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domingo, 17 de junho de 2012

Vietnã - a sombra da guerra encobre Bino


Mas, parafraseando o velho adágio, tudo que é bom, dura pouco, quando a vida do casal parecia andar cada dia melhor, Bino recebeu uma carta do governo americano que ameaçava a desconstrução da bonita história que eles tinham começado a criar: Bino estava sendo convocado para a guerra do Vietnam.

Já se falava por todos os Estados Unidos na “vietnamização” desta maldita guerra e que as tropas dos EUA estavam sendo drasticamente reduzidas na área de conflito e quando tudo parecia estar indicando o final da guerra e o retorno das tropas americanas, eis que ao apagar das luzes chega esta maldita carta para Bino se apresentar às forcas armadas.

Cindy chorou muito e xingou a guerra, o governo, os políticos e chorou muito mais ainda. Chegou até a propor a Bino para eles se mudarem para o Canadá – país que recebia os jovens que se recusavam a lutar no Vietnam.

Claro, Cindy sabia que voltar ao Brasil poderia ser ainda mais perigoso para Bino e ela realmente não sabia o que fazer. Uma hora ela dizia que queria um filho para diminuir as chances de Bino ir para o Vietnam. Outra hora falava que ele devia se declarar um “CO” um Conscience Objector - termo significando Objeção de Consciência pela guerra - e tentar a sorte em obter um alistamento sem pegar as armas. Mas sendo Bino estrangeiro, ele corria o risco de deportação; enfim, a Cindy não sabia o que fazer.

Um dos companheiros de trabalho de Bino sugeriu que ele deveria se casar logo com a Cindy e não se recusar a fazer o treinamento militar básico que duraria dez meses. Neste período a guerra certamente estaria terminada e mesmo que não estivesse já deveria estar chegando ao fim; nesses dez meses haveria uma redução drástica de tropas americanas e os recrutas casados certamente não seriam convocados.  E foi mais além o amigo, explicando que se a Cindy estivesse grávida haveria ainda menos chances de Bino ir para o Vietnam.



                                                           * * * * * *

Os anos sessenta e setenta nos Estados Unidos, e, mormente na Califórnia eram tempos e dias loucos.

Era época de protesto contra a guerra no Vietnam, de distúrbios sociais; de demanda dos negros por sua integração social e protestando a segregação racial ateando fogo em Agosto de 1965 na Cidade de Watts, um gueto negro na Califórnia. Para dominar a revolta foram necessários quatorze mil Guardas Nacionais e mil e quinhentos policiais.

Depois, revolta e protestos pela morte do líder Dr. Martin Luther King em Abril de 1968; Em Nova Iorque, em Woodstock foi feito o “mais famoso evento na história do Rock and Roll” segundo o Rolling Stones, com a presença, do Grupo Graetful Dead,, Blood Swet and Tears, Joan Baez, Santana, Janis Joplin e muitos outros incendiando os espíritos da juventude com sentimentos de protesto contra a guerra do Vietnam. Lá entre a multidão de jovens contestando os valores, protestando a guerra e curtindo a vida deles, estava  a Gandira, a amiga do Bino.

Califórnia estava em pé de guerra. Havia uma subcultura de drogas e alienação a valores estabelecidos por parte dos hippies e também a antítese do movimento hippie que era a onda dos Krishina que buscavam a essência da vida por meio da espiritualidade, via hinduísmo. As drogas rolavam soltas, a juventude andava sem rumo. Religiões formais e estabelecidas e valores familiares eram contestadas criando-se um ambiente favorável a procriação de gente como Charles Manson e seus seguidores. A juventude andava perdida e mal encaminhada em muitas áreas.

As universidades fervilhavam com todos os tipos de protestos. Muitos campi se tornaram campo de batalha, como o da Universidade Estadual de Kent, no Ohio onde quatro estudantes foram mortos. Quatrocentas universidades e Colleges se fecharam em protesto. Nixon perdeu cinqüenta por cento de sua popularidade. Havia também uma guerra interna entre o governo aguerrido e uma juventude desiludida, rebelde e combativa que abominava a cultura alienada, materialista, engessada e suburbana que se criou na América depois II guerra.

                                          * * * * * * * * * * *  * * *





Para complicar ainda mais, a Guerra do Vietnam também contribuiu para o distúrbio social, especialmente durante a presidência de Richard Nixon: Para a guerra iam proporcionalmente mais negros e outras minorias, do que brancos. Para ser bucha de canhão não havia descriminação racial e ao contrário – percebiam os negros – havia até preferência a gente de cor. E novamente, os Negros se rebelavam também contra a guerra.
Mas uma coisa era comum a todos os soldados, independentemente de raça, a guerra os transformava: Ela retorcia estes adolescentes armados e os recambiava aos seus locais de origem transformados numa juventude violenta, desiludida, cínica e desnorteada - e mutilada física e mentalmente.
Muitos voltavam da guerra usando do haxixe a heroína - além de muletas e cadeiras de roda. A taxa de suicídio entre estes retorcidos era alta e também o índice de distúrbios mentais e violência. O Vietnam quase acabou com uma inteira geração de guris americanos que foram à luta.
Não era muito fácil ser “careta” nesse tempo na Califórnia. Como Gandira deveria dizer lá no Retiro Krishina de Ibiraçu, “são tempos de Kaliuga”, tempos de destruição.
E Bino se adaptou a esta Califórnia louca, livre, linda, violenta e desregrada: Ele e a Cindy conseguiam viver tranquilamente no meio dessa loucura, não exatamente como monges - mas também não como a garotada da pesada.

                                                           * * * * * *

O pagamento mensal militar de treinamento básico no exército era uma esmola de ajuda de custo - e isto sacrificava o pagamento das despesas da casa. Bino então decidiu se alistar na Marine Corps, os Fuzileiros Navais, um grupo militar de elite, onde poucos eram selecionados e que exigia treinamento rigorosíssimo. Mas nos Marines o pagamento durante o treinamento e combate era bem melhor.
Cindy estava deprimida com a situação militar do marido e este se recusava a fugir para o Brasil ou Canadá. Para Bino não fugir dos EUA, perversamente em sua mente de jovem, era uma questão de honra, de não ser chamado de “desertor” ou “covarde”.  Era algo que ele não sabia explicar bem, que ele não achava lógico ou acertado – porém não podia agir de outro modo.
Ele foi mandado para o campo de treinamento básico dos Marines em Pendleton no Condado de San Diego, localizado entre as cidades de San Clemente e Oceanside, a uma hora e meia de carro de Los Angeles em dias de tráfego favorável.
A sua folga era pouca. O treinamento de doze meses era duríssimo e longo.  Muitos não passavam a prova de fogo e eram rejeitados. Os que permaneciam era chamados “The few, the proud, the Marines” – Os poucos, os orgulhosos, os Fuzileiros Navais - e Bino gostou de ser um dos poucos escolhidos entre muitos chamados.
Também havia uma camaradagem imensa entre “os escolhidos”. O lema dos Marines é “Semper Fidelis” e eles realmente eram fiéis uns aos outros.







quinta-feira, 29 de março de 2012

Enfim - Os Estados Unidos da America ! Final de viagem?

