O chegar a pagina 428 do livro meu ultimo livro, O PAPA BESOUROS (Redes Editora, Porto Alegre) a Salete Mores (minha editora) começou o corta-corta editorial, para que o livro não se enquadrasse no "genre" de "epistola", e como resultado, cortamos, entre outras coisas, o seu longo PREFACIO. Bem, gostava tanto dele que aqui, com saudosismo, o publico: SdM
PREFÁCIO
A viagem relatada neste livro é complicada e bem mais longa do que a antecipada. Teve os seus ziguezagues, me levou a locais imprevistos e teve o seu começo em Vitória (ES), onde nasci, que para mim já foi uma ilha coberta de sol, sonhos e poesia. De certo modo, esta jornada também começou em João Neiva, uma vila não muito longe da capital onde passei inúmeras férias de verão no casarão da velha Maria Elizabeth, a minha avó alemã, com as tias Damaris e Clélia, o saudoso e proverbial tio Corintho, os primos Adilson e Arilton, a prima Eugenia Maria e uma mão cheia de bons amigos.
Lá havia cachorros, pássaros, papagaios - quase uma cena de Gabriel Garcia Marques - num chalé de alegria, com um pomar de sonhos e em frente da casa, rolando lerdo, preguiçoso um riozinho todo cheio de curvas e voltas, onde aprendi a nadar.
No pomar havia muitas frutas. Meu finado avô Silvino não acreditava em semente de fruta que não fosse plantada. Havia mangueiras de muitos tipos, jaqueiras, caramboleiras, parreiras, coqueiros, goiabeiras, pinhais, bananeiras de todos os tipos e frutas raras no Sudeste - como serigüela, cajá-manga, cajueiros e até um gigante jenipapeiro.
Durante um hiato de inocência, a linda ignorância infantil me fez pensar que tudo aquilo seria eterno e que João Neiva de fato era um paraíso.
Também havia sempre na casa um constante aroma de café e bolinhos de chuva, vozes familiares, trinar de pássaros e latir de cães, cheiro doce de pomar, do verde, de pedaços da floresta atlântica, um pot-pourri de inocência, descobrimento, vitalidade e alegria que pensei ser aquele tempo eterno.
Ainda hoje, embaçadas pelo filtro do julgamento adulto, remanescem em mim deste tempo um aroma verde de infância, de simplicidade e imagens passadas que rolam em minhas memórias como águas de um regato prístino de sonhos inocentes, rolando entre samambaias, bambuzais, árvores frondosas, murmurando entre troncos caídos, orquídeas e cogumelos, gentilmente fluindo por lisas pedras, com suas águas rolando mansas, cobrindo miríades de seixos em seu leito que brilham tênues sem ferir meus olhos envelhecidos. Foi deveras um tempo bom que tento manter vivo no menino que ha em mim,
* * * * * *
Educação sempre foi de grande prioridade em minha família. Fui a terceira geração da minha família que estudou no Colégio Americano de Vitória; e. nesta escola, eu contava os dias para chegar as férias, para embarcar no trem da Vitória-Minas e voltar à vila, ao chalé-sonho, que ainda sempre busco, talvez até mesmerizado em conseqüência de genes atávicos de imigrante que me impelem em diáspora contínua em busca do campo, da terra em busca de raízes.
Bem, mais ou menos coberto o período de infância, estipularei a quota zero desta jornada como Ouro Preto.
Quando terminei o segundo grau, fui para Ouro Preto para fazer o curso pré-vestibular de engenharia, para a venerável Escola de Minas; passei no vestibular e após um mês de severo trote eu me tornei um acadêmico da nobre escola.
Ouro Preto foi amor a primeira vista: encantei-me com a cidade, com a sua história e com os seus fantasmas, suas pontes, seus casarões históricos e a sua gente. Parei, ouvi e senti a vila a transpirar ecos de assombros, sussurros dos conchavos dos inconfidentes, e sentimentos de dejá-vù de quase ter participado de encontros secretos e intrigas dos que conspiravam pela liberdade e independência do Brasil.
Durante minha vida estudei o Tiradentes, mas em Ouro Preto me encontrei com ele - nas ruas e botecos, tornei-me camarada do Jovem Alferes Joaquim José Xavier do Exército Imperial, conheci seus amigos e amigas e triste sentei-me na praça que hoje tem o seu nome, debaixo do obelisco que marca onde a sua cabeça foi exposta depois de esquartejado.
Mais foi a Vila Rica do que a Escola de Minas que mais abriu minha imaginação e me expôs a diversas facetas da vida artística, política, filosófica, literária e religiosa. A cascata de novos estímulos polinou a minha mente e me deu uma renovada concepção da vida.
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Ouro Preto é uma cidade serrana, localizada nas montanhas das Minas Gerais a cerca de novecentos metros de altura, com uma temperatura sempre agradável, nem muito quente nem muito fria. Fundada em 1698, ela parece estar congelada no tempo.
