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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

NA TENTATIVA DE SAIR DA COLOMBIA UM ENCONTRO COM AS FARC

Uns diziam que a interrupção na Carretera Pan Americana no Passo do Darien ou Lacuna de Darien, entre a Colômbia e o Panamá, era causada de propósito, por que estrategicamente protegia melhor o flanco das tropas americanas aquarteladas na Zona do Canal do Panamá. Isso Bino achava arcaico e estúpido: seria uma estratégia de cavalaria ainda dos tempos das guerras napoleônicas.
Também havia uma explicação menos plausível para esse hiato na rodovia, que era a chamada desculpa agropecuária. Diziam que a própria Colômbia queria esta zona de separação pelas constantes doenças endêmicas de rebanhos no Panamá, tal como a febre aftosa, doença viral resistente a antibióticos que continuamente aniquilava as vacas e porcos no Panamá - e esta epidemia era uma constante ameaça aos rebanhos do norte da Colômbia.
Outros mais deslumbrados diziam que a não existência de estrada entre os dois países era para proteger a floresta prístina local e os povos indígenas lá existentes e Bino viu muita devastação da natureza em sua jornada para também não acreditar nesta fantasia ecológica,
Outra teoria era que se a Lacuna no Passo de Darién fosse aberta, os colombianos, em número muito superior aos panamenhos, retornariam aos poucos para terras férteis que tinham sido uma província colombiana. O Panamá foi subtraído da Colômbia por meio de manobras políticas dos EUA e políticos corruptos locais para a “criação” do Panamá e subseqüente construção do Canal. Esta teoria parecia a mais plausível para o Bino: dividir para conquistar era um método bem antigo, muito usado por Roma.
Seja qual for a explicação, para Bino o trágico é que naquele trecho não havia estradas ligando a Colômbia ao Panamá e as razões acima, exceto por cultura geral, em nada ajudaram a ele.

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A primeira tentativa de Bino para cruzar a chamada Lacuna de Darién foi pedindo carona até uma pequena vila chamada Chigorodo, a uns cem quilômetros ao norte de Medelín, na Pan Americana. Ele ficou dois dias no local com os nativos adquirido informações sobre trilhas que o levassem ao Panamá.
Em Chigorodo, Bino encontrou um casal de missionários evangélicos que suava e tremia enfermos de malária. Eles esperavam um transporte mandado pelo consulado americano para Medelín e de lá para o hospital em Bogotá.  Esses jovens missionários tentaram cruzar a Lacuna de Darién e só chegaram até o Parque Nacional de Los Katios, no lado colombiano da Lacuna.
Eles disseram também que os guias nativos da área talvez conhecessem trilhas alternativas para cruzar a Lacuna. Eles disseram que viram algumas trilhas, mas os guias tinham medo de seguir adiante por medo de guerrilheiros da FARC e também o casal já estava muito enfraquecido com a malária e resolveram voltar. 

No vilarejo de Rio Sucio, disse o casal, a uns vinte quilômetros da Lacuna de Darién, eles viram coisas escabrosas: Europeus e americanos drogados, corpos cobertos de chagas e perambulando como zumbis pelas florestas e até mesmo os índios estavam infectados com a enfermidade que eles chamavam de “Fogo selvagem”.

Depois deste relato Bino resolveu se preparar melhor: Conseguiu com os americanos, pílulas de cloro para purificar a água, também lhe deram um vidro de repelente de insetos na vila comprou tortinhas e broa de milho, duas garrafas de Aguardente Cristal e com um nativo da vila foi para Rio Sucio na esperança de encontrar uma trilha que cruzasse a Lacuna de Darien para entrar no Panamá.

Três horas trilha adentro, ele viu uma tropa de uns vinte e quatro burros indo em direção ao rio, carregando cada burro dois tonéis de 25 galões.
Ele perguntou aos tropeiros para onde iam, mas eles estavam armados com automáticas de grosso calibre e não lhe responderam. Bino decidiu seguir a distância as pegadas dos burros na esperança de que mais adiante, ele encontrasse outro tipo de pessoas com disposição mais amena.
Em dado momento Bino não viu mais seu guia nativo. Já pensava em retornar por onde veio aproveitando a luz do dia. Várias vezes chamou o guia e de resposta só o barulho da floresta.

Já ia dando meia volta quando viu um bando de guerrilheiros alguns armados de fuzis, outros de submetralhadoras, usando roupas de camuflagem, já desgastado, e acompanhado por indígenas com facões.  Estavam suados, sujos, barbudos, gente dura e de má aparência. Bino se assustou e estupidamente enfiou a mão na jaqueta para pegar o passaporte e documentos quando um deles lhe meteu a coronha do rifle em sua cabeça, lhe derrubando na lama. Eles se identificaram como soldados da FARC e que eram uma força armada de libertação da Colômbia.

Cobriram a cabeça de Bino com um capuz negro e  andaram umas duas horas de floresta adentro até que eles pararam, retiraram o capuz que cobria a cabeça de Bino e ele se deparou com uma vila de taperas bem primitivas, de tetos cobertos com folhas de coqueiros que lhe foi dito ser o “acampamento temporário” deles.  Um dos guerrilheiros, de biótipo indígena e de não mais do que vinte anos de idade, pegou o seu passaporte e cuidadosamente o olhou, e finalmente disse:
Brasileño?
– Sim, Brasileiro.
E continuaram as perguntas:
– De que província?
– Qual o número de teu passaporte?
– O que tu fazes aqui?
– Com quem jogou o Brasil no jogo final e qual foi o resultado do jogo?
– Porque tu estás indo para América?

