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domingo, 17 de junho de 2012

Vietnã - a sombra da guerra encobre Bino


Mas, parafraseando o velho adágio, tudo que é bom, dura pouco, quando a vida do casal parecia andar cada dia melhor, Bino recebeu uma carta do governo americano que ameaçava a desconstrução da bonita história que eles tinham começado a criar: Bino estava sendo convocado para a guerra do Vietnam.

Já se falava por todos os Estados Unidos na “vietnamização” desta maldita guerra e que as tropas dos EUA estavam sendo drasticamente reduzidas na área de conflito e quando tudo parecia estar indicando o final da guerra e o retorno das tropas americanas, eis que ao apagar das luzes chega esta maldita carta para Bino se apresentar às forcas armadas.

Cindy chorou muito e xingou a guerra, o governo, os políticos e chorou muito mais ainda. Chegou até a propor a Bino para eles se mudarem para o Canadá – país que recebia os jovens que se recusavam a lutar no Vietnam.

Claro, Cindy sabia que voltar ao Brasil poderia ser ainda mais perigoso para Bino e ela realmente não sabia o que fazer. Uma hora ela dizia que queria um filho para diminuir as chances de Bino ir para o Vietnam. Outra hora falava que ele devia se declarar um “CO” um Conscience Objector - termo significando Objeção de Consciência pela guerra - e tentar a sorte em obter um alistamento sem pegar as armas. Mas sendo Bino estrangeiro, ele corria o risco de deportação; enfim, a Cindy não sabia o que fazer.

Um dos companheiros de trabalho de Bino sugeriu que ele deveria se casar logo com a Cindy e não se recusar a fazer o treinamento militar básico que duraria dez meses. Neste período a guerra certamente estaria terminada e mesmo que não estivesse já deveria estar chegando ao fim; nesses dez meses haveria uma redução drástica de tropas americanas e os recrutas casados certamente não seriam convocados.  E foi mais além o amigo, explicando que se a Cindy estivesse grávida haveria ainda menos chances de Bino ir para o Vietnam.



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Os anos sessenta e setenta nos Estados Unidos, e, mormente na Califórnia eram tempos e dias loucos.

Era época de protesto contra a guerra no Vietnam, de distúrbios sociais; de demanda dos negros por sua integração social e protestando a segregação racial ateando fogo em Agosto de 1965 na Cidade de Watts, um gueto negro na Califórnia. Para dominar a revolta foram necessários quatorze mil Guardas Nacionais e mil e quinhentos policiais.

Depois, revolta e protestos pela morte do líder Dr. Martin Luther King em Abril de 1968; Em Nova Iorque, em Woodstock foi feito o “mais famoso evento na história do Rock and Roll” segundo o Rolling Stones, com a presença, do Grupo Graetful Dead,, Blood Swet and Tears, Joan Baez, Santana, Janis Joplin e muitos outros incendiando os espíritos da juventude com sentimentos de protesto contra a guerra do Vietnam. Lá entre a multidão de jovens contestando os valores, protestando a guerra e curtindo a vida deles, estava  a Gandira, a amiga do Bino.

Califórnia estava em pé de guerra. Havia uma subcultura de drogas e alienação a valores estabelecidos por parte dos hippies e também a antítese do movimento hippie que era a onda dos Krishina que buscavam a essência da vida por meio da espiritualidade, via hinduísmo. As drogas rolavam soltas, a juventude andava sem rumo. Religiões formais e estabelecidas e valores familiares eram contestadas criando-se um ambiente favorável a procriação de gente como Charles Manson e seus seguidores. A juventude andava perdida e mal encaminhada em muitas áreas.

As universidades fervilhavam com todos os tipos de protestos. Muitos campi se tornaram campo de batalha, como o da Universidade Estadual de Kent, no Ohio onde quatro estudantes foram mortos. Quatrocentas universidades e Colleges se fecharam em protesto. Nixon perdeu cinqüenta por cento de sua popularidade. Havia também uma guerra interna entre o governo aguerrido e uma juventude desiludida, rebelde e combativa que abominava a cultura alienada, materialista, engessada e suburbana que se criou na América depois II guerra.