A arquitetura de suas construções é um raro estilo barroco colonial português. Igrejas foram construídas como fortalezas, e há por toda parte esculturas de santos, feitas no século XVIII em pedra-sabão, espalhadas pela cidade e co-habitando com seus habitantes. Por força de lei, suas construções foram tombadas, e assim a arquitetura da cidade permanecerá preservada, sem mudanças. Mas isso não se dá com a sua vida artística e literária: ela se agita, desenvolve-se e cresce entre os estudantes e também entre os cidadãos em geral.
Naquela vila, deparamo-nos em suas ruas com artistas e seus cavaletes fazendo pinturas a óleo sobre tela; outros fazem escultura em suas praças, artesanato pelas esquinas e outros tipos de arte; o velho Teatro da cidade está sempre em atividade e há música erudita, cantatas e madrigais em suas igrejas barrocas. Ouro Preto dos anos setenta vibrava com o Festival de Inverno, realizado no mês de junho – onde seminários de arte, literatura, fotografia e cinema eram oferecidos gratuitamente ou por um preço nominal às pessoas da cidade e aos turistas que vinham de outras partes do Brasil e até do exterior. Os preletores desse Festival – especialistas em suas respectivas áreas artísticas – amando também seus ofícios e a cidade, ofereciam gratuitamente a sua arte e o seu ensino aos participantes desses festivais de inverno.
Por um decreto da UNESCO em 1980, a cidade tornou-se um Patrimônio Cultural da Humanidade, assegurando-se desse modo, a preservação da sua arquitetura, da sua arte, e suas construções salientes, tais como: o mais antigo teatro em funcionamento da América Latina, a primeira Escola de Farmácia e a segunda mais antiga Escola de Engenharia do Brasil, seus casarões do século XVIII em estilo barroco colonial, pontes de granito em arquitetura romana, estátuas do aleijadinho, pinturas e obras de arte, em suas igrejas e ainda vários cemitérios centenários bem cuidados, mas esquecidos pelo tempo.
A UNESCO protege também dezenas de antigas igrejas coloniais portuguesas, construídas com sólidas paredes feitas de pedra, cal viva e óleo de baleia. Suas paredes internas ricamente ornamentadas com seus santos de aparência piedosa e anjos cintilantes, cobertos com uma fina camada de ouro em pó.
Essas velhas igrejas são depositárias de antigas pinturas sagradas a óleo sobre tela, e de envelhecidas imagens de madeira esculpida, colocadas sob tetos em arco. Cada igreja reflete o feitio pessoal de seus antigos freqüentadores. Por exemplo, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, construída por negros, livres e escravos, em meados do século XVIII, é considerada a única igreja barroca no Brasil com fachada arredondada e com anjos, imagens e santos de pele de cor escura.
No dia da sua inauguração, o nobre ex-escravo Chico Rei lá chegou em sua luxuosa liteira dourada, com vários de seus compatriotas por ele alforriados, para dançar em frente da igreja um africano congado.
A tradição diz que Chico havia sido um escravo que na África era da nobreza local e que comprou sua liberdade - bem como a de dezenas de escravos da sua nação natal. Ele tornou-se muitíssimo rico por explorar minas de ouro, e estabeleceu sua própria corte na nobreza portuguesa de Ouro Preto. Sob a proteção da Igreja Católica e de homens de negócio que aferiam lucros provindos de sua imensa fortuna, Chico Rei foi um dos Gaius Maecenas da Nossa Senhora do Rosário e de outras igrejas de negros da cidade.
Outro exemplo em que o feitio pessoal dos membros foi o que influenciou a natureza da congregação acha-se na Igreja de Nossa Senhora do Pilar, a mais suntuosa igreja barroca da cidade. Seus freqüentadores eram principalmente abastados comerciantes, políticos e ricos “cristãos novos”, que literalmente esbanjaram mais de quinhentos quilos de ouro em pó no rico e luxuoso interior dessa Igreja. A branca Igreja de Pilar não podia ficar nada atrás do negro templo do Rosário...
O ritmo e a cadência suave da cidade de certo modo decorrem do freqüente badalar de dezenas de sinos de igrejas. Seus toques fluem como melaço, ressoando de forma vagarosa o dia todo, sempre chamando para missas, casamentos ou funerais – e anunciando também a hora de Ângelus, dando a impressão de que, na maioria das vezes, os sinos badalavam uns para os outros, sem produzir som. Eles pareciam soar para aqueles que haviam se tornado surdos a seus apelos, soavam para a irreverência dos turistas, e o seu som era uma advertência às armadilhas dos novos tempos – um triste lamento diante de uma já passada era de diamantes, cavalos e carruagens, luxuosas liteiras, exóticas sedas chinesas, licores, vinhos do Porto, diamantes, esmeraldas e muito ouro.