E este interrogatório foi só o começo de outros que vieram.
Questionaram Bino por tres horas a fio; depois trocaram de interrogador; revistaram toda a sua mochila, cada centímetro quadrado, olharam dento da bainha da faca de gaúcho ganha do CTG Lalau Miranda e até reviravam os diários do pai e do avô do Bino, página por página, inspecionaram as suas roupas, o puseram nu e inspecionaram todas as cavidades de seu corpo.
Após isto, silenciosamente o colocaram em uma jaula de madeira fortemente amarrada de embiras e sob constante vigilância ele lá ficou sem comer ou beber.
Cedo na manhã do dia seguinte, chegou um guerrilheiro alto, de feições européias, com uma expressão que poderia ser um sorriso indescritível que somente disse: Sou o Comandante Zeta, que significa a letra “Z” em espanhol.
– Contatamos alguns de teus amigos no Brasil, Sr. Tedesco. Parece que os militares reacionários brasileiros, os teus Botones, andam te buscando.
– Sim, eles andam.
– Por que tu seguias meus homens?
– Queria encontrar uma trilha para passar pela Lacuna de Darien.
–Por quê?
– Quero ir para o Panamá.
– Por quê?
– Estou pedindo carona para os Estados Unidos; não posso estudar em meu país, não tenho como ficar na América Latina.
– Digas sem mentir. Por que não podes?
– Por contas dos Botones.
Ai o Comandante Zeta esboçou o seu primeiro sorriso discernível.
– Então também esteve na Argentina... E como aprendestes espanhol com o modismo Portenho?
– Com minha família.
E o interrogatório continuou. Bino sabia que mentir ali era assinar a própria certidão de óbito.
– Tu sabes por que os Botones estão no poder no teu país e em quase toda a América Latina?
– Não sei. Talvez por que eles têm as armas.
– Parcialmente certo, mas a grande realidade é porque nós temos políticos venais e corruptos e o povo já não agüenta mais.

E o interrogatório parecia entrar numa área perigosa de doutrinação política e Bino sabia que isto era campo minado, mas ele ficaria firme com a honestidade. Comandante Zeta parecia ser um homem capaz de matar sem pensar duas vezes.
– Os militares também são corruptos, disse o Bino
– Sim creio até mais do que os civis. Mas sabe qual é a maior causa da corrupção do povo?
– Não sei, Alguns nascem deste jeito, outros o meio ambiente, dinheiro, há muitas razões.
– Fato, mas aqui não é uma faculdade, guri. A razão social ou genética porque um é corrupto não me interessa. Agora uma vez que ele se torne corrupto em meu país, ai se torna o meu problema.
Bino ficou quieto e o Comandante continuou: – Uma das razões que você me deu para a corrupção foi o dinheiro.
– Sim, mencionei esta razão.
– E quem solta a grana para dar poder aos políticos venais? Para que nos mantenham ignorantes e na merda, vivendo em Repúblicas de Bananas? Quem puxa as cordas destas marionetes que governam toda a América Latina?

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Mas o seu veneno não tinha terminado ainda: Leu mais uma vez vagarosamente, como não pudesse acreditar no carimbo do passaporte de Bino, com uma expressão quase de espanto e disse: Nunca vi um passaporte com este carimbo, e repetiu: – Não é válido para Cuba, - e irritado disse:
– Sabes por que os Gringos odeiam Cuba? Por que Fidel Castro nunca foi subserviente a eles.
– Mas parece que agora Cuba está dependendo é dos Russos, disse Bino.
– Tu estas certo: Cuba agora é o Bordel da Rússia. Mas se tu te tornares uma puta, melhor te deitares com um homem que tu gostas e que te trate bem. Mas este é outro assunto, e o Comandante Continuou:
– Tu conheces a campanha revolucionária do Fidel para depor o corrupto fantoche dos Gringos em Cuba, o vagabundo do Fulgêncio Batista?
– Não.
Carajo, tu não sabes nada! E continuou: Foi uma luta de raízes, do povo cubano para se libertar de um hijo de puta posto no poder pelos Gringos e nele mantido pela Mafia! Mas quando Fidel o derrubou e assumiu poder para limpar a Ilha, advinha a quem ele foi pedir ajuda primeiro?
– A Rússia, respondeu Bino.
 Zeta riu complacentemente e disse: – Sabia que diria isto.
– Então a China, disse Bino.
– Não carajo, ele foi para La Gringolandia, a Nova York para pedir ajuda a eles. A ajuda foi negada; eles queriam a volta do Batista e daí ele teve que correr para os braços da Rússia ou ter a sua revolução aniquilada...
– Marque minhas palavras Tedesco. Tu estás indo para La Gringolandia e  ficarás corrupto.
– Não; não vou!
– Sabe de uma coisa, guri. Estou tentado a deixar tu ires só para ter o prazer de provar o que estou dizendo, e o Comandante parecia estar muito cansado, sorriu ameno e perguntou?
– Então tu és mesmo goleiro?
– Como o senhor sabe?
– Isto não vem ao caso, mas lembre-te: aqui quem faz as perguntas sou eu.
Aí, mudando de assunto, ele voltou ao interrogatório básico:
– Porque tu não compraste passagem de avião de Medellín até a Ciudad de Panama?
– Porque não tenho dinheiro suficiente?
– Ah, não? Quanto você tem?
– Acho que agora estou com uns noventa e três dólares.
– Penses de novo e fale a verdade.
– Eu disse a verdade. Conto este dinheiro todo o dia.
Sarcasticamente o Comandante tirou um envelope branco de seu bolso e disse: E estes quinhentos aqui, neste envelope, e quase esfregou o envelope na cara do Bino, que pode ler seu nome no envelope escrito com a caligrafia da prima Alicia de Buenos Aires.
–Este envelope eu não sabia que estava na mochila.
Então Bino se lembrou que tinha recusado este dinheiro e a sua mente foi até as Tias Maria e Pilly, o primo Edmundo, Alicia, Carlos e os Martinez, e ele sorriu, e disse:
– Comandante eu não tenho nenhum motivo para lhe mentir. Minha prima Alicia deve ter escondido o envelope em minha mochila: Reconheço a caligrafia dela e eu tinha recusado este dinheiro em Buenos Aires.
– Tens família então em Buenos Aires?
– Sim: Duas tias-avós e primos.
–Gostas de ler?
– Muito.
– Qual o livro que andas lendo?
– Um de Pablo Neruda: “Plenos Poderes”.
– E o Sidarta do Hess?
– Este já li várias vezes, A última vez foi ao chegar em Buenos Aires.
– Tivestes sorte...
– Por quê?
– Teu dinheiro estava no Sidarta.