Vislumbrando um final para a viagem


O ônibus nem bem parou na estação rodoviária de San Izidro, Bino começou a se lamentar do modo ríspido com que tratou os culeros de Tijuana: San Yzidro parecia ser ainda o México.

            Quase todos na rodoviária pareciam mexicanos e falavam espanhol. Claro, Bino sabia que já estava na Califórnia, EUA, mas parecia ainda a Baja Califórnia. Quase todos os letreiros que ele viu nos arredores e também na Rodoviária estavam escritos em espanhol e as pessoas, em sua grande maioria, naquela cidade eram latinas e falavam o espanhol.

            Quanto ao inglês que Bino aprendeu em São Paulo com o Pastor Tommy e seus amigos, era quase inútil e parecia piada sem graça. Parecia que na fronteira o povo falava muito rápido e usavam palavras e contrações verbais que ele nunca tinha escutado antes. Também as muitas palavras novas e xingamentos. Enquanto Bino parava para meditar ou puxar do fundo do baú da sua mente uma determinada palavra para entender uma sentença, o interlocutor já estava a duas frases adiante e usando mais novas palavras que ele nunca tinha escutado.

            Parecia que eles falavam num patoá que não dava para ele entender, mesmo tendo aprendido um caminhão de gramática. Seria isto o chamado texmexican?  Um tipo de inglês de fronteira diferente? Mas talvez em Los Angeles fosse diferente e ele entenderia mais, pois lá é bem EUA, lá está Hollywood e todos aqueles artistas.

            Frustrado ele pensou em sair do ônibus e esticar as pernas um pouco mais, mas sentiu que estava sendo observado por um homem moreno vestindo calca jeans com cinturão de fivela prateada, botas texanas e chapéu de vaqueiro de feltro negro. Ele estava sentado num banco, cigarro no canto da boca e olhava para outro lado, mas Bino sentiu que a sua visão periférica estava cravada na porta do ônibus.

            Bino sentiu que talvez a sua suspeita fosse infundada e até teve medo de estar meio paranóico, mas pelo sim ou pelo não ele decidiu não cutucar o capeta de vara curta e ficar no ônibus e só sair dele em San Diego ou talvez só no ponto final da viagem, em Los Angeles.

            Se o tipo mexicano-texano entrasse no ônibus ele sentaria perto de alguma pessoa e em Los Angeles procuraria a policia. Mas não foi necessário. Alguns minutos depois, mais pessoas embarcaram no ônibus, mas o cara de botas e chapéu negro nele não entrou – para a tranqüilidade de Bino.

                                              

                                                                       * * * * * *



            Em menos de vinte minutos depois da saída de San Izidro, antes da parada final em Los Angeles o ônibus  chegaria a San Diego.  Antes da chegada, Bino ficou animado ao ver cenas do Oceano Pacifico e ranchos bem cuidados com casas suntuosas. Apesar de tão perto da fronteira, San Diego era uma linda cidade e bem americana: Bino ficou espantado que no meio de uma área desértica surgissem tantas árvores.

            À medida que o ônibus se aproximava da cidade, Bino já via alguns edifícios altos e se admirou como a cidade era espraiada e as casas eram amplas e bem separadas umas das outras, em muitas ele pode ver piscinas e não havia muros entre as gramas das casas.

            Do ônibus Bino viu algumas marinas e ficou abismado com o número de barcos que lá estavam ancorados.  San Diego pareceu a Bino uma cidade limpa, moderna, bonita e bem cuidada: havia carros de todos os tipos por todos os lados, mas Bino estranhou que não havia muitos edifícios altos e o número pequeno de pessoas andando em suas calcadas no centro.

            Ele viu algumas viaturas da Marinha de Guerra Americana e muitos marinheiros e de imediato se deu conta que lá deveria ter uma grande base da marinha e ele estava certo sobre esta suposição. Bem, pelo menos não eram tanques verde oliva e nem milicos de Exército, pensou ele.

            Bino desceu na rodoviária limpa e ampla esticou as pernas, mas não saiu de perto do ônibus. Olhou cuidadosamente ao seu redor e notou que havia mais americanos naquele local, mas assim mesmo continuava uma forte influência de pessoas que pareciam ser de origem latina.  Bino respirou fundo e ficou mais aliviado por não ter encontrado nenhum tipo suspeito, nenhum destes latinos de mau caráter como os culeros de Tijuana ou San Izidro.

            Foi arisco ao banheiro, e o local era limpo, e estava com bastante usuários. Bino lavou-se cuidadosamente com sabonete liquido, havia água quente na pia e muitas toalhas de papel para se secar. Eles falavam em Inglês, mas lá Bino também não entendia nada. Talvez fosse o sotaque de perto da fronteira, ou o modismo do sul da Califórnia que fizesse o inglês ser tão diferente do que ele falava com o Tommy.

            Bino se olhou no espelho grande adiante dele e notou que ele estava magro e parecia que envelhecera uns cinco anos. Ele encolheu os ombros, tirou da jaqueta uma escova de dente e os escovou bem com o sabonete liquido e rapidamente voltou ao ônibus.

            Na rodoviária de San Diego, Bino notou que o logotipo da companhia de ônibus Greyhound parecia ter sido roubado da Viação Itapemirim de seu estado natal, no tempo em que estes ônibus eram azuis e prata com um Cachorro de corrida da raça greyhound, bem esguio e pulando veloz, parecendo voar adiante. Estes ônibus americanos da Greyhound certamente encamparam o logotipo bolado pelo Senhor Camilo Cola, fundador da Itapemirim, mas somente muitos anos depois ele soube que foi o vice-versa.



                                                           * * * * * *



A viagem para Los Angeles foi rápida. Durou cerca de duas horas e meia. Bino dormiu um pouco e por breves períodos acordados se abismava com as super estradas, os freeways.  Seu ônibus ia por uma auto estrada de múltiplas pistas com fortes divisórias de cimento armado, era bem sinalizada e não tinha cruzamentos. Havia enxames de todos os tipos de veículos por todos os lados e ele ficou de boca aberta em ver tantos conversíveis enormes, de capota baixa, muitos deles dirigidos por mulheres e negros, fatos que ainda não estavam programados a serem aceitos em seus circuitos de assimilação.

A estrada se intercalava com rampas, viadutos e trevos suspensos a conectando com outras auto-estradas formando uma admirável malha rodoviária.

Bino ficou boquiaberto, com a quantidade enorme de construções, de casas, vilas e mais construções que ele via; parecia que os americanos eram formigas que estavam sempre trabalhando em alguma coisa. San Diego devia estar quase que conectada a Los Angeles por construções, casas, vilas e fábricas

Maravilhado, Bino dormiu um pouco mais e quando menos esperava já estava no centro de Los Angeles, local cheio de edifícios altos e movimentado. Era uma cidade maior do que San Diego, mas era desleixada. Perto da humilde rodoviária, ele viu muita gente suja e mal vestida, aparentemente pedintes, viu novamente muitos latinos porém ficou mais impressionado com o número de negros que tinha a cidade. Nunca em filmes americanos Bino tinha visto tantos negros.