Uma riqueza de valor inestimável de ouro e pedras preciosas foi explorada em Ouro Preto, mas a maior parte dela foi embarcada para a Corte Imperial de Lisboa, e uma porção menor, se bem que substancial, contribuiu para alimentar a Revolução Industrial na Inglaterra. As migalhas que foram deixadas em Ouro Preto, no entanto, foram suficientes para torná-la mundialmente uma das mais ricas cidades do seu tempo.
Por mais de um século, até o dia de hoje, estudantes têm vindo de toda parte do país para se alojarem em grandes casas coloniais, estabelecidas como dormitórios pela Universidade. Os estudantes as chamam de repúblicas, cada uma delas tendo um nome que tenta refletir as características de seus fundadores: Os menos religiosos estão na república de nome Vaticano; os mais sensuais ficam no Jardim de Alá; os nordestinos agremiam-se na Verdes Mares – e assim por diante.
Quando cheguei a Ouro Preto, antes de entrar na Escola de Engenharia, minha primeira república localizava-se bem perto da Igreja de Nossa Senhora do Pilar, e seu nome era Buraco do Tatu. Este nome tem a ver com a condição de seus moradores, que viviam numa rua situada na extremidade mais baixa da cidade, perto da Igreja do Pillar.
A aldrava sobre a porta de entrada da república Buraco do Tatu era uma velha tampa de privada de madeira pintada de vermelho. Sobre ela estava, em letras brancas, a famosa frase atribuída ao imperador Constantino ao marchar contra Roma: In Hoc Signus Vinces. Essa infame aldrava, com um pouco da história bizantina, era um insulto aos bem-educados sacerdotes que conduziam procissões que passavam à frente daquela república, e mais ainda, uma permanente fonte de atrito entre os estudantes do Tatu e o povo devoto, em geral.
Ao entrar na Escola de Minas, fui convidado a entrar numa república de estudantes de engenharia chamada Pureza, que ficava ao lado duma outra república, chamada Vaticano. Dizia-se que Pureza era tão pura como neve suja em beira de rodovias, mas na época, só conhecendo a neve em cinemas, pensava que toda neve era branca e linda...
A maioria de seus estudantes, os assim chamados “os Puros”, eram bons meninos provindos de vários estados do Brasil. Eles eram um pouco desregrados, dedicados boêmios que tinham a reputação de serem beberrões, e, pior: em sua maioria, mantinha boas relações com as funcionarias da madame Santita, à guardiã do bairro proibido, localizado um pouco abaixo da Escola de Farmácia.
O povo da cidade nos tolerava, a menos que tentássemos sair com as moças da localidade – neste caso toda a tolerância terminava e eles tornavam-se tão “amigos” quanto foram os romanos de Átila. Somente com as moças que vinham de fora (turistas, por falta de conhecimento) e com as meninas da madame Santita (porque sabiam demais) é que podíamos ter encontros amorosos.
Nos primeiros anos da década de 70 a vida me era muito agradável: eu amava Ouro Preto e meus companheiros (meus “irmãos”, como dizíamos) da Pureza. A Escola era boa, e boa era também a comida servida no seu refeitório – e o meu futuro parecia ser promissor. Os que se formavam na Escola de Minas sempre encontravam um emprego com facilidade. Ouro Preto era um oásis de felicidade num país devastado por uma ditadura militar desde 1964.
Mas nesse assunto político eu não me metia e tampouco punha o meu nariz onde não era chamado; tentava me manter neutro em questões polêmicas e não confrontava os militares. Lia todo livro que me viesse à mão e estudava a história local. Dedicava meu tempo livre ao serviço de confortar e guiar mulheres solitárias que vinham como turistas em fins-de-semana e, por certo, sempre havia uma cerveja gelada que nos era servida nos bordéis da madame Santita.
Meus livros de estudo eram abertos o mínimo indispensável para eu obter uma média passável, e assim a vida me era confortável e muito agradável. Porem não demorou muito para que aquela situação tão boa de repente mudasse completamente.
O governo militar começou a atuar com maior prevalência sobre a população em geral. Em sua maioria, os estudantes por todo o país levantaram-se em protesto contra as injustiças, mas valentões da ditadura começaram a aterrorizá-los.
Que o diga o nosso querido João Bosco, hoje cantor e compositor e o César Maia, ex-prefeito do Rio, ambos ex-alunos da Escola de Minas sendo que o César, nome de guerra Do Cuzão, era nosso irmão da Pureza.
Menezes, um estudante de engenharia da República Amarra-Golo, desapareceu por algum tempo. Meses depois ele retornou à cidade: quieto, introvertido, bebendo muito, coxeando e andando com uma bengala. Sua perna tinha sido maldosamente quebrada.
Alguns estudantes que não tinham papas na língua, que eram politizados e que protestavam contra o governo começaram a desaparecer.