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Para complicar ainda mais, a Guerra do Vietnam também contribuiu para o distúrbio social, especialmente durante a presidência de Richard Nixon: Para a guerra iam proporcionalmente mais negros e outras minorias, do que brancos. Para ser bucha de canhão não havia descriminação racial e ao contrário – percebiam os negros – havia até preferência a gente de cor. E novamente, os Negros se rebelavam também contra a guerra.
Mas uma coisa era comum a todos os soldados, independentemente de raça, a guerra os transformava: Ela retorcia estes adolescentes armados e os recambiava aos seus locais de origem transformados numa juventude violenta, desiludida, cínica e desnorteada - e mutilada física e mentalmente.
Muitos voltavam da guerra usando do haxixe a heroína - além de muletas e cadeiras de roda. A taxa de suicídio entre estes retorcidos era alta e também o índice de distúrbios mentais e violência. O Vietnam quase acabou com uma inteira geração de guris americanos que foram à luta.
Não era muito fácil ser “careta” nesse tempo na Califórnia. Como Gandira deveria dizer lá no Retiro Krishina de Ibiraçu, “são tempos de Kaliuga”, tempos de destruição.
E Bino se adaptou a esta Califórnia louca, livre, linda, violenta e desregrada: Ele e a Cindy conseguiam viver tranquilamente no meio dessa loucura, não exatamente como monges - mas também não como a garotada da pesada.

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O pagamento mensal militar de treinamento básico no exército era uma esmola de ajuda de custo - e isto sacrificava o pagamento das despesas da casa. Bino então decidiu se alistar na Marine Corps, os Fuzileiros Navais, um grupo militar de elite, onde poucos eram selecionados e que exigia treinamento rigorosíssimo. Mas nos Marines o pagamento durante o treinamento e combate era bem melhor.
Cindy estava deprimida com a situação militar do marido e este se recusava a fugir para o Brasil ou Canadá. Para Bino não fugir dos EUA, perversamente em sua mente de jovem, era uma questão de honra, de não ser chamado de “desertor” ou “covarde”.  Era algo que ele não sabia explicar bem, que ele não achava lógico ou acertado – porém não podia agir de outro modo.
Ele foi mandado para o campo de treinamento básico dos Marines em Pendleton no Condado de San Diego, localizado entre as cidades de San Clemente e Oceanside, a uma hora e meia de carro de Los Angeles em dias de tráfego favorável.
A sua folga era pouca. O treinamento de doze meses era duríssimo e longo.  Muitos não passavam a prova de fogo e eram rejeitados. Os que permaneciam era chamados “The few, the proud, the Marines” – Os poucos, os orgulhosos, os Fuzileiros Navais - e Bino gostou de ser um dos poucos escolhidos entre muitos chamados.
Também havia uma camaradagem imensa entre “os escolhidos”. O lema dos Marines é “Semper Fidelis” e eles realmente eram fiéis uns aos outros.







domingo, 11 de dezembro de 2011

UMA ALIANÇA INFELIZ DA DITADURA

Ele chegou a rodoviária, sentou-se num banco ao lado do guichê que vendia passagens para Tulcan, na fronteira do Equador com o sul da Colômbia.  Até a noite Bino tinha que deixar o Equador, pois seu passe de três dias expiraria.
No mapa ele calculou que indo pela Rodovia 25, que era simplesmente a continuação da Carretera Pan Americana, a distância seria de 350 quilômetros, e calculou, que pelas freqüentes paradas do ônibus e pelo estado das estradas no país, que, no mínimo, a viagem seria de oito horas.
Bino queria sair no primeiro ônibus as seis da manhã: Apesar do Equador não ter fronteiras com o Brasil e ele temia que houvesse troca de Telex entre as autoridades militares equatorianas e o DOPS do Brasil e ele pensou que na Colômbia, sob um governo de civis, ele estaria mais protegido.
Às cinco e meia Bino comprou seu ticket para Tulcan e estranhou que o preço fosse tão baixo, até que ele visse o “ônibus” chegar.
                                                  