domingo, 11 de dezembro de 2011

UMA ALIANÇA INFELIZ DA DITADURA

Ele chegou a rodoviária, sentou-se num banco ao lado do guichê que vendia passagens para Tulcan, na fronteira do Equador com o sul da Colômbia.  Até a noite Bino tinha que deixar o Equador, pois seu passe de três dias expiraria.
No mapa ele calculou que indo pela Rodovia 25, que era simplesmente a continuação da Carretera Pan Americana, a distância seria de 350 quilômetros, e calculou, que pelas freqüentes paradas do ônibus e pelo estado das estradas no país, que, no mínimo, a viagem seria de oito horas.
Bino queria sair no primeiro ônibus as seis da manhã: Apesar do Equador não ter fronteiras com o Brasil e ele temia que houvesse troca de Telex entre as autoridades militares equatorianas e o DOPS do Brasil e ele pensou que na Colômbia, sob um governo de civis, ele estaria mais protegido.
Às cinco e meia Bino comprou seu ticket para Tulcan e estranhou que o preço fosse tão baixo, até que ele visse o “ônibus” chegar.
                                                  
                                                              
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O ônibus era uma adaptação de carroçaria de madeira, incluindo os assentos montados numa estrutura de um caminhão americano International. Era um pouco melhor do que o nosso pau-de-arara brasileiro, só pelo teto de madeira e umas lonas com plásticos transparentes que se rolavam pelas laterais protegendo os passageiros em caso de chuva.
As malas iam por uma escada atrás do “ônibus” para cima do teto de madeira, colocadas em um berço de ferro e cobertas por lona e amarradas por cordas e mais: em cima com as malas um policial solicitou ao motorista que levasse dois pobres coitados, provavelmente indigentes e estes não podiam se proteger debaixo da lona em caso de chuva. Pelo menos estes pobres coitados ficaram com as melhores vistas dos Andes.
Dentro do baú de madeira era um carnaval caótico. Jovens mestiços tocavam violão e cantavam “cuencas” com ajuda de uma “charanga” improvisada, garrafas de pisco eram passadas entre alguns passageiros, antes mesmo de sair “a coisa”, senhoras nativas já passavam as suas tortilhas e tamales entre si e muitas delas já estavam de peito para fora acalmando seus rebentos.
Havia passageiros levando iguanas precariamente amarradas por embiras, e este animal era um prato entre os nativos, ainda mais apreciados do que galinha.
Na metade da viagem uma desses iguanas se desvencilhou de sua amarração e saiu correndo por baixo dos pranchões de assento e foi um Deus-nos-acuda, com um pobre índio velho, meio embriagado, se metendo debaixo dos assentos e os mais jovens o sacaneando espantando o lagarto-almoço, enfim o ônibus teve que parar, a iguana foi caçada, presa e amarrada, e depois seguiu-se viagem.
                                                  
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Como a cabine estava cheia de passageiros, Bino subiu numa carroceria de quase três metros de altura, carregada de cenouras e se acomodou no topo do mundo, como se fosse o Monarca das Cenouras, e seguiu viagem por mais uns 135 quilômetros no topo dos Andes em estrada perigosa, estreita e de barro até a cidade de Pasto.
De cima da carga de cenoura Bino pode apreciar as montanhas e o vale a mais de mil metros abaixo, rolando-se até a lateral da balouçante carroceria ele ficou a olhar as rodas do caminhão, tão perto do abismo, negociando a lama vermelha que  espirrava em todas as direções.
 A estrada não tinha cercas de proteção  e muito menos acostamento. A fome apertou e Bino começou a comer cenouras, O frio das montanhas era intenso e havia uma garoa muito úmida, Bino retirou a sua jaqueta azul de náilon da mochila, desenrolou seu saco de dormir, entrou nele e se aninhou debaixo de uma lona esfarrapada que cobria só parte das cenouras.
Ainda era frio, e de novo ele pegou a mochila, tirou o seu poncho e a sua garrafa de pisco e deu duas goladas grandes e a guardou.  Depois enrolou o poncho e o transformou em travesseiro. A carroceria do caminhão continuava a balançar e ele se preocupava com a estrada, mas entregou seu destino aos deuses e dormiu profundamente, sonhando com praias ensolaradas e de por de sois amarelo-cenoura.
                                                
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Acordou em Pasto muito cedo de manhã, o e motorista do caminhão gritou para cima da carga:
– Eh, Brasilenho, te invito a un desayuno Pastusco!
E novamente a amabilidade Andina se fez presente: Foram a um modesto banheiro e em seguida sentaram a mesa de uma construção antiga de alvenaria que era um armazém ao lado de um posto de gasolina.
O motorista pediu um café da manhã com Huevos Rancheros, que era feito refogando-se tomates picados, com pimentão e bastante cebola, cheiro verde e depois se colocava um pouco d’água e três ovos, fechava-se a tampa da frigideira, cozinhava-se os ovos no vapor por pouco tempo, colocava-se mais salsinha e coentro sobre eles e logo em seguida os serviam na frigideirinha, com pão, manteiga, queijo e um café forte, delicioso e aromático, numa caneca esmaltada.
Estes Ovos Rancheiros era o café da manhã reforçado dos campesinos locais.
                                                         