Agentes enviados pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) entravam em nossas repúblicas estudantis para procurar livros “políticos”; por incrível que pareça Das Kapital de Marx era um dos livros colocados na lista negra, mas não o Mein Kampf de Hitler.
Revistas e jornais com idéias contrárias, como o Pasquim - e também as de conteúdo sexual, tais como Hustler, achavam-se na lista negra. O pessoal do DOPS divertia-se em apavorar os estudantes quando faziam diligências nas repúblicas, em altas horas da noite, sem os devidos mandatos legais – e, muitas vezes, os agentes exalavam bafos de cachaça barata.
Eles sempre traziam armas automáticas e submetralhadoras. Até mesmo livros escritos por Jean Paul Sartre, Franz Kafka ou um pôster de Mahatma Gandhi poderiam ser considerados subversivos e sujeitos a serem apreendidos e seus donos investigados dependendo do alto conteúdo etílico - ou do baixo nível cultural - dos policiais. A regra geral dos agentes do DOPS era a seguinte: em caso de dúvida a respeito de qualquer coisa, a regra era considerá-la subversiva.
Ouro Preto sentia-se abatida, tal como a população pensante da nação. Um irmão de Republica, Newton, apelidado de Esculacho, era um rapaz alto, esguio de boa aparência, que cursava o terceiro ano de engenharia. Um dia ele desapareceu. Diziam que seu pecado capital foi o de ter um pequeno pôster de Che Guevara, pendurado à parede de seu quarto, e que provavelmente ele o tinha para reforçar sua imagem com as namoradas com quem compartilhava o seu quarto. No pé do ouvido se dizia que ele e Do Cuzão bem como o Lincoln, “aprontavam” em Belo Horizonte, e se isto foi fato, que bom, e mais força para eles.
Quanto a mim, irritado, eu já falava abertamente contra a ditadura e depois do desaparecimento de Newton, comecei a abrir mesmo a boca, expressando-me livremente o que o que tinha em minha mente sobre democracia, liberdade e direitos constitucionais.
À boca pequena fui então informado de que o meu nome estava na lista negra do Departamento de Ordem Política e Social. Fiquei tão aborrecido e desgostoso com isso que nem mesmo comentei o fato com a minha família.
* * * * * *
Meu pai havia sido um “pracinha”, que serviu com a FEB (Força Expedicionária Brasileira) durante a Segunda Guerra Mundial. Alem de ser um patriota era um homem bem respeitado e bem relacionado. Bastaria apenas arranjar uma declaração escrita por um advogado e por mim assinada, negando o meu posicionamento político, para que eu pudesse continuar a viver em paz. Mas eu não queria esse tipo ridículo de paz: eu já não me agüentava, estava farto de ver o meu amado Ouro Preto ser debochado, a minha República ser saqueada, a minha escola ser visada e muitos de meus amigos serem intimidados, escorraçados, mutilados ou desaparecerem.
Que o DOPS e a Ditadura dessa República de Banana fossem para o inferno!
Depois de dar de presente meus livros e outros pertences a alunos mais necessitados, e tendo arrumado numa mochila todas as roupas que nela coubessem, junto com documentos e meu passaporte, fui à estrada e dei início à minha jornada.
* * * * * *
Sem uma passagem para sair do Brasil de avião, caminhei pelas estradas e caminhos do Brasil. Cruzei as fronteiras para o Uruguai e para a Argentina; atravessei os Andes e cheguei ao Chile.
Peguei a rodovia Pan Americana, prosseguindo em direção norte. Caminhei, pedi caronas e caminhei muito mais ainda. Vi coisas que me deslumbraram com a sua beleza, outras que foram repugnantes e algumas me amedrontaram, mas nunca perdi o meu objetivo de sair do Brasil.
Fui caminhando e pedindo carona inicialmente para o Sul, cruzei os Andes e depois segui sempre para o norte até que um dia cheguei à Califórnia, nos Estados Unidos, um ano e meio depois.
O orgulho não me deixou pedir qualquer subsidio aos meus pais. Paguei meu curso universitário na América fazendo as entregas do jornal Los Angeles Times, e também dirigindo um caminhão de suprimento aos aviões no Aeroporto Internacional de Los Angeles.
Minha vida girava em torno do El Camino College. Fiz amizade com um professor, de nome Bruce Milton Brown, que, além de amigo, tornou-se meu confidente e guru intelectual.
As mesas do píer da praia de Redondo, e as do Centro de Estudos em El Camino tornaram-se o meu local de estudo. Os locais abertos junto ao lago Arrowhead e Big Bear ficaram sendo refúgios para mim, e uma Kombi Caravana me serviu para o transporte, casa de campo, casa de lago e residência de praia.