Finalmente o ônibus chegou ao centro de Los Angeles, parou num tipo de sobrado velho onde era a parada somente para os ônibus da Companhia Greyhound. Bino não gostou da primeira impressão da cidade. Talvez melhor fosse começar tudo por San Diego ou outra cidade, ele pensou.

Saltou, pegou sua mochila e mostrou ao motorista um papel que estava escrito “SALVATION ARMY” e este lhe apontou uma direção e falou algo que Bino não entendeu. O motorista observou que Bino não entendia nada e explicou novamente desta vez falando mais alto. Embaraçado Bino sorriu, fingiu que entendeu e partiu na direção apontada. Ele repetiu esta operação algumas vezes e seguiu sempre na direção apontada.

Bino observou que a área se tornava cada vez mais densamente povoada de negros e vendo isto temeu pela sua segurança. Os negros dos Estados Unidos só eram do tipo raro, chamados no Brasil de “negões”. Gente grande, vestidos diferente, a maioria era quase azul-marinho. Eram muito diferentes dos cafuzos, mulatos e pardos que ele sempre conviveu harmoniosamente no Brasil e ele ficou meio sem entender nada.

Mas este povo era tranqüilo: alguns meninos jogavam basquete nas ruas, alguns adultos estavam sentados em varandas de casas antigas, outros se congregavam em grupos. Mas naquela vizinhança, uma coisa Bino entendeu bem: ele não os entedia - e o inglês deles para Bino era chinês.

Daí, cansado e carregando sua mochila, Bino limitou-se a perguntar somente “Salvation Army. Please”, somente a pessoas de idade e que pareciam entendê-lo um pouquinho e eles foram sempre corteses e apontaram na direção certa – mas Bino continuava perdido e por mais que se esforçasse, ele não entendia uma só palavra do que todos diziam.

Depois de umas voltas erradas e retornar à mesma casa onde havia perguntado por último, uma senhora negra, de avental e lenço na cabeça, idosa, alta e gorda gritou energeticamente a um menino e lhe disse alguma coisa que Bino não entendeu; meio contra vontade o moleque, segurando uma velha bola de basquetebol foi cabisbaixo na frente de Bino umas três quadras e finalmente apontou um prédio antigo de tijolinhos marrom escuro que era o bendito albergue do Exercito da Salvação em Los Angeles.



                                                          

                                                           * * * * * *



O local deu medo a Bino. Definitivamente estava povoado de todo tipo de raça e de gente, mas uma coisa era comum: ali só existia gente da última estação do trem da vida. Amputados da guerra do Vietnam, gente com a aparência de drogado, bêbados, vagantes, desocupados e uns poucos que se via que estavam fazendo força por um tipo de recuperação sócio-espiritual, tentando galgar a penúltima ou antepenúltima estação da vida para seguir rumo melhores posições.

Na portaria Bino foi atendido por um senhor de meia idade, vestindo roupas usadas e de tamanho pelo menos uns dois números maior do que o seu tamanho. Olhando-o mais de perto, Bino notou que o homem não deveria ter mais do que trinta anos, mas o desgaste de sua vida lhe dava uma aparência de velho. O homem sorriu para Bino, o chamou de “irmão” e placidamente lhe deu um sorriso de boca desfalcada de dentes.

Em seu inglês limitado, Bino mostrou o passaporte, disse que era do Brasil, e que tinha uma carta de apresentação para O Exército da Salvação. Procurou no fundo da mochila, abriu uma bolsa de plástico com seus documentos e tirou um envelope amarrotado com uma carta datada de meses atrás, escrita em papel timbrado do Exército da Salvação e assinada pelo Pastor Tommy e com o carimbo da instituição em São Paulo.

Em inglês ela dizia:



               A QUEM POSSA INTERESSAR

                          

São Paulo, 02 de 1970      

                      

            Apresentação do Senhor Bino Tedesco





Meu nome é Thomas Simpson sou Capitão e Capelão do Exército da Salvação em São Paulo, Brasil no Posto de Atibaia.

O portador desta é Sr. Bino Tedesco, ex-funcionário do E. S. em Atibaia São Paulo e deverá apresentar esta nos YMCAs dos EUA.

Rogamos aos Senhores que o dêem a ele todo o apoio necessário. Seu destino final é Fresno, Califórnia onde se encontrará com meus familiares.

Solicitamos também aos senhores facilitar a sua comunicação com o meu irmão o Sr. Raymond Simpson, cujo endereço e telefone está em posse do portador.

Esta ajuda e apoio são muito importantes e será apreciada de minha parte.

           

Saudações em Cristo,

           

Do agradecido irmão,

           

Capt. Thomas Simpson

Capelão, S.A. - Brasil





            Após ler cuidadosamente a carta do pastor Tommy, o jovem-idoso da portaria o olhou bem da cabeça aos pés, sorriu como alguém da família dele lá estivesse, estendeu o braço apertando calorosamente a mão de Bino e disse num inglês compassado e claro:

            – O meu nome também é Thomas. Robert Thomas. Chame-me de Bob

            Em seguida, Bob cadastrou Bino na recepção, anotando seu número de passaporte e de data de chegada. Terminada a burocracia ele pegou a mochila do Bino, ignorando as suas reclamações e a levou até o segundo andar. Deu a chave de um minúsculo quarto com duas camas ao Bino, apontou um armário de ferro lhe dizendo para guardar tudo sempre lá, lhe deu o cadeado e os seis números de sua senha e disse:

            – O banheiro é coletivo e está no final do corredor. As suas toalhas estão sob o travesseiro. O culto da manhã é às 6 horas e o café da manhã é depois do culto - para os que participaram do serviço. Seu período de estadia aqui deverá ser de 72 horas. Em casos especiais poderemos estendê-la um pouco mais. Aqui não se fuma, não se bebe, não pode haver uso de drogas e não pode entrar mulher. Você me entende?

            Bino entendeu e balançou afirmativamente a cabeça e disse que entendeu tudo de modo claro. Bob sorriu e continuou devagar, claro e pausadamente.

            – Cuidado. Aqui há todo tipo de gente. Olhe sempre suas coisas e mantenha todos os seus pertences o tempo todo chaveados.  Cuidado com as ruas. Aqui em Los Angeles corre muita droga e há muitos homeless, viciados em drogas e alcoólatras. Cuidado com as ruas e a polícia...