                                                              
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O ônibus era uma adaptação de carroçaria de madeira, incluindo os assentos montados numa estrutura de um caminhão americano International. Era um pouco melhor do que o nosso pau-de-arara brasileiro, só pelo teto de madeira e umas lonas com plásticos transparentes que se rolavam pelas laterais protegendo os passageiros em caso de chuva.
As malas iam por uma escada atrás do “ônibus” para cima do teto de madeira, colocadas em um berço de ferro e cobertas por lona e amarradas por cordas e mais: em cima com as malas um policial solicitou ao motorista que levasse dois pobres coitados, provavelmente indigentes e estes não podiam se proteger debaixo da lona em caso de chuva. Pelo menos estes pobres coitados ficaram com as melhores vistas dos Andes.
Dentro do baú de madeira era um carnaval caótico. Jovens mestiços tocavam violão e cantavam “cuencas” com ajuda de uma “charanga” improvisada, garrafas de pisco eram passadas entre alguns passageiros, antes mesmo de sair “a coisa”, senhoras nativas já passavam as suas tortilhas e tamales entre si e muitas delas já estavam de peito para fora acalmando seus rebentos.
Havia passageiros levando iguanas precariamente amarradas por embiras, e este animal era um prato entre os nativos, ainda mais apreciados do que galinha.
Na metade da viagem uma desses iguanas se desvencilhou de sua amarração e saiu correndo por baixo dos pranchões de assento e foi um Deus-nos-acuda, com um pobre índio velho, meio embriagado, se metendo debaixo dos assentos e os mais jovens o sacaneando espantando o lagarto-almoço, enfim o ônibus teve que parar, a iguana foi caçada, presa e amarrada, e depois seguiu-se viagem.
                                                  
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Como a cabine estava cheia de passageiros, Bino subiu numa carroceria de quase três metros de altura, carregada de cenouras e se acomodou no topo do mundo, como se fosse o Monarca das Cenouras, e seguiu viagem por mais uns 135 quilômetros no topo dos Andes em estrada perigosa, estreita e de barro até a cidade de Pasto.
De cima da carga de cenoura Bino pode apreciar as montanhas e o vale a mais de mil metros abaixo, rolando-se até a lateral da balouçante carroceria ele ficou a olhar as rodas do caminhão, tão perto do abismo, negociando a lama vermelha que  espirrava em todas as direções.
 A estrada não tinha cercas de proteção  e muito menos acostamento. A fome apertou e Bino começou a comer cenouras, O frio das montanhas era intenso e havia uma garoa muito úmida, Bino retirou a sua jaqueta azul de náilon da mochila, desenrolou seu saco de dormir, entrou nele e se aninhou debaixo de uma lona esfarrapada que cobria só parte das cenouras.
Ainda era frio, e de novo ele pegou a mochila, tirou o seu poncho e a sua garrafa de pisco e deu duas goladas grandes e a guardou.  Depois enrolou o poncho e o transformou em travesseiro. A carroceria do caminhão continuava a balançar e ele se preocupava com a estrada, mas entregou seu destino aos deuses e dormiu profundamente, sonhando com praias ensolaradas e de por de sois amarelo-cenoura.
                                                
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Acordou em Pasto muito cedo de manhã, o e motorista do caminhão gritou para cima da carga:
– Eh, Brasilenho, te invito a un desayuno Pastusco!
E novamente a amabilidade Andina se fez presente: Foram a um modesto banheiro e em seguida sentaram a mesa de uma construção antiga de alvenaria que era um armazém ao lado de um posto de gasolina.
O motorista pediu um café da manhã com Huevos Rancheros, que era feito refogando-se tomates picados, com pimentão e bastante cebola, cheiro verde e depois se colocava um pouco d’água e três ovos, fechava-se a tampa da frigideira, cozinhava-se os ovos no vapor por pouco tempo, colocava-se mais salsinha e coentro sobre eles e logo em seguida os serviam na frigideirinha, com pão, manteiga, queijo e um café forte, delicioso e aromático, numa caneca esmaltada.
Estes Ovos Rancheiros era o café da manhã reforçado dos campesinos locais.
                                                         