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Bino ainda estava na mesa com o motorista amigo e na mesa do lado sentou-se um motorista dirigindo um caminhão tanque e após conversa entre os dois motoristas Bino conseguiu uma carona de boleia até Cali.
O caminhão saiu a tarde e ao cair da noite estava no Vale do Rio Cauca. A estrada foi se apertando:  para o oeste a parte ocidental do maciço andino que faz fronteira com a floresta Amazônica e para o leste por um outro braço do maciço dos Andes e, a visão gigantesca desta bifurcação dos Andes mais a estrada enluarada  bordejando o rio Cauca era simplesmente linda, e Bino se sentiu pequeno naquele lugar.
As três da manha o caminhão tanque subia gemendo e engatado em marcha forte em direção ao Maciço Leste, e subiu por muitos quilômetros de asfalto mal cuidado, até que de manhã eles chegaram a uma linda cidade chamada Cali, localizada num platô a dois mil e seiscentos metros de altura.
Cali é uma cidade pujante, limpa, européia, com amplas avenidas, edifícios modernos, uma universidade de primeira linha e um campus grande e bem bonito.
Bino conseguiu hospedaria no campus, e lá fez amigos entre os estudantes que lhes deram mais endereços de outros amigos que estavam no campus da Universidade de Bogotá, na capital federal, e também no campus da Universidade de Medellín.
Lá pela primeira vez ele conheceu a arte do mundialmente  renomado pintor Botero e também conheceu mais a fundo alguns livros, ainda não publicados no Brasil,  de um grande escritor colombiano, da cidade litorânea  de  Cartagena, o Gabriel Garcia Marques.
Bino leu ávida e rapidamente um de seus livros, escrito de modo realístico e simultaneamente fantasmagórico, chamado Cien Años de Soledad, e ao terminar de ler Bino sabia que também na literatura, Colômbia possua um Campeão Peso Pesado.
Na Universidade de Colômbia em Cali, com os estudantes de Arquitetura, Bino adquiriu um gosto por uma aguardente muito boa, chamada Cristal, forte como uma boa caninha brasileira, mas com um toque de anis que a “arredondava” ainda mais ao descer esôfago adentro. Também com os estudantes bebeu o famoso Tinto, um café expresso, feito dos melhores grãos dos cafés colombianos que se tomava imediatamente após ser passado. Além do gosto, o aroma do café colombiano era único, até para Bino, criado em zona cafeeira.
Muitos dos estudantes de Cali, após beberem o tinto, sempre fumavam um cigarro barato, sem filtro, de tabaco negro, chamado Piel Roja, ou Pele Vermelha. Um dia depois de umas doses de Aguardiente Cristal, Bino quis fazer graça fumando um dos Peles Vermelhas oferecidos por uma estudante de Literatura. Bino passou mal e foi forçado a perder um belo almoço.
De volta à turma, ainda meio mareado e esverdeado, ele foi motivo de chacota amiga por não manusear bem o mata-rato e principalmente por suas botas pastuscas, pois os intelectuais de Cali tinham, enganosamente, a concepção de que os Pastuscos eram brutos e burros – e, paradoxalmente, eram admirados por sua simplicidade, honestidade e ética de trabalho.
Pela Colômbia afora Bino sempre notou esta relação amor-ódio entre os citadinos e os camponeses das montanhas, genericamente chamados de Pastuscos.