COMPRAS http://www.livrariacultura.com.br/scripts/busca/busca.asp?palavra=O+Papa+Besouros&tipo_pesq=&tipo_pesq_new_value=false&tkn=0
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quinta-feira, 15 de setembro de 2011
sábado, 13 de agosto de 2011
A 'boca do capeta' - lembranças do jovem Bino
A primeira pedrada ao vitral, como profetizado e colocado em
palavras pelo Vito, foi um “caminhão de bosta que bateu na hélice de um
avião Hércules”:
O prefeito Andrade no mesmo dia foi ao Palácio do Governador
na Capital e o cumprimentou com o “verdadeiro” aperto de mãos de Mestre
Maçom.
Aliás, alguns parasitas que orbitavam em volta do governador
ficaram perplexos e enciumados pelo modo “afetuoso” com que o prefeito
de João Neiva cumprimentava o governador. Para eles esta “agarração
de mão” era “um modismo matuto de um prefeitinho pé-de-chinelo e
bajulador”. Um dos assessores do governador chegou até a brincar:
– Está bem, Senhor Prefeito, agora o Senhor pode largar a mão do
Governador –, mas os dois o ignoraram.
O Governador e alguns sábios políticos, incluindo-se gente de
seu gabinete, deram atenção ao relatório verbal do prefeito sobre as tribulações
que a Loja Azul vinha enfrentando em João Neiva.
Bino não sabia a estória toda, mas certamente o prefeito devia
ter “soltado os cachorros nos padres,” que andavam “comendo o cérebro”
do povo da cidade: Alguns até já deviam acreditar que o templo dos
bíblias era mictório infantil, que os bodes adoravam o Diabo na figura do
Bode Negro, e que vitral de Loja Maçônica era alvo de pedradas.
O Vito, em sua linguagem arcana, bem tinha avisado ao Bino:
– Não entre nesta, Bino. É “boca de capeta”. Esta gente anda cutucando
onça de vara curta e ainda pior – "eles não sabem por onde o peixe
mija!” E por muitos anos Bino não entendeu esta alusão ao urinar de
peixes.
Mas, de qualquer forma, o governador convocou a cúria e teve
uma reunião com uns poucos “entendidos do assunto” e entre eles, estava
o Juiz Hudson de Aguiar, o Prefeito Andrade, o Pastor Wilson do Amaral
Tanini, vindo de Niterói e o bispo Fuchs da Capital.
O que foi dito e concordado entre eles ninguém sabe, mas os
sacerdotes italianos foram transferidos para outro Estado e os substitutos
deles deixaram os maçons em paz daquele dia em diante.
Eles também se retrataram da estória por eles criada de “bodes
pretos” e, a partir de então, passaram a referir-se aos frequentadores da
loja como “nossos amigos maçons”.
* * * * * *
Com respeito ao problema que os “Bíblias” estavam enfrentando
em sua igreja, para eles a solução veio de um modo mais simples.
Um dia um corpulento texano foi até a Vila numa caminhonete
Ford F-100 novinha em folha, calçando botas do faroeste, usando chapéu
enorme e, como se diz no Texas, de cinco galões, que segundo Vito
“cabia água dentro dele para dar de beber a meia dúzia de vacas.” Vito, não
se sabe como, descobriu depois que seu nome era Larrison H. Pike.
A visita do Gringo curiosamente se deu num dia de reunião na
Loja Maçônica. Desta história poucos conhecem seus detalhes, pois a
maior parte dela aconteceu dentro da tal Loja Azul. Muitos viram aquele
corpulento americano de rosto avermelhado, estava com um lenço na
mão e suava bastante.
O carteiro de João Neiva disse que ouviu da irmã de um Bode,
que o Gringo era familiar a todo o procedimento secreto deles. Ela notou
que depois de apertar mão do pessoal em frente da loja e falar um
pouquinho com o tal Mestre de lá, o Gringo voltou à caminhonete, pegou
um tipo de batina preta e uma vestimenta que parecia um babador
ou avental trabalhado em azul - e conversando e rindo familiarmente
entrou na loja com os bodes.
Na reunião foi-lhe dada uma oportunidade de dirigir-se a seus
irmãos e ele deu início à sua palavra com um sinal que era conhecido
somente por eles, o Grande Sinal de Socorro.
É pensamento geral que ele falou com seus irmãos sobre a perseguição
aos batistas, e eles certamente o ouviram com atenção. Ao deixarem
a loja, todos se abraçaram e quase nada de importante falavam.
Vito Cuzzuolli, sempre velhaco, escutando às escondidas, conseguiu
captar alguns pontos das conversas deles e começou a espalhar
rumores. Uma coisa que ele contou para todo o mundo foi que o pai do
texano era falecido, pois ouviu o americano dizer meio choroso que sua
mãe era viúva.
“Certamente”, dizia Vito “com dó do gringo órfão, os bodes lhe
disseram que fosse em paz e que eles se encarregariam de acabar com a
mijação de igreja.”