            Bino se apavorou. Ele sabia que dentro de três dias ele teria que deixar o albergue e se defender por conta própria e o que ele viu e ouviu lhe deram medo.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

NA TENTATIVA DE SAIR DA COLOMBIA UM ENCONTRO COM AS FARC

Uns diziam que a interrupção na Carretera Pan Americana no Passo do Darien ou Lacuna de Darien, entre a Colômbia e o Panamá, era causada de propósito, por que estrategicamente protegia melhor o flanco das tropas americanas aquarteladas na Zona do Canal do Panamá. Isso Bino achava arcaico e estúpido: seria uma estratégia de cavalaria ainda dos tempos das guerras napoleônicas.
Também havia uma explicação menos plausível para esse hiato na rodovia, que era a chamada desculpa agropecuária. Diziam que a própria Colômbia queria esta zona de separação pelas constantes doenças endêmicas de rebanhos no Panamá, tal como a febre aftosa, doença viral resistente a antibióticos que continuamente aniquilava as vacas e porcos no Panamá - e esta epidemia era uma constante ameaça aos rebanhos do norte da Colômbia.
Outros mais deslumbrados diziam que a não existência de estrada entre os dois países era para proteger a floresta prístina local e os povos indígenas lá existentes e Bino viu muita devastação da natureza em sua jornada para também não acreditar nesta fantasia ecológica,
Outra teoria era que se a Lacuna no Passo de Darién fosse aberta, os colombianos, em número muito superior aos panamenhos, retornariam aos poucos para terras férteis que tinham sido uma província colombiana. O Panamá foi subtraído da Colômbia por meio de manobras políticas dos EUA e políticos corruptos locais para a “criação” do Panamá e subseqüente construção do Canal. Esta teoria parecia a mais plausível para o Bino: dividir para conquistar era um método bem antigo, muito usado por Roma.
Seja qual for a explicação, para Bino o trágico é que naquele trecho não havia estradas ligando a Colômbia ao Panamá e as razões acima, exceto por cultura geral, em nada ajudaram a ele.

     * * * * * *

A primeira tentativa de Bino para cruzar a chamada Lacuna de Darién foi pedindo carona até uma pequena vila chamada Chigorodo, a uns cem quilômetros ao norte de Medelín, na Pan Americana. Ele ficou dois dias no local com os nativos adquirido informações sobre trilhas que o levassem ao Panamá.
Em Chigorodo, Bino encontrou um casal de missionários evangélicos que suava e tremia enfermos de malária. Eles esperavam um transporte mandado pelo consulado americano para Medelín e de lá para o hospital em Bogotá.  Esses jovens missionários tentaram cruzar a Lacuna de Darién e só chegaram até o Parque Nacional de Los Katios, no lado colombiano da Lacuna.
Eles disseram também que os guias nativos da área talvez conhecessem trilhas alternativas para cruzar a Lacuna. Eles disseram que viram algumas trilhas, mas os guias tinham medo de seguir adiante por medo de guerrilheiros da FARC e também o casal já estava muito enfraquecido com a malária e resolveram voltar. 

No vilarejo de Rio Sucio, disse o casal, a uns vinte quilômetros da Lacuna de Darién, eles viram coisas escabrosas: Europeus e americanos drogados, corpos cobertos de chagas e perambulando como zumbis pelas florestas e até mesmo os índios estavam infectados com a enfermidade que eles chamavam de “Fogo selvagem”.

Depois deste relato Bino resolveu se preparar melhor: Conseguiu com os americanos, pílulas de cloro para purificar a água, também lhe deram um vidro de repelente de insetos na vila comprou tortinhas e broa de milho, duas garrafas de Aguardente Cristal e com um nativo da vila foi para Rio Sucio na esperança de encontrar uma trilha que cruzasse a Lacuna de Darien para entrar no Panamá.

Três horas trilha adentro, ele viu uma tropa de uns vinte e quatro burros indo em direção ao rio, carregando cada burro dois tonéis de 25 galões.
Ele perguntou aos tropeiros para onde iam, mas eles estavam armados com automáticas de grosso calibre e não lhe responderam. Bino decidiu seguir a distância as pegadas dos burros na esperança de que mais adiante, ele encontrasse outro tipo de pessoas com disposição mais amena.
Em dado momento Bino não viu mais seu guia nativo. Já pensava em retornar por onde veio aproveitando a luz do dia. Várias vezes chamou o guia e de resposta só o barulho da floresta.

Já ia dando meia volta quando viu um bando de guerrilheiros alguns armados de fuzis, outros de submetralhadoras, usando roupas de camuflagem, já desgastado, e acompanhado por indígenas com facões.  Estavam suados, sujos, barbudos, gente dura e de má aparência. Bino se assustou e estupidamente enfiou a mão na jaqueta para pegar o passaporte e documentos quando um deles lhe meteu a coronha do rifle em sua cabeça, lhe derrubando na lama. Eles se identificaram como soldados da FARC e que eram uma força armada de libertação da Colômbia.

Cobriram a cabeça de Bino com um capuz negro e  andaram umas duas horas de floresta adentro até que eles pararam, retiraram o capuz que cobria a cabeça de Bino e ele se deparou com uma vila de taperas bem primitivas, de tetos cobertos com folhas de coqueiros que lhe foi dito ser o “acampamento temporário” deles.  Um dos guerrilheiros, de biótipo indígena e de não mais do que vinte anos de idade, pegou o seu passaporte e cuidadosamente o olhou, e finalmente disse:
Brasileño?
– Sim, Brasileiro.
E continuaram as perguntas:
– De que província?
– Qual o número de teu passaporte?
– O que tu fazes aqui?
– Com quem jogou o Brasil no jogo final e qual foi o resultado do jogo?
– Porque tu estás indo para América?

E este interrogatório foi só o começo de outros que vieram.
Questionaram Bino por tres horas a fio; depois trocaram de interrogador; revistaram toda a sua mochila, cada centímetro quadrado, olharam dento da bainha da faca de gaúcho ganha do CTG Lalau Miranda e até reviravam os diários do pai e do avô do Bino, página por página, inspecionaram as suas roupas, o puseram nu e inspecionaram todas as cavidades de seu corpo.
Após isto, silenciosamente o colocaram em uma jaula de madeira fortemente amarrada de embiras e sob constante vigilância ele lá ficou sem comer ou beber.
Cedo na manhã do dia seguinte, chegou um guerrilheiro alto, de feições européias, com uma expressão que poderia ser um sorriso indescritível que somente disse: Sou o Comandante Zeta, que significa a letra “Z” em espanhol.
– Contatamos alguns de teus amigos no Brasil, Sr. Tedesco. Parece que os militares reacionários brasileiros, os teus Botones, andam te buscando.
– Sim, eles andam.
– Por que tu seguias meus homens?
– Queria encontrar uma trilha para passar pela Lacuna de Darien.
–Por quê?
– Quero ir para o Panamá.
– Por quê?
– Estou pedindo carona para os Estados Unidos; não posso estudar em meu país, não tenho como ficar na América Latina.
– Digas sem mentir. Por que não podes?
– Por contas dos Botones.
Ai o Comandante Zeta esboçou o seu primeiro sorriso discernível.
– Então também esteve na Argentina... E como aprendestes espanhol com o modismo Portenho?
– Com minha família.
E o interrogatório continuou. Bino sabia que mentir ali era assinar a própria certidão de óbito.
– Tu sabes por que os Botones estão no poder no teu país e em quase toda a América Latina?
– Não sei. Talvez por que eles têm as armas.
– Parcialmente certo, mas a grande realidade é porque nós temos políticos venais e corruptos e o povo já não agüenta mais.