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Bino ainda estava na mesa com o motorista amigo e na mesa do lado sentou-se um motorista dirigindo um caminhão tanque e após conversa entre os dois motoristas Bino conseguiu uma carona de boleia até Cali.
O caminhão saiu a tarde e ao cair da noite estava no Vale do Rio Cauca. A estrada foi se apertando:  para o oeste a parte ocidental do maciço andino que faz fronteira com a floresta Amazônica e para o leste por um outro braço do maciço dos Andes e, a visão gigantesca desta bifurcação dos Andes mais a estrada enluarada  bordejando o rio Cauca era simplesmente linda, e Bino se sentiu pequeno naquele lugar.
As três da manha o caminhão tanque subia gemendo e engatado em marcha forte em direção ao Maciço Leste, e subiu por muitos quilômetros de asfalto mal cuidado, até que de manhã eles chegaram a uma linda cidade chamada Cali, localizada num platô a dois mil e seiscentos metros de altura.
Cali é uma cidade pujante, limpa, européia, com amplas avenidas, edifícios modernos, uma universidade de primeira linha e um campus grande e bem bonito.
Bino conseguiu hospedaria no campus, e lá fez amigos entre os estudantes que lhes deram mais endereços de outros amigos que estavam no campus da Universidade de Bogotá, na capital federal, e também no campus da Universidade de Medellín.
Lá pela primeira vez ele conheceu a arte do mundialmente  renomado pintor Botero e também conheceu mais a fundo alguns livros, ainda não publicados no Brasil,  de um grande escritor colombiano, da cidade litorânea  de  Cartagena, o Gabriel Garcia Marques.
Bino leu ávida e rapidamente um de seus livros, escrito de modo realístico e simultaneamente fantasmagórico, chamado Cien Años de Soledad, e ao terminar de ler Bino sabia que também na literatura, Colômbia possua um Campeão Peso Pesado.
Na Universidade de Colômbia em Cali, com os estudantes de Arquitetura, Bino adquiriu um gosto por uma aguardente muito boa, chamada Cristal, forte como uma boa caninha brasileira, mas com um toque de anis que a “arredondava” ainda mais ao descer esôfago adentro. Também com os estudantes bebeu o famoso Tinto, um café expresso, feito dos melhores grãos dos cafés colombianos que se tomava imediatamente após ser passado. Além do gosto, o aroma do café colombiano era único, até para Bino, criado em zona cafeeira.
Muitos dos estudantes de Cali, após beberem o tinto, sempre fumavam um cigarro barato, sem filtro, de tabaco negro, chamado Piel Roja, ou Pele Vermelha. Um dia depois de umas doses de Aguardiente Cristal, Bino quis fazer graça fumando um dos Peles Vermelhas oferecidos por uma estudante de Literatura. Bino passou mal e foi forçado a perder um belo almoço.
De volta à turma, ainda meio mareado e esverdeado, ele foi motivo de chacota amiga por não manusear bem o mata-rato e principalmente por suas botas pastuscas, pois os intelectuais de Cali tinham, enganosamente, a concepção de que os Pastuscos eram brutos e burros – e, paradoxalmente, eram admirados por sua simplicidade, honestidade e ética de trabalho.
Pela Colômbia afora Bino sempre notou esta relação amor-ódio entre os citadinos e os camponeses das montanhas, genericamente chamados de Pastuscos.