* * * * * *
A solução veio assim: em João Neiva havia um luterano gigante,
meio brasileiro, meio alemão, de nome Otto Kahle, que era quieto, de
pouca conversa, muito controlado, mas de gênio explosivo.
Este Otto foi sumariamente declarado o Delegado Interino da
vila. A pessoa que ele escolheu para ser seu braço direito, também era um
filho de Bode.
O delegado Kahle era um colono aparentemente calmo e de muito
boas maneiras, mas era sempre muito objetivo, ou no linguajar do povo,
“curto e grosso”.
Em seu primeiro dia como Delegado, ele foi visitar os párocos
locais e convocou uma reunião na Casa Paroquial. O que lá aconteceu,
todas as velhas senhoras da Vila, com ligeiras alterações, até hoje contam
com certo excitamento e com risinhos nervosos.
O delegado foi à Casa Paroquial e expôs casualmente aos padres
e seus párocos que na reunião estavam, como um fato consumado, que
“a partir daquela hora, ninguém vai causar qualquer dano na propriedade
da Igreja dos Bíblias” e, com polidez, sorrindo afavelmente, continuou a
discipliná-los:
– Senhores, eu detestaria ser forçado a castrar alguns dos meninos,
pois esses são bem jovens e deles se espera que cresçam se tornem
homens de respeito: – Que se casem e tenham uma família -, disse ele
acentuando algumas palavras.
terça-feira, 9 de agosto de 2011
BINO TEDESCO o personagem principal de O PAPA BESOUROS
QUEM É BINO TEDESCO? ONDE COMEÇA SUA AVENTURA?
Fica no ar se o autor falava de um personagem real ou ficticio uma vez que ao longo de toda narrativa as situações, personagens e locais tem fundamentação real. Verifiquem:
Fica no ar se o autor falava de um personagem real ou ficticio uma vez que ao longo de toda narrativa as situações, personagens e locais tem fundamentação real. Verifiquem:
* * * * * * * * * *
Também Dom Genaro era Diretor Esportivo do time juvenil do Sul América, e
responsável por ter encontrado o Bino, um menino bem esperto, goleiro do
time de futebol da destilaria do Fantini, cuja atuação na trave do time oponente,
dava muito trabalho ao juvenil do Sul América; Dom Genaro convidou-o para
seu time e treinou-o como um dos melhores goleiros juvenis da região.
Mais do que isto, havia uma cumplicidade maior entre os dois:
Bino pouco sabia sobre seu pai; aliás, Bino até o odiava. Este assunto
paterno era tabu para sua mãe Izabel, e o que ele conhecia bem era o
estigma da vila, que sempre mencionava ele como “Bino o filho do Padre”.
Mas Dom Genaro conheceu bem seu pai, Umberto Tedesco,
um padre Italiano que chegou a paróquia da Vila em experiência por
estar vacilando na fé. Em João Neiva, Padre Umberto se apaixonou
pela Izabel, retornou a Itália e morreu em Roma de tuberculose esperando
a aprovação do papel para se casar com ela e cuidar de seu filho.
Esta verdade e o Sul América devolveram a auto-estima a
Bino, que agora era um atleta querido na cidade e visto como o
herdeiro natural de sua posição no time da primeira divisão. Desde
então, nas costas de seu uniforme negro seu nome era escrito
em amarelo: Tedesco.
* * * * *
Dom Genaro era um homem de poucas palavras. Era alto, muito magro,
com um enorme bigode-de-guidão, e sempre usava um largo panamá
que sombreava seus penetrantes olhos azuis. Com o seu forte sotaque
italiano, ele educadamente saudou a todos com o chapéu, dizendo:
– Senhores... –, e em seguida voltou-se para o prefeito e comentou:
– Então, senhor prefeito, hoje parece ser o grande dia de João Neiva!
– Parece que sim, Dom Genaro. Assim esperamos...
Enquanto os adultos conversavam, os olhos acinzentados de
Pia discretamente encontraram-se com os de Bino. Depois de um
rápido devaneio, ele tirou seus olhos do olhar dela e olhou para a
estrada. Pia demonstrava um leve sorriso em seus lábios e Bino
estava enrubescido. Definitivamente eles se gostavam.
Dom Genaro completou a sua breve conversa dizendo:
– Tenho coisas importantes a entregar no hotel.
E, despedindo-se com um aceno em seu chapéu, disse:
– Uma boa tarde para vocês todos!
Olhou então para Bino e acenou brevemente a cabeça.
Com um rápido toque de rédeas, sinalizou a Sansão para mover-se,
saiu em trote rápido para o hotel.
A multidão observava, e alguns saudosistas até ponderaram sobre a
cena do passado movendo-se bem defronte a seus olhos.