E o interrogatório parecia entrar numa área perigosa de doutrinação política e Bino sabia que isto era campo minado, mas ele ficaria firme com a honestidade. Comandante Zeta parecia ser um homem capaz de matar sem pensar duas vezes.
– Os militares também são corruptos, disse o Bino
– Sim creio até mais do que os civis. Mas sabe qual é a maior causa da corrupção do povo?
– Não sei, Alguns nascem deste jeito, outros o meio ambiente, dinheiro, há muitas razões.
– Fato, mas aqui não é uma faculdade, guri. A razão social ou genética porque um é corrupto não me interessa. Agora uma vez que ele se torne corrupto em meu país, ai se torna o meu problema.
Bino ficou quieto e o Comandante continuou: – Uma das razões que você me deu para a corrupção foi o dinheiro.
– Sim, mencionei esta razão.
– E quem solta a grana para dar poder aos políticos venais? Para que nos mantenham ignorantes e na merda, vivendo em Repúblicas de Bananas? Quem puxa as cordas destas marionetes que governam toda a América Latina?

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

Mas o seu veneno não tinha terminado ainda: Leu mais uma vez vagarosamente, como não pudesse acreditar no carimbo do passaporte de Bino, com uma expressão quase de espanto e disse: Nunca vi um passaporte com este carimbo, e repetiu: – Não é válido para Cuba, - e irritado disse:
– Sabes por que os Gringos odeiam Cuba? Por que Fidel Castro nunca foi subserviente a eles.
– Mas parece que agora Cuba está dependendo é dos Russos, disse Bino.
– Tu estas certo: Cuba agora é o Bordel da Rússia. Mas se tu te tornares uma puta, melhor te deitares com um homem que tu gostas e que te trate bem. Mas este é outro assunto, e o Comandante Continuou:
– Tu conheces a campanha revolucionária do Fidel para depor o corrupto fantoche dos Gringos em Cuba, o vagabundo do Fulgêncio Batista?
– Não.
Carajo, tu não sabes nada! E continuou: Foi uma luta de raízes, do povo cubano para se libertar de um hijo de puta posto no poder pelos Gringos e nele mantido pela Mafia! Mas quando Fidel o derrubou e assumiu poder para limpar a Ilha, advinha a quem ele foi pedir ajuda primeiro?
– A Rússia, respondeu Bino.
 Zeta riu complacentemente e disse: – Sabia que diria isto.
– Então a China, disse Bino.
– Não carajo, ele foi para La Gringolandia, a Nova York para pedir ajuda a eles. A ajuda foi negada; eles queriam a volta do Batista e daí ele teve que correr para os braços da Rússia ou ter a sua revolução aniquilada...
– Marque minhas palavras Tedesco. Tu estás indo para La Gringolandia e  ficarás corrupto.
– Não; não vou!
– Sabe de uma coisa, guri. Estou tentado a deixar tu ires só para ter o prazer de provar o que estou dizendo, e o Comandante parecia estar muito cansado, sorriu ameno e perguntou?
– Então tu és mesmo goleiro?
– Como o senhor sabe?
– Isto não vem ao caso, mas lembre-te: aqui quem faz as perguntas sou eu.
Aí, mudando de assunto, ele voltou ao interrogatório básico:
– Porque tu não compraste passagem de avião de Medellín até a Ciudad de Panama?
– Porque não tenho dinheiro suficiente?
– Ah, não? Quanto você tem?
– Acho que agora estou com uns noventa e três dólares.
– Penses de novo e fale a verdade.
– Eu disse a verdade. Conto este dinheiro todo o dia.
Sarcasticamente o Comandante tirou um envelope branco de seu bolso e disse: E estes quinhentos aqui, neste envelope, e quase esfregou o envelope na cara do Bino, que pode ler seu nome no envelope escrito com a caligrafia da prima Alicia de Buenos Aires.
–Este envelope eu não sabia que estava na mochila.
Então Bino se lembrou que tinha recusado este dinheiro e a sua mente foi até as Tias Maria e Pilly, o primo Edmundo, Alicia, Carlos e os Martinez, e ele sorriu, e disse:
– Comandante eu não tenho nenhum motivo para lhe mentir. Minha prima Alicia deve ter escondido o envelope em minha mochila: Reconheço a caligrafia dela e eu tinha recusado este dinheiro em Buenos Aires.
– Tens família então em Buenos Aires?
– Sim: Duas tias-avós e primos.
–Gostas de ler?
– Muito.
– Qual o livro que andas lendo?
– Um de Pablo Neruda: “Plenos Poderes”.
– E o Sidarta do Hess?
– Este já li várias vezes, A última vez foi ao chegar em Buenos Aires.
– Tivestes sorte...
– Por quê?
– Teu dinheiro estava no Sidarta.

domingo, 11 de dezembro de 2011

UMA ALIANÇA INFELIZ DA DITADURA

Ele chegou a rodoviária, sentou-se num banco ao lado do guichê que vendia passagens para Tulcan, na fronteira do Equador com o sul da Colômbia.  Até a noite Bino tinha que deixar o Equador, pois seu passe de três dias expiraria.
No mapa ele calculou que indo pela Rodovia 25, que era simplesmente a continuação da Carretera Pan Americana, a distância seria de 350 quilômetros, e calculou, que pelas freqüentes paradas do ônibus e pelo estado das estradas no país, que, no mínimo, a viagem seria de oito horas.
Bino queria sair no primeiro ônibus as seis da manhã: Apesar do Equador não ter fronteiras com o Brasil e ele temia que houvesse troca de Telex entre as autoridades militares equatorianas e o DOPS do Brasil e ele pensou que na Colômbia, sob um governo de civis, ele estaria mais protegido.
Às cinco e meia Bino comprou seu ticket para Tulcan e estranhou que o preço fosse tão baixo, até que ele visse o “ônibus” chegar.
                                                  
                                                              
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O ônibus era uma adaptação de carroçaria de madeira, incluindo os assentos montados numa estrutura de um caminhão americano International. Era um pouco melhor do que o nosso pau-de-arara brasileiro, só pelo teto de madeira e umas lonas com plásticos transparentes que se rolavam pelas laterais protegendo os passageiros em caso de chuva.
As malas iam por uma escada atrás do “ônibus” para cima do teto de madeira, colocadas em um berço de ferro e cobertas por lona e amarradas por cordas e mais: em cima com as malas um policial solicitou ao motorista que levasse dois pobres coitados, provavelmente indigentes e estes não podiam se proteger debaixo da lona em caso de chuva. Pelo menos estes pobres coitados ficaram com as melhores vistas dos Andes.
Dentro do baú de madeira era um carnaval caótico. Jovens mestiços tocavam violão e cantavam “cuencas” com ajuda de uma “charanga” improvisada, garrafas de pisco eram passadas entre alguns passageiros, antes mesmo de sair “a coisa”, senhoras nativas já passavam as suas tortilhas e tamales entre si e muitas delas já estavam de peito para fora acalmando seus rebentos.
Havia passageiros levando iguanas precariamente amarradas por embiras, e este animal era um prato entre os nativos, ainda mais apreciados do que galinha.
Na metade da viagem uma desses iguanas se desvencilhou de sua amarração e saiu correndo por baixo dos pranchões de assento e foi um Deus-nos-acuda, com um pobre índio velho, meio embriagado, se metendo debaixo dos assentos e os mais jovens o sacaneando espantando o lagarto-almoço, enfim o ônibus teve que parar, a iguana foi caçada, presa e amarrada, e depois seguiu-se viagem.
                                                  