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Depois de alguns meses na estrada, o mochileiro começa a adquirir um sexto sentido sobre uma determinada cidade, com um companheiro de estrada ou até mesmo com a carona que lhe está sendo oferecida. Bino não podia explicar isto em palavras, mas era um sentimento que não vinha do intelecto, mas talvez do hipotálamo, algo intuitivo ou visto pelo terceiro olho, como diziam os amigos Krishnas.
Bino sentiu que havia alguma coisa muito errada com aquela linda cidade florida e de eterna primavera. Em condições normais, sustentada pela economia local Medellín não poderia, como New York e Paris ter tanto vestidos de grife famosas pelas suas ruas, tantas jóias caríssimas, e uma estranha entourage de tiras de guarda-costas vestidos de ternos custosos e em carros importados dos EUA e da Europa. Aquele padrão de vida, aqueles bares servindo algumas vezes champanhe de vinte mil dólares aquilo não era produto da economia formal da área.
Às noites na cidade eram longas, festivas, comemoradas em restaurantes finíssimos sempre cheios e o mesmo com as discotecas; corria muito dinheiro vivo, e até havia muitas vadias de luxo, também importadas dos EUA, Europa e ate do Brasil. Havia muita cocaína rolando. Não faltavam carros de luxo, limusines, muitos “turistas” com guarda-costas, muitos gorilas trabalhando de segurança...  Algo em Medelín não andava certo.
Era o comércio de drogas. De cara no campus, ele foi informado do pó luminoso que cobria a cidade, mas parecia que a maioria dos estudantes era complacente com a situação: bem, os gringos buscam o pó, aqui se tem muito, é só uma mera questão de oferta e procura, era o raciocínio quase universal.
Outros iam mais além dizendo que o problema era na demanda, sem ela não haveria produção, daí as drogas na Colômbia eram um problema sim, mas um problema causado por norte-americanos.
Eles pareciam estar cegos que o problema  já tinha se tornado  também dos supridores, dos colombianos, com bandos de crianças viciadas em Bazuco, já não mais vivendo com suas famílias e que dormiam promiscuamente nos bueiros de Santa Fé de Bogotá; com tiroteios nas favelas; com assassinatos dia e noite; bombas explodindo em jornais da capital, intimidando a imprensa e mais - com a dissolução familiar, prostituição infantil, e violência urbana em geral.
Um dos estudantes que Bino encontrou no refeitório, que defendia o tráfico, estava de olhos vermelhos, falava rápido e desconexo, mãos trêmulas, e, por trás de todas as suas argumentações sócio- econômicas postas de maneira lúcida e elegante, com lógica amparada no princípio de Colbert, a lei de oferta e procura, por trás de tudo aquilo,  era puro sofisma: Bino falava com um viciado que nem mais atinava para a realidade.
Depois desta “palestra” Bino decidiu que viu o bastante da bela e sedutora Medellín, dos anos setenta e que já era tempo de ganhar a Carretera Pan Americana para o norte.
Estudou seu mapa e decidiu que sairia cedo no outro dia e iria até Chigorodo e de lá pegaria outra carona até Rio Sucio, tentaria entrar no Panamá pelo Parque Nacional Darién.
Uma vez no Panamá, Bino tentaria de um modo qualquer a ser decidido lá, se re-conectar com a Pan Americana Norte na cidade de Yavisa, no Sul do Panamá.
No Café Universal se reuniam bastantes mochileiros e alguns hippies e Bino foi lá a tarde para ver se conseguia alguma informação de primeira mão como negociar a problemática fronteira, com pouquíssimas estradas, onde a Carretera Pan Americana parecia sumir.
A sua primeira decepção foi com as notícias dadas a ele por um casal de mochileiros alemães, que se julgavam com muita sorte de terem sobrevivido àquela fronteira e voltado para Medelín, depois de muitos dias perdidos na floresta e fugindo de guerrilheiros.
Eles afirmaram que o tal do Passo do Darién era simplesmente impassável. Era uma área de quase cem quilômetros de terreno difícil, montanhas, rios caudalosos, cheio de bandidos, forças colombianas para-militares e guerrilheiros das FARC, ou Forças Armadas Revolucionárias Colombianas.
“Por lá você não passa”, disse o alemão bem direto e reto. Bino se sentiu frustrado e impotente com estes cem quilômetros intransitáveis adiante dele, numa rodovia que saia praticamente do pólo sul, ou seja, da Patagônia, cortando todas as Américas até os gelos do Alaska e só com a exceção de menos de cem quilômetros entre Colômbia e Panamá incompletos.
Porque a Pan Americana desaparece nessa fronteira? E ninguém tinha uma resposta definitiva.