* * * * * * * * * * * *
Já há alguns anos a ferrovia principal desviava-se da Vila de João Neiva,
deixando assim de passar por ela todo o comboio que trazia minério de
ferro do interior de Minas para o porto de Vitória. Desde então a estação
de João Neiva tornara-se um ramal secundário daquela linha ferroviária,
e os passageiros do trem expresso, que para lá iam, tinham que fazer
baldeação na estação anterior de Caboclo Bernardo. E desta estação,
tomavam um trenzinho que fazia a conexão com João Neiva, percorrendo
uma distância aproximada de três quilômetros. Era um trecho de trilhos
desgastados, cheio de curvas, percorrido por um comboio de apenas
dois cambaleantes vagões de madeira, puxados por aquela velha
locomotiva a vapor, construída havia mais de cinqüenta anos na
Filadélfia, Estados Unidos.
Tudo, porém, estava para mudar. O Departamento de Relações
Públicas da Estrada de Ferro havia informado ao povo da Vila com
bastante antecedência que, para cortar despesas, o velho trenzinho
de conexão seria substituído por um rápido ônibus, que proporcionaria
até mesmo mais conforto aos passageiros. E o tal ônibus já estava para
chegar: havia saído de São Paulo na noite anterior, e poderia chegar
a qualquer momento. O serviço de conexão feito com o ônibus deveria
iniciar-se no dia seguinte.
O que os Joaoneivenses não sabiam, era que aquela esperada
chegada do “progresso”, perversamente constituía apenas o início da
desativação de todas as atividades que a Vitória–Minas tinha em
João Neiva. Em sua Sede Administrativa, a desativação daquele
ramal era eufemisticamente referida como “Primeira Etapa”.
Depois de acabar com o dispendioso trem de conexão, a Segunda
Etapa viria dentro de seis meses: o encerramento das atividades
da Central de Manutenção de Locomotivas, que era a principal fonte
de empregos na Vila. Na Terceira Etapa, todas as atividades na
estação ferroviária da localidade seriam extintas: seu agente seria
aposentado, e também os funcionários do telégrafo, ajudantes, os
sinaleiros e o pessoal da manutenção da linha, após o que todas as
casas de propriedade da empresa seriam vendidas – casas essas
que no momento estavam alugadas aos empregados a preços simbólicos.
A Quarta e última Etapa seria aquela que traria sobre a vila
um efeito ainda mais devastador. Seriam cortados todos os subsídios
que eram dados ao time de futebol que, naquela região, tinha a maior
torcida, e que mais título havia conquistado: o Sul América Futebol Clube:
paixão, orgulho e deleite de todo aquele povo de João Neiva.
* * * * * * * * * * * * * *
Conheça um pouco de João Neiva e sua ferrovia:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Estrada_de_Ferro_Vit%C3%B3ria_a_Minas
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
TRECHO DE 'O PAPA BESOUROS' - NAQUELA MANHÃ DE FÉRIAS
Por onde andará o meu amigo de infância, o Bino? A negócios e a passeio, andei por vários continentes, sempre o buscando nas paginas telefônicas dos hotéis. Conheci os Tedescos de Treviso, na Itália, retornei algumas vezes a João Neiva – e nada do Bino. Uns dizem que ele mora em São Paulo, tem fábricas e jatinho particular. Outros garantem que ele vive no Tibete como Monge Budista. Outros juram que ele tem um programa Evangélico em um Canal de Televisão de Los Angeles. Outros dizem que ele está preso. No outro dia juraram que uma pessoa parecida com ele, esteve em João Neiva há muito tempo e se foi com a Pia Thereza do Hotel Vitória, levando seu filho Pietro; mas esse hotel está interditado há anos. Os advogados nada falam.
Por onde andará o Bino?
* * * * * *
Antes de atravessar a Ponte de Ferro Preta, meu primo apontou o Bino, vulgo Vara Pau, descendo o Morro dos Canecos. Ele se rastejou por baixo de uma cerca de arame farpado cortando caminho pelo cemitério batista, pulou um valão, cortou pelos fundos da casa de seu Zé do Boi, desviou do vira-lata de Dona Aparecida e se encaminhou em nossa direção para irmos juntos a casa do seu Policarpo, técnico de futebol do Juvenil do Sul América.
– Lá vem o Bino, disse o primo
– Cadê ele?
– Tá vendo? Perto da casa da velha Teresa.
Então vi o Bino. Sua figura esguia investia morro abaixo como um cabrito em jejum.
Meu primo me olhou, e lendo na expressão marota de seus olhos, berrei:
– Bino-o! B I N O - O – O!
Chegando a Rua Beira Rio, agora a Silvino de Mattos, Bino troca de rota, se afastando de nós, ignorando o meu grito-apelo ele dobrou a esquerda, indo rio acima, em direção a Ponte de Pau. Mais do que frustrado, senti-me triste. Dentro de instantes ele iria desaparecer por trás da casa do velho Gianolli e temi que o desaparecimento de Bino resultasse na perda de minha manhã. Meu olhar descansou sobre os dormentes da Estrada de Ferro Vitória a Minas que pareciam dormir, e senti toda a plenitude opressiva de uma manhã quente e lerda. A brisa de água doce acariciava mornamente a vida, e trazia a poeira da estrada BR 101 em construção e envolvia a minha manhã num manto vermelho e triste.