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Como a cabine estava cheia de passageiros, Bino subiu numa carroceria de quase três metros de altura, carregada de cenouras e se acomodou no topo do mundo, como se fosse o Monarca das Cenouras, e seguiu viagem por mais uns 135 quilômetros no topo dos Andes em estrada perigosa, estreita e de barro até a cidade de Pasto.
De cima da carga de cenoura Bino pode apreciar as montanhas e o vale a mais de mil metros abaixo, rolando-se até a lateral da balouçante carroceria ele ficou a olhar as rodas do caminhão, tão perto do abismo, negociando a lama vermelha que  espirrava em todas as direções.
 A estrada não tinha cercas de proteção  e muito menos acostamento. A fome apertou e Bino começou a comer cenouras, O frio das montanhas era intenso e havia uma garoa muito úmida, Bino retirou a sua jaqueta azul de náilon da mochila, desenrolou seu saco de dormir, entrou nele e se aninhou debaixo de uma lona esfarrapada que cobria só parte das cenouras.
Ainda era frio, e de novo ele pegou a mochila, tirou o seu poncho e a sua garrafa de pisco e deu duas goladas grandes e a guardou.  Depois enrolou o poncho e o transformou em travesseiro. A carroceria do caminhão continuava a balançar e ele se preocupava com a estrada, mas entregou seu destino aos deuses e dormiu profundamente, sonhando com praias ensolaradas e de por de sois amarelo-cenoura.
                                                
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Acordou em Pasto muito cedo de manhã, o e motorista do caminhão gritou para cima da carga:
– Eh, Brasilenho, te invito a un desayuno Pastusco!
E novamente a amabilidade Andina se fez presente: Foram a um modesto banheiro e em seguida sentaram a mesa de uma construção antiga de alvenaria que era um armazém ao lado de um posto de gasolina.
O motorista pediu um café da manhã com Huevos Rancheros, que era feito refogando-se tomates picados, com pimentão e bastante cebola, cheiro verde e depois se colocava um pouco d’água e três ovos, fechava-se a tampa da frigideira, cozinhava-se os ovos no vapor por pouco tempo, colocava-se mais salsinha e coentro sobre eles e logo em seguida os serviam na frigideirinha, com pão, manteiga, queijo e um café forte, delicioso e aromático, numa caneca esmaltada.
Estes Ovos Rancheiros era o café da manhã reforçado dos campesinos locais.
                                                         
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Bino ainda estava na mesa com o motorista amigo e na mesa do lado sentou-se um motorista dirigindo um caminhão tanque e após conversa entre os dois motoristas Bino conseguiu uma carona de boleia até Cali.
O caminhão saiu a tarde e ao cair da noite estava no Vale do Rio Cauca. A estrada foi se apertando:  para o oeste a parte ocidental do maciço andino que faz fronteira com a floresta Amazônica e para o leste por um outro braço do maciço dos Andes e, a visão gigantesca desta bifurcação dos Andes mais a estrada enluarada  bordejando o rio Cauca era simplesmente linda, e Bino se sentiu pequeno naquele lugar.
As três da manha o caminhão tanque subia gemendo e engatado em marcha forte em direção ao Maciço Leste, e subiu por muitos quilômetros de asfalto mal cuidado, até que de manhã eles chegaram a uma linda cidade chamada Cali, localizada num platô a dois mil e seiscentos metros de altura.
Cali é uma cidade pujante, limpa, européia, com amplas avenidas, edifícios modernos, uma universidade de primeira linha e um campus grande e bem bonito.
Bino conseguiu hospedaria no campus, e lá fez amigos entre os estudantes que lhes deram mais endereços de outros amigos que estavam no campus da Universidade de Bogotá, na capital federal, e também no campus da Universidade de Medellín.
Lá pela primeira vez ele conheceu a arte do mundialmente  renomado pintor Botero e também conheceu mais a fundo alguns livros, ainda não publicados no Brasil,  de um grande escritor colombiano, da cidade litorânea  de  Cartagena, o Gabriel Garcia Marques.
Bino leu ávida e rapidamente um de seus livros, escrito de modo realístico e simultaneamente fantasmagórico, chamado Cien Años de Soledad, e ao terminar de ler Bino sabia que também na literatura, Colômbia possua um Campeão Peso Pesado.
Na Universidade de Colômbia em Cali, com os estudantes de Arquitetura, Bino adquiriu um gosto por uma aguardente muito boa, chamada Cristal, forte como uma boa caninha brasileira, mas com um toque de anis que a “arredondava” ainda mais ao descer esôfago adentro. Também com os estudantes bebeu o famoso Tinto, um café expresso, feito dos melhores grãos dos cafés colombianos que se tomava imediatamente após ser passado. Além do gosto, o aroma do café colombiano era único, até para Bino, criado em zona cafeeira.
Muitos dos estudantes de Cali, após beberem o tinto, sempre fumavam um cigarro barato, sem filtro, de tabaco negro, chamado Piel Roja, ou Pele Vermelha. Um dia depois de umas doses de Aguardiente Cristal, Bino quis fazer graça fumando um dos Peles Vermelhas oferecidos por uma estudante de Literatura. Bino passou mal e foi forçado a perder um belo almoço.
De volta à turma, ainda meio mareado e esverdeado, ele foi motivo de chacota amiga por não manusear bem o mata-rato e principalmente por suas botas pastuscas, pois os intelectuais de Cali tinham, enganosamente, a concepção de que os Pastuscos eram brutos e burros – e, paradoxalmente, eram admirados por sua simplicidade, honestidade e ética de trabalho.
Pela Colômbia afora Bino sempre notou esta relação amor-ódio entre os citadinos e os camponeses das montanhas, genericamente chamados de Pastuscos.