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

ARGENTINA - A ditadura tambem estava por ali


            A ficha caiu na cabeça de Bino e ele se deu contas de sua mancada. A reclamação foi o seu segundo erro naquele ônibus. Reportando o furto do dinheiro, e o confronto com os federales era extremamente perigoso, pois os milicos argentinos andavam de braços dados com os brasileiros.
            Bino, tentado retificar o erro disse ao motorista:
            – Vamos ser justos. Eu disse isto porque penso que a minha mochila foi aberta e não encontrei o dinheiro onde eu pensava o ter guardado. Deixe-me verificar tudo e lhe direi se de fato sumiu ou não o dinheiro - e se sumiu quanto foi exatamente o furto.
            Entonces que vayas ligero, por que os federales estão bem perto.
            –Volto num minuto. Volto antes de San Tomas.
            Apurate, San Tomas esta aí adiante.
            Bino voltou ao seu assento, colocou o dinheiro da carteira dentro do passaporte, esperou um minuto e voltou rápido ao motorista ficando de pé do seu lado:
            Señor yo estaba cometendo una injusticia. E abrindo a passaporte disse:        
            –Todo o dinheiro estava aqui dentro e eu na pressa não tinha visto, mentiu ele mostrando o dinheiro.
            Tu estas seguro que toda la plata está aí? Disse o motorista, com o rosto sombrio.
            Si señor, con toda la seguridad. Parece que ele só andou revirando as minhas coisas, mas não pegou nada, floreou a mentira Bino.
            Deve ser un Boton hijo de puta, aludiu o motorista ao Ratão como “botão”.
            – Que disse?
            – Boton, Botones, Taqueria, tudo é nome de milico por aqui, explicou o motorista com um sorriso, e continuou:
            – Andam batendo nas calçadas com seus tacos, seus saltos e vestindo fardas cheias de botões! E continuou:
            – Aqui na Argentina estão nos vigiando até no banheiro. A cara deste tipo ratero não me é estranha.
            Deve ser um hijo de puta informante dos botones, seguramente. Estes vadios não têm o que fazer e agora até turistas eles incomodam. Por isto que o nosso país está em la mierda e o turismo a la puta madre que lo pario.
            Bino o ouviu calado. Ele também estava revoltado, mas não queria falar nada no ônibus onde até as pessoas sentadas nos bancos da frente podiam ouvir o que o motorista abertamente dizia.
            – Mire Muchacho. Até adiante de nós, disse ele apontando para a estrada que estava com o asfalto todo remendado. – Eles deviam estar reparando estradas com o nosso dinheiro de impostos. Não fazem nada. Não fazem estradas, não abrem escolas, hospitais, não fazem nada. Só farda, carros de assalto e pagando a rateros para ficar fuçando bolsa de turistas.