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Depois de alguns meses na estrada, o mochileiro começa a adquirir um sexto sentido sobre uma determinada cidade, com um companheiro de estrada ou até mesmo com a carona que lhe está sendo oferecida. Bino não podia explicar isto em palavras, mas era um sentimento que não vinha do intelecto, mas talvez do hipotálamo, algo intuitivo ou visto pelo terceiro olho, como diziam os amigos Krishnas.
Bino sentiu que havia alguma coisa muito errada com aquela linda cidade florida e de eterna primavera. Em condições normais, sustentada pela economia local Medellín não poderia, como New York e Paris ter tanto vestidos de grife famosas pelas suas ruas, tantas jóias caríssimas, e uma estranha entourage de tiras de guarda-costas vestidos de ternos custosos e em carros importados dos EUA e da Europa. Aquele padrão de vida, aqueles bares servindo algumas vezes champanhe de vinte mil dólares aquilo não era produto da economia formal da área.
Às noites na cidade eram longas, festivas, comemoradas em restaurantes finíssimos sempre cheios e o mesmo com as discotecas; corria muito dinheiro vivo, e até havia muitas vadias de luxo, também importadas dos EUA, Europa e ate do Brasil. Havia muita cocaína rolando. Não faltavam carros de luxo, limusines, muitos “turistas” com guarda-costas, muitos gorilas trabalhando de segurança...  Algo em Medelín não andava certo.
Era o comércio de drogas. De cara no campus, ele foi informado do pó luminoso que cobria a cidade, mas parecia que a maioria dos estudantes era complacente com a situação: bem, os gringos buscam o pó, aqui se tem muito, é só uma mera questão de oferta e procura, era o raciocínio quase universal.
Outros iam mais além dizendo que o problema era na demanda, sem ela não haveria produção, daí as drogas na Colômbia eram um problema sim, mas um problema causado por norte-americanos.
Eles pareciam estar cegos que o problema  já tinha se tornado  também dos supridores, dos colombianos, com bandos de crianças viciadas em Bazuco, já não mais vivendo com suas famílias e que dormiam promiscuamente nos bueiros de Santa Fé de Bogotá; com tiroteios nas favelas; com assassinatos dia e noite; bombas explodindo em jornais da capital, intimidando a imprensa e mais - com a dissolução familiar, prostituição infantil, e violência urbana em geral.
Um dos estudantes que Bino encontrou no refeitório, que defendia o tráfico, estava de olhos vermelhos, falava rápido e desconexo, mãos trêmulas, e, por trás de todas as suas argumentações sócio- econômicas postas de maneira lúcida e elegante, com lógica amparada no princípio de Colbert, a lei de oferta e procura, por trás de tudo aquilo,  era puro sofisma: Bino falava com um viciado que nem mais atinava para a realidade.
Depois desta “palestra” Bino decidiu que viu o bastante da bela e sedutora Medellín, dos anos setenta e que já era tempo de ganhar a Carretera Pan Americana para o norte.
Estudou seu mapa e decidiu que sairia cedo no outro dia e iria até Chigorodo e de lá pegaria outra carona até Rio Sucio, tentaria entrar no Panamá pelo Parque Nacional Darién.
Uma vez no Panamá, Bino tentaria de um modo qualquer a ser decidido lá, se re-conectar com a Pan Americana Norte na cidade de Yavisa, no Sul do Panamá.
No Café Universal se reuniam bastantes mochileiros e alguns hippies e Bino foi lá a tarde para ver se conseguia alguma informação de primeira mão como negociar a problemática fronteira, com pouquíssimas estradas, onde a Carretera Pan Americana parecia sumir.
A sua primeira decepção foi com as notícias dadas a ele por um casal de mochileiros alemães, que se julgavam com muita sorte de terem sobrevivido àquela fronteira e voltado para Medelín, depois de muitos dias perdidos na floresta e fugindo de guerrilheiros.
Eles afirmaram que o tal do Passo do Darién era simplesmente impassável. Era uma área de quase cem quilômetros de terreno difícil, montanhas, rios caudalosos, cheio de bandidos, forças colombianas para-militares e guerrilheiros das FARC, ou Forças Armadas Revolucionárias Colombianas.
“Por lá você não passa”, disse o alemão bem direto e reto. Bino se sentiu frustrado e impotente com estes cem quilômetros intransitáveis adiante dele, numa rodovia que saia praticamente do pólo sul, ou seja, da Patagônia, cortando todas as Américas até os gelos do Alaska e só com a exceção de menos de cem quilômetros entre Colômbia e Panamá incompletos.
Porque a Pan Americana desaparece nessa fronteira? E ninguém tinha uma resposta definitiva.


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

PELA CARRETERA PANAMERICANA

            Após caminhar e pedir carona por quase hora e meia na estrada,    pegou uma Chivita, como são conhecidos estes “ônibus artesanais” e psicodelicamente ornamentados nos quais ele já tinha andado no Equador e foi rumo norte, na Pan Americana, rumo a Talara.
            A alguns quilômetros desta cidade a Chivita parou com um problema no motor e Bino decidiu pedir carona até a cidade. Parou uma caminhonete Dodge, modelo bem anterior ao começo da segunda grande guerra, de um mercador de peixe. 
            A boléia estava cheia, mas o motorista apertou a todos e Bino se espremeu entre quatro pessoas. Todos fediam a peixe e estavam alegres. Eram pescadores em dia de sorte. Ofereceram-lhe uma garrafa de pisco em que todos bebiam. Bino deu uma golada sem fazer cara feia, eles gostaram do Brasilenho e se desculparam do aperto. A carroceria estava cheia de peixe e gelo, coberta por uma lona e pingava uma água avermelhada que também fedia a peixe. Mas Bino agradeceu a Deus pela carona - e aos trancos e barrancos chegou meio “alegre” a Talara, uma pequena vila pesqueira e, como os pescadores, fedendo a peixe.
            Ao chegar ao mercado, os locais começaram a gozar do Bino, uns dizendo que ele estava usando “El Perfume de Gardênia” e outros rindo e falando claro e em rima, diziam que ele estava “apestado de pescado.”
            Mas, novamente, aconteceu um incidente que foi uma constante em sua viagem pela América latina: um guri viu a bandeirinha do Brasil cozida na parte de trás de sua mochila e ao se darem contas que o Bino era um verdadeiro descendente dos Conquistadores da Copa, a sua sorte mudou, talvez crendo que um conquistador não devesse feder a peixe.
            Levaram-no até um banho público perto do mercado de peixe onde, por alguns centavos, se tomava um belo banho frio e com direito a um pedaço de sabão. Esses banhos públicos eram uns cubículos de madeira carcomida, comum a Ibero - América, com um cano jorrando água continuamente - e os mochileiros e alguns hippies mais asseados, freqüentemente os usavam.
            Bino lavou a sua roupa com sabão e um guri admirador da Raza de los Campeones o levou de calção e sandália de dedo até uma lavandeira perto dali, onde uma senhora lavou,secou e passou a ferro de carvão todas as suas roupas, também por quase nada.
            Depois Bino foi a um bolicho perto da praia e comeu uma bela sopa de cabeça de peixe e lá ele ouviu, em detalhes, pela primeira vez, a campanha da Seleção Brasileira com dois pescadores que se sentaram a sua mesa.
            Estes pescadores conseguiram-lhe um lugar numa caminhonete International muito velha com sua carroceria coberta de lona e com pranchas a guisa de bancos para os passageiros - sendo a maioria deles nativos e mochileiros; era uma versão compacta do “pau-de-arara” brasileiro que transportava nordestinos pobres para Rio e São Paulo e Brasília, no passado. Nesse pau-de-arara, Bino chegou a Tumbes.
            Como já era quase noite e Bino estava exausto, ele se encaminhou ate uma pequena praia de areia muito branca que estava literalmente entre manguezais.
            Apesar de Tumbes ser uma cidade verde e não desértica, à noite pareceu que a temperatura esfriou um pouco, talvez até porque Bino estava com fome.  O vento soprava na praia em rajadas fortes, de direção não determinada, como se o ar mais aquecido do oceano começasse a brigar as camadas frigidas vindas das cordilheiras distantes. Bino retirou o seu saco de dormir, preso por correias de couro no topo da mochila, tirou também uma folha de plástico de metro e meio por dois, desdobrou-a e a colocou sobre a areia, firmada por quatro pedras. Em seguida, entrou no saco de dormir colocado sobre o plástico, se ajeitou nele, como sempre, passou braço direito da alça da mochila para não ser furtado, usou-a como travesseiro, e ficou a contemplar a lua e o céu, ouvindo as ondas a se espocarem na praia e dormiu, Dormiu pesado e só acordou quando o sol já brilhava forte.