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Depois de alguns meses na estrada, o mochileiro começa a adquirir um sexto sentido sobre uma determinada cidade, com um companheiro de estrada ou até mesmo com a carona que lhe está sendo oferecida. Bino não podia explicar isto em palavras, mas era um sentimento que não vinha do intelecto, mas talvez do hipotálamo, algo intuitivo ou visto pelo terceiro olho, como diziam os amigos Krishnas.
Bino sentiu que havia alguma coisa muito errada com aquela linda cidade florida e de eterna primavera. Em condições normais, sustentada pela economia local Medellín não poderia, como New York e Paris ter tanto vestidos de grife famosas pelas suas ruas, tantas jóias caríssimas, e uma estranha entourage de tiras de guarda-costas vestidos de ternos custosos e em carros importados dos EUA e da Europa. Aquele padrão de vida, aqueles bares servindo algumas vezes champanhe de vinte mil dólares aquilo não era produto da economia formal da área.
Às noites na cidade eram longas, festivas, comemoradas em restaurantes finíssimos sempre cheios e o mesmo com as discotecas; corria muito dinheiro vivo, e até havia muitas vadias de luxo, também importadas dos EUA, Europa e ate do Brasil. Havia muita cocaína rolando. Não faltavam carros de luxo, limusines, muitos “turistas” com guarda-costas, muitos gorilas trabalhando de segurança...  Algo em Medelín não andava certo.
Era o comércio de drogas. De cara no campus, ele foi informado do pó luminoso que cobria a cidade, mas parecia que a maioria dos estudantes era complacente com a situação: bem, os gringos buscam o pó, aqui se tem muito, é só uma mera questão de oferta e procura, era o raciocínio quase universal.
Outros iam mais além dizendo que o problema era na demanda, sem ela não haveria produção, daí as drogas na Colômbia eram um problema sim, mas um problema causado por norte-americanos.
Eles pareciam estar cegos que o problema  já tinha se tornado  também dos supridores, dos colombianos, com bandos de crianças viciadas em Bazuco, já não mais vivendo com suas famílias e que dormiam promiscuamente nos bueiros de Santa Fé de Bogotá; com tiroteios nas favelas; com assassinatos dia e noite; bombas explodindo em jornais da capital, intimidando a imprensa e mais - com a dissolução familiar, prostituição infantil, e violência urbana em geral.
Um dos estudantes que Bino encontrou no refeitório, que defendia o tráfico, estava de olhos vermelhos, falava rápido e desconexo, mãos trêmulas, e, por trás de todas as suas argumentações sócio- econômicas postas de maneira lúcida e elegante, com lógica amparada no princípio de Colbert, a lei de oferta e procura, por trás de tudo aquilo,  era puro sofisma: Bino falava com um viciado que nem mais atinava para a realidade.
Depois desta “palestra” Bino decidiu que viu o bastante da bela e sedutora Medellín, dos anos setenta e que já era tempo de ganhar a Carretera Pan Americana para o norte.
Estudou seu mapa e decidiu que sairia cedo no outro dia e iria até Chigorodo e de lá pegaria outra carona até Rio Sucio, tentaria entrar no Panamá pelo Parque Nacional Darién.
Uma vez no Panamá, Bino tentaria de um modo qualquer a ser decidido lá, se re-conectar com a Pan Americana Norte na cidade de Yavisa, no Sul do Panamá.
No Café Universal se reuniam bastantes mochileiros e alguns hippies e Bino foi lá a tarde para ver se conseguia alguma informação de primeira mão como negociar a problemática fronteira, com pouquíssimas estradas, onde a Carretera Pan Americana parecia sumir.
A sua primeira decepção foi com as notícias dadas a ele por um casal de mochileiros alemães, que se julgavam com muita sorte de terem sobrevivido àquela fronteira e voltado para Medelín, depois de muitos dias perdidos na floresta e fugindo de guerrilheiros.
Eles afirmaram que o tal do Passo do Darién era simplesmente impassável. Era uma área de quase cem quilômetros de terreno difícil, montanhas, rios caudalosos, cheio de bandidos, forças colombianas para-militares e guerrilheiros das FARC, ou Forças Armadas Revolucionárias Colombianas.
“Por lá você não passa”, disse o alemão bem direto e reto. Bino se sentiu frustrado e impotente com estes cem quilômetros intransitáveis adiante dele, numa rodovia que saia praticamente do pólo sul, ou seja, da Patagônia, cortando todas as Américas até os gelos do Alaska e só com a exceção de menos de cem quilômetros entre Colômbia e Panamá incompletos.
Porque a Pan Americana desaparece nessa fronteira? E ninguém tinha uma resposta definitiva.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Bino - o mochileiro

Bino, no começo, ressentia o termo mochileiro, quando aplicado a ele. Com o passar dos meses, ele notou que os mochileiros eram uma sub-cultura que de fato existia nas estradas e que de uma forma, rotulado nela, o ajudava a disfarçar a sua condição de fugitivo. Daí para diante ele abraçou o termo mochileiro sem ressentimentos.
Bino passou a estudar e definir os grupos de mochileiros que ele encontrava. Existiam vários tipos deles, com distintas características.
Por exemplo, seus equipamentos, suas mochilas e conteúdos eram específicos e mais do que isto, eles tinham um implícito “código de estrada” mais ou menos universal no que diz respeito ao seu bem estar e sobrevivência.
Se um mochileiro adoecesse na estrada todos ajudavam. Ou com remédio, ou procurando hospitais, apelando para conhecidos e no último caso até trazendo-o à sua família.
Eles sempre trocavam entre si informações sobre pousadas, albergues e escolas e também locais amigáveis e hostis a eles. Esse acervo de informações era repassado ao se cruzarem nas estradas lhes permitindo a ter um plano de ação formado muitos quilômetros antes de chegarem a seu destino.
Também se informavam e repassavam o conhecimento sobre fronteiras entre países ou províncias que os hostilizavam ou facilitavam; para os que usavam drogas, havia sempre informações onde ela poderia ser obtida, qual local era perigoso obtê-las ou a penalidade em usá-las em determinadas cidades ou locais.
Geralmente nos anos 1969 a 1970 a droga mais usada era a maconha e o pessoal que “fazia” drogas pesadas usavam o LSD. Os mochileiros usuários de drogas estavam em outra categoria, mais para o lado dos hippies do que dos mochileiros propriamente ditos, mas apesar da distinção, eles também se ajudavam mutuamente, apesar de andar pelas estradas em diferentes bandos.

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Entre os mochileiros era pecado mortal negar cigarros ou deixar de dividir a comida. A fama de um mau mochileiro, ou grupo destes, geralmente andava dias a frente deles – e a comunidade se afastava deles como se fossem infetados de peste bubônica.
Para um mochileiro sobreviver nas estradas já era bem difícil - e não havia necessidade de aumentar mais os riscos com má companhia e “mesquinharia” era considerada um crime muito mais além do que o uso de drogas.
Bino poucas vezes viu um bêbado no meio deles. Mas, geralmente, eles davam o chamado tapa-no-macaco ou tapinha - que era fumar um baseado.
Na América Latina não se levava drogas, pois as penalidades por conta delas eram bem altas. Quase todos os mochileiros sabiam de um ou mais conhecido que pegou de dois a dez anos de cana, em prisões desumanas por causa de drogas, então a maioria dos mochileiros andava de cara limpa.
Havia também todos os tipos e nuances de pessoas pululando as estradas com mochilas nas costas: Alguns estavam lá por turismo barato, outros em férias, outros procurando um sentido na vida, alguns fugindo de guerras, tentando entrar ilegalmente num país e só Deus sabe o motivo de cada um; mas este tema de “por que um foi para a estrada” era privado e era tabu bisbilhotar sobre o assunto.
Também Bino aprendeu a descobrir a história de viagens do mochileiro pela sua mochila, suvenires, roupas ou acessórios.