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O sorriso amarelo do motorista aos Federales de nada adiantou: Pararam o ônibus do Expresso San Luis na vila de San Tomas e Bino pressentindo alguma coisa foi para o banheiro do ônibus, vestido sentou-se no vaso, esperando o fim de sua jornada num inglório cubículo fedido a poucos quilômetros do seu portão de escape. 
            Seu corpo ficou retesado ficando esperando o momento fatídico das batidas na porta.
            O policial e entrou no ônibus que estava em silêncio. Bino colocou o ouvido na porta e ouviu parte da conversa.
            Procuravam por um fugitivo do Brasil que tinha um passaporte com o nome de Bino Tedesco e outras documentações com o nome de Antônio Fidelis que possivelmente ia para Buenos Aires.
            – O motorista disse não ter nenhum passageiro com este nome, mas mesmo assim o Policial pediu o manifesto dos passageiros, e de fato não havia nenhum Tedesco ou Fidelis.
            – E um tipo alto, olhos esverdeados e atléticos, disse o guarda. Parece que ele carrega uma mochila azul.
            – Si ahora yo me acuerdo: Eu me lembro. Este cara saiu do ônibus em Zarate e não voltou. Esperei até um pouco por ele, mas não voltava para o ônibus. Aí ele correu para o ônibus, pegou uma mochila e desceu me falando em Português que ia ficar ali. Um cara barbudo e de óculos escuros, o esperava num Peugeot azul claro e saiu quente em direção a Buenos Aires.
            – Un Peugeot azul claro?
            – Si. Era un coche bien nuevo.
            Vos vistes la licencia?
            Non, pero era licencia de Buenos Aires. Y nel volante iba uma muchara rubia, de unos vinte y seis años, fumava y usaba anteojos escuros.
            – Carlos, vos te acordas de uma Peugeot Azul Claro que passo com una rubia guapa a um rato atrás?  – Gritou o policial para fora do ônibus.
            Yo creo que era um verde claro, disse o outro policial.
            Mierda! Verde o azul claro?
            Se la yo! Estava mirando la rubia, hombre, disse o Carlos, completamente justificado pelo machismo.
            – Vos vistes dos tipos nel coche?
            – No estoy cierto, La rubia parecia sola.
            – Mierda inspecionaste el coche? El maletero?
            No carajo! No habia motivo de parar a nadie, era solo uma piba! Se la deje passar, por supuesto.      
            Carlos vos sois un idiota.  La vaga tenia dos subversivos nel maletero!
            E nervoso, o Federal começou a berrar ordens: Chame o posto Norte da Capital e digam para segurar todos os Peugeots: verdes ou azul claros, Todos. Passe um telex para a central de Buenos Aires e passe as informações do carro: Peugeot nova, dois caras e a loura, diga que tem placas da Capital.
            A voz agora era bem alta e para dentro do ônibus: – A Peugeot tinha duas ou quatro portas?
            – Quatro portas, disse o motorista.
            – Azul claro mesmo?
            – Bem estou de óculos escuros e o carro estava na sombra. Poderia ser um verde claro, quanto a isto não estou seguro.
            – Carlos adicione ao Telex que o carro é de quatro portas e é quase novo. Não mude a descrição da cor.
            E a voz autoritária berrou para dentro do ônibus: – Y ahora, andate vos que era um duro “Pode se arrancar agora”.
            Pela fresta de ventilação junto ao vidro fosco do banheiro, Bino viu um cara alto, de costeletas, óculos Ray Ban espelhado e de quepe e casaco de couro negro entrando num Ford Falcon da Policia Federal com outro policial já no assento. Em seguida, as luzes vermelhas da viatura começaram a piscar, ouviu-se o gemer da sirene e o Falcon de motor especial, saiu rasgando o acostamento e queimando pneus, deixando para trás só uma nuvem cinza de pó de pedra e cascalhos, alguns dos quais picotaram o ônibus.
            Com seus olhos grudados nas frestas da ventilação Bino viu o posto da policia federal ir passando e depois o ônibus pegou a estrada e ganhou velocidade, mas Bino ainda continuou, no banheiro e tremia de medo e agradecia a Deus por aquela gente humilde do ônibus que sabia que ele estava lá, mas nenhum deles o entregou.
            Se recompondo, Bino lavou o rosto, se enxugou e saiu do banheiro para a sua poltrona, e subitamente se espantou quando aquela gente o aplaudiu.
           
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O Sr. Martinez escorregou um pouco o vidro da janela e o sob o zumbido da turbulência do ar perguntou: – Como es tu nombre?
            Bino, Bino Tedesco.
            Yo pensava que tu nombre era Arturo.
            – Não Arthur é o nome falso em minha identidade estudantil.
          Novamente, por trás do bigode de guidão de motocicleta, Sr. Martinez esboçou um sorriso e dando novamente uma tampinha na perna de Bino lhe disse:
            – Bino, tudo vai sair bem.
            – Espero em Deus, disse Bino, e perguntou:
            – Sr, Martinez, a quantos quilômetros estamos de Munro?
            – Estamos indo em direção oposta. Munro está do outro lado; estamos indo para a Capital da Província de Buenos Aires, que é La Plata. E lá que eu vivo.
            – La Plata?
            – Sim. Nunca digo a ninguém onde realmente vivo. Eu tenho um ranchito em La Plata.
            – Mas o senhor não confiou nos passageiros do ônibus? Se fossem gente má eles nos denunciariam aos Federales.
            – Sim, eles não eram maus. Mas se tivesse um informante entre eles? E num sussurro disse: Bino, nunca fale muito em tempos difíceis como estes. Sob tortura todos falam; todos! Se alguém apertar qualquer um passageiro a resposta será verdadeira: Munro.
            – Mas o nome do senhor é Martinez; não é mesmo?
            – Que diferença faz disse o velho rindo? Mas o meu nome é mesmo Martinez. Juan Martinez. Quando o tema é meu nome, ai eu não sei mentir direito.
            – E nem eu, riu o Bino, e ambos riram.
            E o Sr. Martinez fechou o vidro de sua janela e dormiu.

