabiam demais) é que podíamos ter encontros amorosos.
Nos primeiros anos da década de 70 a vida me era muito agradável: eu amava Ouro Preto e meus companheiros (meus “irmãos”, como dizíamos) da Pureza. A Escola era boa, e boa era também a comida servida no seu refeitório – e o meu futuro parecia ser promissor. Os que se formavam na Escola de Minas sempre encontravam um emprego com facilidade. Ouro Preto era um oásis de felicidade num país devastado por uma ditadura militar desde 1964.
Mas nesse assunto político eu não me metia e tampouco punha o meu nariz onde não era chamado; tentava me manter neutro em questões polêmicas e não confrontava os militares. Lia todo livro que me viesse à mão e estudava a história local. Dedicava meu tempo livre ao serviço de confortar e guiar mulheres solitárias que vinham como turistas em fins-de-semana e, por certo, sempre havia uma cerveja gelada que nos era servida nos bordéis da madame Santita.
Meus livros de estudo eram abertos o mínimo indispensável para eu obter uma média passável, e assim a vida me era confortável e muito agradável. Porem não demorou muito para que aquela situação tão boa de repente mudasse completamente.
O governo militar começou a atuar com maior prevalência sobre a população em geral. Em sua maioria, os estudantes por todo o país levantaram-se em protesto contra as injustiças, mas valentões da ditadura começaram a aterrorizá-los.
Que o diga o nosso querido João Bosco, hoje cantor e compositor e o César Maia, ex-prefeito do Rio, ambos ex-alunos da Escola de Minas sendo que o César, nome de guerra Do Cuzão, era nosso irmão da Pureza.
Menezes, um estudante de engenharia da República Amarra-Golo, desapareceu por algum tempo. Meses depois ele retornou à cidade: quieto, introvertido, bebendo muito, coxeando e andando com uma bengala. Sua perna tinha sido maldosamente quebrada.
            Alguns estudantes que não tinham papas na língua, que eram politizados e que protestavam contra o governo começaram a desaparecer.
Agentes enviados pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) entravam em nossas repúblicas estudantis para procurar livros “políticos”; por incrível que pareça Das Kapital de Marx era um dos livros colocados na lista negra, mas não o Mein Kampf de Hitler.
Revistas e jornais com idéias contrárias, como o Pasquim - e também as de conteúdo sexual, tais como Hustler, achavam-se na lista negra. O pessoal do DOPS divertia-se em apavorar os estudantes quando faziam diligências nas repúblicas, em altas horas da noite, sem os devidos mandatos legais – e, muitas vezes, os agentes exalavam bafos de cachaça barata.
Eles sempre traziam armas automáticas e submetralhadoras. Até mesmo livros escritos por Jean Paul Sartre, Franz Kafka ou um pôster de Mahatma Gandhi poderiam ser considerados subversivos e sujeitos a serem apreendidos e seus donos investigados dependendo do alto conteúdo etílico - ou do baixo nível cultural - dos policiais. A regra geral dos agentes do DOPS era a seguinte: em caso de dúvida a respeito de qualquer coisa, a regra era considerá-la subversiva.
Ouro Preto sentia-se abatida, tal como a população pensante da nação. Um irmão de Republica, Newton, apelidado de Esculacho, era um rapaz alto, esguio de boa aparência, que cursava o terceiro ano de engenharia. Um dia ele desapareceu. Diziam que seu pecado capital foi o de ter um pequeno pôster de Che Guevara, pendurado à parede de seu quarto, e que provavelmente ele o tinha para reforçar sua imagem com as namoradas com quem compartilhava o seu quarto. No pé do ouvido se dizia que ele e Do Cuzão bem como o Lincoln, “aprontavam” em Belo Horizonte, e se isto foi fato, que bom, e mais força para eles.
Quanto a mim, irritado, eu já falava abertamente contra a ditadura e depois do desaparecimento de Newton, comecei a abrir mesmo a boca, expressando-me livremente o que o que tinha em minha mente sobre democracia, liberdade e direitos constitucionais.
À boca pequena fui então informado de que o meu nome estava na lista negra do Departamento de Ordem Política e Social. Fiquei tão aborrecido e desgostoso com isso que nem mesmo comentei o fato com a minha família.

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            Meu pai havia sido um “pracinha”, que serviu com a FEB (Força Expedicionária Brasileira) durante a Segunda Guerra Mundial. Alem de ser um patriota era um homem bem respeitado e bem relacionado. Bastaria apenas arranjar uma declaração escrita por um advogado e por mim assinada, negando o meu posicionamento político, para que eu pudesse continuar a viver em paz. Mas eu não queria esse tipo ridículo de paz: eu já não me agüentava, estava farto de ver o meu amado Ouro Preto ser debochado, a minha República ser saqueada, a minha escola ser visada e muitos de meus amigos serem intimidados, escorraçados, mutilados ou desaparecerem.
Que o DOPS e a Ditadura dessa República de Banana fossem para o inferno!
Depois de dar de presente meus livros e outros pertences a alunos mais necessitados, e tendo arrumado numa mochila todas as roupas que nela coubessem, junto com documentos e meu passaporte, fui à estrada e dei início à minha jornada.