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Os americanos usavam mochilas grandes, de náilon reforçado, acolchoadas, confortável nas costas, e com armação de alumínio geralmente em cores bem chamativas e refletores de luz por medida de segurança na estrada. Elas tinham vários compartimentos e nelas era fácil de organizar as coisas. As mochilas dos americanos eram como a da amiga Gandira: cheias de souvenires e decalques dos locais por onde passaram eles.
Era um tipo de exposições das “medalhas de honra ao mérito”, de locais conhecidos, de “moral de estrada”. Os americanos também sempre tinham algo bom de comer em suas mochilas como carne e sopas desidratadas, chocolate, sabão, sabonete e xampu sem falar em pente, escova e pasta de dentes. Alguns até levavam uma mini barraca e um fogãozinho a gás, butano, canivete suíço e kit de primeiros socorros.
Carregavam também sempre um livro. Andavam de passaporte e bem documentados e traziam também com eles até cheques de viagem.        
Diferentes do resto dos mochileiros, os americanos e europeus eram respeitados como cidadãos em suas respectivas embaixadas, em caso de necessidade se faziam presente e lhes davam assistência. Este tratamento de suas embaixadas fazia com que eles fossem menos escorraçados pelas autoridades locais e algumas autoridades tinham até deferência por eles, os elevando a categoria de “turistas”.
Também eles sempre tinham informações de banhos públicos e onde se vendia isto ou aquilo. Os americanos tinham por uniforme, calças Lewis de jeans, óculos escuros, boné, camiseta e tênis confortáveis para a caminhada. Geralmente todos eram brancos e Bino nunca viu um negro, por estranha razão, entre eles.
Já os mochileiros europeus e canadenses eram simplesmente uma versão mais modesta dos americanos. Suas mochilas eram também de ótima qualidade, porém voltada mais para a durabilidade e essenciais - com cores menos berrantes, como verde, azul e marrom.
Eles também tinham sempre algo de comer em suas mochilas, mas era algo local, comida adquirida na estrada, Por exemplo, pão e queijo; tinham também café instantâneo, cigarros, lanternas e sempre com uma bandeirinha discreta de seus países colada a mochila. Era comum ver os europeus com uma dúzia ou duas de bananas penduradas em suas mochilas. Eram parcimoniosos com os decalques sobre a mochila e sempre tinham um vinho marca diabo com eles para desinfetar seus estômagos da comida local.
Diferente dos americanos eles quase sempre falavam vários idiomas, andavam com dicionários e sempre tentavam falar e aprender com os nativos. Os europeus não tinham tanta mania de banho quanto os latinos e americanos, tinha mais odor corporal e suas mulheres muitas vezes não barbeavam os sovacos. Usavam mais botas de trilha ou de escalada de montanhas, dificilmente se via um deles de tênis; eles também eram bem seguros com o dinheiro.
Já os argentinos, chilenos, uruguaios e latino-americanos em geral, eram mais pobres. Suas mochilas eram menores, de lona, mais modestas e algumas foram até acampadas das forças armadas de seus países. Eram bolsas quadrangulares ou triangulares com alguns bolsos e correias de couro e não tinham armação de metal, ou divisões.
O carregamento destas mochilas exigia certa logística nas camadas dos itens nela contidos. Os itens de maior e mais uso, iam sempre à parte superior, roupa lavada no meio e as sujas em baixo, quando possível enrolada em sacos de plásticos e quando não, iam perfumando as roupas limpas com cheiro de roupa usada.
As mochilas dos latinos geralmente eram pequenas, para os mochileiros de curta distância, como por exemplo, de Chile a Equador, e geralmente tinha a capacidade de 10 quilos de carga; as maiores, como a do Bino, era dos mochileiros de longa distância, era capaz de carregar até uns 25 quilos e eram maiores. A mochila “latina” também era reforçada com cantoneiras, fundos e tiras de couro e nada tinham de sintéticos. O couro de proteção evitava o esgarçar da lona depois de muito uso.
Também os latinos usavam tênis mais modestos, tipo o “Conga”, também usavam jeans ou camisetas, mas sempre usavam ponchos ou abrigos de lã. Muitos carregavam violões em suas jornadas e vez por outra um argentino trazia junto à mochila o seu bandoneón que é um tipo de concertina – o que Bino considerava um “trambolho” desnecessário.
Também sempre havia um vinho barato com eles e dormiam onde podiam: Em postos de gasolina, albergues, igrejas e escolas. Usavam de torneira, rios e riachos para banhar-se – mas tinham que ter os seus banhos diários.
Os latinos tinham muito pouco para dividir, mas dividiam o que tinham. Também não hesitavam em beber um pouco de leite de um latão esperando transporte na beira da estrada ou de passar por debaixo de uma cerca para pegar umas laranjas aqui e umas bananas ali.
Os mochileiros brasileiros viajavam só, eram namoradores, e escolhiam as suas namoradas fortuitamente em diversas localidades. Eram de boa paz com o mundo e tudo era beleza.
Os argentinos eram mais temperamentais, os chilenos mais sonhadores e poetas, e ambos levavam com mais freqüência as suas namoradas que eram afinal, que mandava neles.

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Os verdadeiros hippies eram um grupo heterogêneo, que geralmente vivia com o mínimo indispensável à manutenção da vida, sempre descobrindo onde encontrar drogas, quem as vendiam e não se preocupavam muito com o resto da vida.
Não tinham mochilas e andavam com bolsas, cestas e uns até com um saco de plástico com seus pertences. Seus trajes eram extravagantes e sujos, suas aparências não cuidadas e viviam em seu mundo, com a sua lógica e seus costumes tribais.
Eram fedorentos e suas meninas também, e desprezavam os mochileiros por serem adeptos da água e sabão, caretas em relação a eles e mais ou menos obedeciam à lei.
Geralmente os hippies tinham problema nas fronteiras de países por falta de documento,. ou por entrarem nos países sem vistos no passaporte, enfim Bino achou-os interessante e observou que individualmente, a maioria deles, era gente boa, mas como grupo, inconfiáveis e criadores - ou pára-raios - de problemas.
Para Bino que tinha um destino final quase que um Dharma a ser cumprido, ele evitava os hippies. Bino não queria problemas: ele tinha prometido sobreviver para dar testemunho do que viu, ele tinha que se cuidar muito e chegar ao seu destino.
Na estrada havia também hábitos idênticos a quase todos: não se carregava dinheiro a vista, armas ou nada de comprometedor nas mochilas – que constantemente eram revistadas, por qualquer motivo fortuito que julgassem as autoridades.
Já Bino era um completo “mochileiro” – ainda que meio “híbrido”: Primeiro, ele conhecia lugares e visitava pontos interessantes em sua jornada, mas ele nunca perdeu a perspectiva de que ele era também um “fugitivo”. A sua “logística” em cruzar fronteiras e lidar com autoridades não dava margens a erro.
Mas como um mochileiro qualquer, ele andava com uma mochila tipo americana, verde e bem usada que ganhara da Gandira, cheia de decalques de lugares que ele ainda não conhecia, usava calças jeans, uma camiseta de algodão, tênis nacional, e uma jaqueta americana acolchoada e de zíper, que ganhara do pastor Tommy; tinha seu passaporte verdadeiro, pensava ter uns cem dólares escondidos na jaqueta, junto com seus documentos – inclusive uma carteira de identidade falsa da UPF, com o nome de Arthur Lange.