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            La Plata definitivamente era bem menor do que Buenos Aires, mas mesmo assim era uma cidade bonita, bem iluminada, de ruas amplas, vários edifícios governamentais imponentes no estilo neoclássico.
            Uma cidade onde já a primeira vista se sentia a sobriedade e a aura cerimonial da capital da Província; Bino notou vários prédios imponentes de universidades e ele deduziu que lá seria também um centro intelectual argentino.
            O ônibus parou numa rodoviária simples, limpa, ampla e bem iluminada.
            Sr. Martinez fez sinal para Bino o acompanhar até uma cabine telefônica. Ele falou rápido com alguém e agora usava o seu castelhano interiorano, com uma cantadinha que Bino já tinha ouvido no norte da Argentina. Depois da chamada, ambos sentaram num banco de madeira, na extremidade da rodoviária, Bino pôs a mochila no chão e bocejou.

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Em quinze minutos Pablo já estava numa estrada rural de pó de pedra e pedregulhos indo em direção norte.
            A noite era iluminada, a lua dava uma nuance prateada na estrada e aos robles a beira da estrada, que pareciam cansados com seus ramos espreguiçados  e chorosos, o rádio tinha música campesina, com uma guitarra triste e Bino mal se mantinha acordado.
            Tudo era plano, os pampas pareciam uma lona prateada estendida com algumas casinhas e umas tantas araucárias, pinheiros e árvores sobre ela, e finalmente entraram em uma estradinha de barro que ia em direção ao ranchinho iluminado dos Martinezes que era praticamente cercado de muitas árvores, mas a noite Bino só identificou os plátanos e sauces chorões que protegiam o rancho do vento frio dos pampas, que eles chamavam de Minuano.

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Bino ficou duas semanas em Buenos Aires. 
            Carlos tentou arranjar documentação para Bino sair da Argentina por avião, mas devido a uma tentativa de bomba no aeroporto de Ezeiza, e a grande dificuldade de se obter o visto americano em Buenos Aires, a saída da Argentina por avião se tornou arriscada e imprudente. Houve grandes momentos de espera e até de frustração, mas Bino teve bastante tempo para conhecer a sua família mais a fundo, aprendeu muitos fatos curiosos sobre os Tedescos na Itália e até começou a sua árvore genealógica, indo completa três gerações ao passado.
            Bino sabendo que as tias estavam idosas passou com elas muitos dias adquirindo inúmeras informações sobre os seus antepassados, e anotando-as copiosamente em seu caderno e as tias estavam felizes de ter um sobrinho tão aplicado na genealogia familiar.
            Com Carlos e Alicia e, algumas vezes, com os Martinezes Bino conheceu vários locais turísticos de Buenos Aires e adjacências, Gostou dos bifes de quase um quilo e das famosas “papas fritas” do restaurante Los Anos Locos; visitou o Obelisco e lá tirou muitas fotos; subiram numa tarde o La Plata de barco-restaurante e Bino ficou espantado com a largura do rio e suas plácidas águas prateadas e com nuances douradas do pôr de sol. Também visitou a linda Catedral de Lujan, passeou e com Carlos e Pablo foram comer as famosas Empanadas Portenas na Recoleta e depois foram ver o super clássico do futebol Argentino, entre o River Plate e Boca Junior no estádio Vespúcio Liberti.  Neste dia o River perdeu em sua casa de um a zero e teve um quebra-quebra generalizado que muito assustou Bino.

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