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Sem uma passagem para sair do Brasil de avião, caminhei pelas estradas e caminhos do Brasil. Cruzei as fronteiras para o Uruguai e para a Argentina; atravessei os Andes e cheguei ao Chile.
Peguei a rodovia Pan Americana, prosseguindo em direção norte. Caminhei, pedi caronas e caminhei muito mais ainda. Vi coisas que me deslumbraram com a sua beleza, outras que foram repugnantes e algumas me amedrontaram, mas nunca perdi o meu objetivo de sair do Brasil.
Fui caminhando e pedindo carona inicialmente para o Sul, cruzei os Andes e depois segui sempre para o norte até que um dia cheguei à Califórnia, nos Estados Unidos, um ano e meio depois.
O orgulho não me deixou pedir qualquer subsidio aos meus pais. Paguei meu curso universitário na América fazendo as entregas do jornal Los Angeles Times, e também dirigindo um caminhão de suprimento aos aviões no Aeroporto Internacional de Los Angeles.
Minha vida girava em torno do El Camino College. Fiz amizade com um professor, de nome Bruce Milton Brown, que, além de amigo, tornou-se meu confidente e guru intelectual.
As mesas do píer da praia de Redondo, e as do Centro de Estudos em El Camino tornaram-se o meu local de estudo. Os locais abertos junto ao lago Arrowhead e Big Bear ficaram sendo refúgios para mim, e uma Kombi Caravana me serviu para o transporte, casa de campo, casa de lago e residência de praia.

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terça-feira, 2 de agosto de 2011

UM POUCO DE MINHAS LEMBRAÇAS - REPUBLICA PUREZA

CAUSO DA PUREZA
O BODẨO da nossa pureza era um Sansei sovina e CDF. Era da mesma cidade do Malinha Mancini, Mirandópolis, SP. Era meio matuto, óculos de aros grossos e de lentes de fundo de garrafas de Coca-Cola numa cara de Buda inchada de cortisona. Como se dizia lá em Ouro Preto, o Bodão era “ferrador” (sempre nos livros), disciplinado e não queria saber de festas, das turistas e nem tampouco das “santas” de Dona Santita.
A turma já andava de saco-cheio de sua atitude não “republicana” e ate egoísta. Foi ai que o Biafra, Malinha, Xibungo e outros concatenaram um plano de desforra. Alguém da republica achou na rua uma linda chanve de um carrão brasileiro da década dos setentas. Um Dodge Dart ou algo dessa linha. Imediatamente com uma precisão cirúrgica foi inserido no sabonete coletivo a tal chave, com cuidado tal que um dificilmente de notava que a barra de sabonete foi futricada e que estivesse recheada de chave.
Todos cuidavam do Bodão ao tomar o banho e enquanto nisso começou-se na republica uma seria discussão sobre o que um faria se ganhasse o Carro do Sabonete Lux. Uns falavam que se ganhasse o tal Carro do Sabonete, poriam toda a Republica dentro dele e iam zoar em BH; outros falavam em ir ate Guarapari ou Rio, e o bafo do carro fervia na PUREZA, mas o Bodão permanecia calado como um Buda. Um Buda meditando.
Um dia o Bodão saiu do banheiro após o seu banho. Saiu meio na moita, mas foi traído pelo seu semblante: ERA ELE O PREMIADO COM O CARRO!
A turma pressionou o Bodão a dizer o que faria com o carro e ele disse que o venderia. Pediram então a divisão do dinheiro, mas o bode foi irredutível: “NÃO. O CARRO E MEU”.
Foi argumentado que o SABONETE ERA COLETIVO, mas Bodão disse que ”a sorte foi minha”!
Aferrado ao ganho, Bodão amarrou a chave com um barbante forte no pescoço e dias depois partia para Mirandópolis para uma reunião com os advogados da família e legalizar a posse de seu carro.
Foi um vexame... Essa, eu creio, foi a “maior corda engolida” na PUREZA.
Tres dias depois, arrasado, humilhado e com a bunda quadrada de tanta cadeira de ônibus, Bodão voltou a Republica.
Ele deixou de falar com os PUROS, se formou na Escola de Minas, e nunca mais voltou ou mesmo contribuiu com a Republica para o “GOLO DO DOZE”. Neste ultimo baile do Doze de Outubro (aniversario da Venerável Escola), perguntei a turma sobre o bodão e me disseram que ele não quer saber nem da Republica nem de Ouro Preto. Em desdém falaram que ele deve andar por ai LAZARENTO, cortando palitos de fosforo ao meio para fumar guimbas de cigarro..
Se voce souber do BODAO DA PUREZA, me avise ou entre no site da REPUBLICA PUREZA, OURO PRETO, e avise a turma. Há novas sacanagens preparadas para o bodão.
Por Sam de Mattos, (O DA CANO)
Relatada pelo Paulo Roberto Secco, (O BIAFRA)