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            Durante este período as estradas estavam fervilhando de gente pedindo carona e as aduanas entre os países latino americanos estavam tão movimentadas que os agentes aduaneiros estavam aceitando qualquer tipo de identidade dos sul-americanos, na ausência de seus passaportes, para desafogar as fronteiras. Entre estes mochileiros Bino conheceu o mexicano Victor Dominguez, o qual veio a se tornar um amigo fiel do Bino.
            Apesar de o Peru estar sob um governo Militar semelhante ao do Brasil, esta confusão nas fronteiras, certamente ira ajudar Bino a sair do Peru, assim ele pensava.
            Antes do reboliço da vitória da Seleção Brasileira de Futebol Bino ouviu muitos casos de pessoas que na apresentação do passaporte, foram presas e recambiadas ao Brasil ou Argentina; isto não era paranóia: era fato.  A verdade era que nos tempos da ditadura uma coisa andava muito bem organizada entre os países ditatoriais: a repressão.
            Enquanto Bino andava em direção ao centro da cidade ele se encontrou com dois mochileiros canadenses, e como sempre eles sempre fazem, pararam, “trocaram figurinhas”, endereços de pousos e albergues, falaram sobre os locais e cidades mais amigáveis, sobre tratamento em aduanas, enfim aquela mesma  estória de planejar com antecedência a logística de sobrevivência para a próxima parada.
            Os canadenses também falaram que chegaram de Guayaquil em uma barca, saíram de Guayaquil à tarde, navegaram toda a noite e chegaram a Tumbes de manha. Reiteraram que a burocracia portuária era pequena, que de terceira classe a viagem  custava centavos e no porão dava ate para dormir.
            Ao se despedirem, Bino já tinha um plano de ação: Sairia do Peru por Tumbes numa “Barca Quíchua”, como descrita pelos canadenses, uma “banheira velha e remendada que transportava os mais pobres dos pobres” até o porto de Guayaquil, no Equador - onde os oficiais aduaneiros não exigiam muita papelada de  entrada ao país.
                                                  
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            Em Tumbes Bino comprou uma passagem na terceira classe no porão de uma Barca Quíchua, como ele havia planejado que saia de tarde e pela manhã chegava a Guayaquil.
            Bino já sabia que em Guayaquil  circulava o dólar americano, bem como a moeda nacional, o Balboa e ali ele aproveitaria para cambiar todos os Cruzeiros  Pesos Argentinos, Condores Chilenos e Soles de Oros Peruanos  por dólares para facilitar sua viagem.
            A três da tarde, ele entrou na velha barca e desceu duas secções abaixo do convés se alojou na terceira classe, que era o porão.  Lá ele conheceu um casal argentino, uma ruiva Mignone chamada Myrta cujo rosto lhe lembrava a Janis Joplin e o seu namorado, cabeludo, pouco mais alto do que ela, um tipo pálido, magro e com uma barriguinha de cerveja e ainda por cima apelidado de Mono.
            Eles pretendiam visitar as pirâmides Maia em Guatemala e a caminho conhecer Belize, um protetorado inglês que praticamente cortava o acesso da Guatemala ao mar do Caribe, e segundo o casal era um local mui hermoso e tinha lindas praias mornas e banhadas pelo Caribe.
            Enquanto eles falavam da beleza do pequeno protetorado inglês, Bino olhando espantado o número de nativo que empacotava o porão, com suas trouxas de roupa, suas caixas, galhinhas frutas, e todo o tipo de tranqueiras. A mente de Bino estava ocupada em achar um banheiro e uma saída de emergência, mas aparentemente não havia nenhum nem outro. O porão era quente, úmido e fedia,
            Bino conversou pouco com a Myrta e Mono, se limitando a dizer que ia visitar uns amigos em Guadalajara, encostou-se ao casco enferrujado da barca e achou melhor nem abrir a mochila ali para retirar o seu plástico para sentar no piso sujo.
            Aceitou um cigarro da Myrta e fumou mais para matar o cheio do local.
            Após três apitos longos Bino ouviu o barulho do motor, sentiu a trepidação do casco e minutos após ele já sentia o balanço do mar.
            A viagem seguia tranqüila, mas havia algumas coisas preocupava o Bino alem do banheiro e saída de emergência: Uma delas era que não havia nenhum colete salva vidas a vista. Outra, não havia extintores de incêndio. Também ele notou que a saída   para o convés superior, ou segunda classe, estava fechada com uma grade de ferro e trancada com corrente e cadeado.
            Na terceira classe também havia muitos indígenas mascando folhas de coca, outros bebendo chincha ou pisco e outros até alguns fumando, “mota” ou maconha. Mas esta gente descendente de Incas é povo quieto, tudo estava em paz e Bino ia sossegado em seu canto, porem não vendo a hora de sair daquela arapuca e ver a luz do dia em Guayaquil.
            Mono puxou conversa com ele e trocaram alguns endereços de hospedagem em Quito e Bino tinha o endereço de um bom pouso na Cidade de Guatemala, trocaram suas figurinhas e eles conversaram sobre suas experiências de estrada, Mono falando praticamente todo o tempo, o que para Bino estava muito bom.