Temi a perda da companhia do Bino. Coloquei ambas as mãos a boca e trombeteei:
– BINO-O! BINO VARA PAU!
Silêncio. Bino impassível continuou em sua marcha, ágil e rápida. Meu primo, inquieto, gaguejou ligeiro: --Vamos gritar juntos “Bino Vara Pau” quando eu contar até três:
– Um, dois, três: – BINO VARA PAU! Berramos com todo o fôlego.
Por um lapso de tempo houve uma pausa triste e longa. Para o lado norte da Baixa da Égua, somente os periquitos e cagasebos nos responderam em revoada estridente e sonora. Depois veio do Monte Negro um eco raquítico, pálido como um lamento de impaludismo:
– Vara Pau Au au au…
Fomos andando em direção a Ponte de Ferro Preta e vi, debaixo dos trilhos e dormentes, o Rio Piraqueaçu, rolando indolente e raso, ninando um porco que boiava mansamente, correnteza abaixo, como fosse uma miniatura de um porta-aviões de moscas varejeiras.
A sirene da oficina de reparo de locomotivas da Estrada de Ferro gemeu triste, chamando os operários. Chamava e chamava num mantra doentio e longo que parecia enlutar a vila. Veludo, o cachorro de pelos ásperos do velho Giácomo latiu aos céus, esfregou a cara na poeira vermelha, e uivou rumo ao sol, que estava sendo encoberto por uma nuvem branca, agourenta e seca.
Sentindo o dia nublar, também olhei em direção ao sol e vi a nuvem: ela me parecia a mão ressequida de um deus mesquinho de chuvas e embaçador de manhãs de férias. Um frio súbito encobriu-me o corpo, arrepiando os cabelos dos braços. Tive medo: a nuvem-mão parecia funesta. Olhei para o primo e sua face imberbe estava petrificada, magnetizada por outra visagem: A figura alegre de Bino, alerta, em passos firmes cruzando a Ponte de Pau, parecendo vir em nossa direção. Um esboço de riso risca o rosto de meu primo para se desabrochar em um sorriso. Um sorriso semelhante ao que ele esboçaria algum ano depois, morto na rodovia.
Imediatamente olhei em direção a Ponte de Pau e minha manhã se abriu em luzes e se explodiu em ramalhetes de alegria, esparramandose por eternidade efêmera: lá estava o Bino, viril, ereto, plantado na ponte, com ambas as mãos apontadas em nossa direção como mocinho de filme antigo de Faroeste Americano, empunhando os seus revólveresColt: tinha os seus dedos médios estendidos e os indicadores e anelares obscenamente encolhidos e balançava-os ameaçadoramente na nossa direção num duplo “aqui para vocês”, em mensagem clara, universal einequívoca.
Meu primo ria horrores. Eu via o mundo em dilúvio de lágrimas hilariantes, embebido em um dueto de gargalhadas livres e displicentes. Em seguida, uma voz forte e irritada, trovejou da ponte:
– A “Vara Pau” está aqui pendurada, gritou o Bino agora com sua mão direita balançando o saco.
O primo e eu rolávamos sobre as britas e trilhos da estrada de ferro, rindo de chorar, gargalhando e gargalhando, segurando as nossas barrigas que doíam e parecendo crescer, crescer como o Monte Negro
que nos observava silente, sem dizer que eu jamais veria o Bino de novo. Ah, mas eu ri tanto que me esqueci da nuvem ressequida passando, rolando para o leste, indo lá para os lados da Cachoeira do Inferno.
Na ocasião, confesso, nem notei que os trilhos bem como o rio, ea vida rolavam em direção ao mar.
Passada a nuvem, o sol voltou a requeimar a vila, roubando o orvalho das pastagens e secando as folhas úmidas das árvores novas. A correnteza lerda, finalmente limpou o Piraqueaçu, rolando o porco-ilha rio abaixo.
Novamente os seixos reluziam no leito do rio, refletindo o sol e cintilando cristalinos como se fossem estrelas de uma efêmera constelação áqueo-diurna.
Ainda rindo e descalços cruzamos a Ponte de Ferro Preta, acordando os dormitantes dormentes e flutuando para a casa de nosso treinador.
Bino já estava lá calado, vestindo a sua camisa de goleiro, negra, de manga comprida e acolchoada nos cotovelos.
Nunca confessei, mas eu tinha ciúmes da camisa dele, a única do time a ter o seu nome escrito em letras amarelas em suas costas: TEDESCO.
O velho Policarpo tinha todo o material de treino dentro de um saco de açúcar alvejado, e já estava pronto para sair e começar o treino no gramado.
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