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            Quase ao lado de Bino havia uma escada íngreme de ferro que levava a segunda classe, mas havia a grade de ferro, fechada a corrente e cadeado, que não permitia o tráfico da terceira para a segunda classe.
            A cara do Mono estava sangrando, sua camisa em farrapos, e o moço insultado estava agora irritado com Bino, pois ele estava apartando a briga e evitando que o baixinho furioso esfaqueasse o Mono. Para complicar as coisas a Myrta estava também empurrando os nativos, em defesa do filho-amante e agora eles começavam a bolinar a guria.
            Bino gritou a ela para subir a escada e berrar por socorro, o que ela fez.  Enquanto isto Bino puxou o Mono escada a cima e disse para ele subir as escadas e juntar-se a Myrta também pedindo socorro.
            Em seguida Bino se viu acuado por dois caras com facas agora ameaçando, vagarosamente a dar um bote em cima dele.  Com a mochila em seu braço como escudo para se defender ele foi subindo de costas as escadas quando um deles furou a mochila.
            – Aí fechou o tempo; Bino se agarrou ao corrimão e se defendia com pontapés, com a bota pesada adquirida no Rio Grande do Sul, e Myrta gritava por socorro e freneticamente sacudia a grade de ferro e Mono tentando também dar pontapés - mais estava muito apalermado para qualquer tipo de ajuda.
            Ninguém apareceu para acabar com a confusão. Talvez fosse mesmo por estes tipos de brigas que a tripulação tinha colocado aquela grade e fechado-a a cadeado.  Então Bino gritou a Myrta, vamos gritar fogo:
            – E os três começaram a berrar: Fogo, fuego, fuego
            Quase de imediato um oficial vestido de branco apareceu com um extintor, Myrta gritou para ele que queriam esfaquear seu noivo e que ele já esta ensangüentado.
            O oficial abriu a arapuca, ela passou para a segunda classe arrastando a tralha do Mono. Bino continuava a dar pontapés para se defender das facas, quando um dos caras agarrou a sua perna. O oficial esguichou uma nuvem branca de pó anti fogo em Bino e na turba, e continuou esvaziando o extintor em direção a escada, enquanto Bino tossindo e de cara branca passava também para a segunda classe - e outro tripulante que tinha chegado para ajudar, fechava o alçapão.
            Por grande parte da viagem Bino ficou tentando se limpar do pó branco do extintor, e os três permaneceram o resto da viagem no “conforto” da segunda classe.

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            Subindo para Quito, começou a chover copiosamente na serra e havia momentos que o engenheiro tinha que colocar a cabeça para fora do toldo do Jipe para ver a estrada. Houve várias paradas por conta de deslizamentos de lama e pedras na estrada e numa delas chegaram a esperar por várias horas. Uma viagem simples e rápida para Rio Bamba tornou-se muito demorada.
            As 05h30min da manhã eles chegaram exaustos a cidade e o jovem era um engenheiro civil, radicado em Rio Bamba que trabalhava em manutenção e capacitação de estradas. Voltava  da Capital onde participou de um simpósio de reforço de encostas por meio de produtos têxteis geodésicos. Era um patriota e parecia ter a inabalável fé em mudanças radicais em seu país, acreditava no progresso e reclamava muito da corrupção governamental.  Era uma pessoa culta e no campo de engenharia Bino e ele tiveram amplo terreno de conversação.
            Ele parou o jipe para abastecer num posto de gasolina e tomou um café com Bino. Em seguida ele conversou com um conhecido no posto e este arranjou uma carona para Bino num caminhão Fargo antigo, com a boleia que mais parecia um oratório de macumbeiro, toda decorada de santos, fitas e franjas.
            No Equador era costumeiro aos motoristas complementarem os seus salários levando passageiros de carona na boleia por um preço bem em conta. Estando a cabine já cheia, Bino foi grátis em cima das batatas, enroscado no saco de dormir debaixo de uma lona furada. Ele estava muito cansado e dormiu quase até chegar a Latacunga.
            O motorista era um mestiço simpático chamado Henrique. Ele parou numa área de vendedores que parecia ser uma feira improvisada e chamada de “Mercado Central” e gritou para as batatas:
            Eh Brasilenho vamos a comer.
            E sentaram-se num quiosque bem rudimentar e o motorista ordenou dois ajiacos em Quíchua, para duas jovens índias que atendiam a banca.
            Era meio dia e quinze, e o motorista se apresentou como Henrique e conversaram alguma coisa sobre futebol.
Em seguida se desculpou que a boleia do caminhão estava cheia com passageiros, e perguntou se deu para Bino descansar e Bino disse que não estava cansado e que praticamente dormiu o tempo todo e o motorista se sentiu melhor.
            Depois o Henrique falou que muitos destes passageiros eram tão pobres que pagavam a viagem com ovos, galinha, frutas e uma vez ele até aceitou um iguana, a qual ele afirmou não ter comido e depois ele disse meio sem jeito: – Aqui Brasilenho, as coisas são muito difíceis e qualquer coisinha ajuda, disse o motorista rindo - o que Bino interpretou como uma cobrança da viagem.
            Disse também que ele estava vindo direto de Loja, quase divisa com o Peru, onde ele pegou o carregamento de batatas. Ele disse a Bino que dirigia por quarenta e oito horas praticamente sem dormir, tirou algumas pestanas só em alguns trechos de manutenção da estrada, mas somando todas paradas, toalete incluído, não alcançava a duas horas de sono.
            Chegaram os ajiacos, servidos em uma tigela grande, acompanhado com tortilhas de milho. O cheiro era delicioso e o gosto ainda melhor. O Ajiaco era uma sopa com batatas com um bom pedaço de flanco de boi gorduroso, com salsinhas, coentro e que se comia de colher, como uma sopa, com as tortilhas.
            Bino pretendia a cooperar com o motorista, pagando pela comida modesta e ficar quites com a carona, pois “qualquer coisinha ajudava”, como tinha falado o motorista.
            Na comida o motorista confessou que agüentava o tranco das muitas horas acordado, mascando folhas de coca.
            Enquanto comiam a saborosa sopa andina, Bino falou que conheceu o mate-cola em Las Cuevas, e que em Cuzco tinha mascado umas folhas para melhorar o mal estar das alturas. Disse também que ele se sentiu triste quando viu o pobre do velho Inca que vinha morro acima, mascando as folhas e carregado de caixas como um animal de carga.
            O Henrique riu para Bino, com seus dentes pequenos, perfeitos, mas esverdeados, mordeu vagarosamente sua tortilha e disse:
            – Jovem não se sinta mal. O velho esse devia estar alegre e bem disposto. Estas folhas são a energia dos Incas e com elas um império foi criado. Também com elas o pobre do índio de Cuzco, consegue existir, pois vida, sem as folhas, eles não têm.
            – Em relação à “energia” isto é verdade; mas vi muitas cenas tristes com os nativos, e talvez estas folhas não sejam tão boas assim. E em São Paulo vi muita miséria causada pela cocaína.
            – Brasilenho você está enganado. Meu povo usa essas folhas medicinalmente e como estimulantes, a milhares de anos nos Andes.  Nunca esse costume, como o seu de beber café, causou problemas para nós.  E continuou:
            – O que criou problemas entre os nossos nativos foi o álcool. O pisco que o europeu empurrou aos índios. Ai está a raiz do problema, os hábitos trazidos pelos brancos a América.
            – Mas e a cocaína?
            – Também porcaria trazida pelos brancos. Eles não se contentam com as coisas boas da natureza e estão sempre querendo mais e mais. Tiram em laboratórios os cristais da pasta de folhas de coca para fazer a cocaína, a tal que você viu maltratando a gente no seu país. Tudo coisa dos brancos, tudo de laboratório, sem querer lhe ofender.
            Bino ficou quieto, partindo um bom pedaço de carne com a colher enquanto comia sua tortinha que estava enrolada como um charuto.
            O motorista acabou de comer a carne e as batatas, segurou sua tigela com as duas mãos e bebeu todo o caldo que sobrava. Em seguida limpou os lábios na manga da sua camisa comprida e depois colocou a mão numa bolsa artesanal de lã, e cheia de desenhos coloridos de motivo andino e retirou um bocado de folhas verdes as pôs na mesa.
            Depois pediu uma folha de jornal a uma das meninas atrás do balcão; ela trouxe, o motorista colocou as folhas no papel de jornal, fez um pacotinho e disse:
            Brasilenho ponha em sua mochila, você poderá necessitar da energia inca na estrada.
            – Mas isto pode me dar dor de cabeça, disse Bino.
            – Não nos Andes. Só as masques no interior. Autoridades em Quito nos perseguem por mascar as folhas de cocas, mas sabe por quê? Estão cansados de ter as ruas sujas, cheias de folhas cuspidas pelos nativos. Nada a ver com os efeitos das folhas, somente se aborrecem com a limpeza da cidade, em mostrar as coisas superficiais bem bonitas para os turistas.
            De novo ele riu calmo, resignado, com seus dentinhos verde-esperança.
            Bino terminou também o seu ajiaco, que desceu maravilhosamente na tarde fria, chuvosa e sombria dos Andes, e disse:
            – Por favor, deixe-me pagar a conta.
            Henrique o olhou confuso e um tanto irritado.  Ele disse:
            – Você é um estrangeiro em meu país - e meu convidado. Por favor, guarde o seu dinheiro.
            Bino se desculpou sem graça, e mais uma vez, a generosidade do povo inca, desta vez exercida por um caminhoneiro pobre, o comoveu.
            Ele saiu do modesto comedor com o motorista e este perguntou:
            – Você esta indo para Quito, não é?
            – Sim, é a minha próxima parada.
            Foram andando até uma Praça Colonial ainda do tempo dos espanhóis e lá o motorista encontrou foi em direção um caminhão Mercedes Benz, importado do Brasil. Era de um amigo dele chamado Zamora, que tinha acabado de entregar para um depósito uma carga de cobertores e retornava de caminhão vazio a Quito.
            Os dois conversaram em Quéchua e Zamora sorriu para Bino e disse:
            – Vamos Brasilenho, entre na cabine, pois sairemos daqui a pouco. Bino deu a mão a Zamora, e se despediu abraçando o amigo Henrique.
            – Brasilenho, como es mismo tu  nombre?
            – Mi nombre és Bino, e Henrique riu-se:
            – Você é o primeiro Bino que eu conheço.
            Henrique una preguntita, disse Bino, sorrindo: – Quando devo mascar estas folhas?
            – Somente em grandes alturas, quando lhe faltar um pouco o ar ou quando tiver que estar acordado e alerta de qualquer maneira - a guevos, disse ele rindo.
            – Mas isto não vicia?
            – Sim. Muito. Quando o homem branco brinca com as folhas, transformando-as em cristais, em droga.
            – Obrigado, disse Bino andando com Zamora para a sua mercedinha “cara chata” e o Henrique disse as suas costas: Que vayas com Dios!