quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O PREFÁCIO QUE FOI CORTADO NA EDIÇÃO

O chegar a pagina 428 do livro meu ultimo livro, O PAPA BESOUROS (Redes Editora, Porto Alegre) a Salete Mores (minha editora) começou o corta-corta editorial, para que o livro não se enquadrasse no "genre" de "epistola", e como resultado, cortamos, entre outras coisas, o seu longo PREFACIO. Bem, gostava tanto dele que aqui, com saudosismo, o publico: SdM

PREFÁCIO

A viagem relatada neste livro é complicada e bem mais longa do que a antecipada. Teve os seus ziguezagues, me levou a locais imprevistos e teve o seu começo em Vitória (ES), onde nasci, que para mim já foi uma ilha coberta de sol, sonhos e poesia. De certo modo, esta jornada também começou em João Neiva, uma vila não muito longe da capital onde passei inúmeras férias de verão no casarão da velha Maria Elizabeth, a minha avó alemã, com as tias Damaris e Clélia, o saudoso e proverbial tio Corintho, os primos Adilson e Arilton, a prima Eugenia Maria e uma mão cheia de bons amigos.
Lá havia cachorros, pássaros, papagaios - quase uma cena de Gabriel Garcia Marques - num chalé de alegria, com um pomar de sonhos e em frente da casa, rolando lerdo, preguiçoso um riozinho todo cheio de curvas e voltas, onde aprendi a nadar.
No pomar havia muitas frutas. Meu finado avô Silvino não acreditava em semente de fruta que não fosse plantada. Havia mangueiras de muitos tipos, jaqueiras, caramboleiras, parreiras, coqueiros, goiabeiras, pinhais, bananeiras de todos os tipos e frutas raras no Sudeste - como serigüela, cajá-manga, cajueiros e até um gigante jenipapeiro.
Durante um hiato de inocência, a linda ignorância infantil me fez pensar que tudo aquilo seria eterno e que João Neiva de fato era um paraíso.
Também havia sempre na casa um constante aroma de café e bolinhos de chuva, vozes familiares, trinar de pássaros e latir de cães, cheiro doce de pomar, do verde, de pedaços da floresta atlântica, um pot-pourri de inocência, descobrimento, vitalidade e alegria que pensei ser aquele tempo eterno.
Ainda hoje, embaçadas pelo filtro do julgamento adulto, remanescem em mim deste tempo um aroma verde de infância, de simplicidade e imagens passadas que rolam em minhas memórias como águas de um regato prístino de sonhos inocentes, rolando entre samambaias, bambuzais, árvores frondosas, murmurando entre troncos caídos, orquídeas e cogumelos, gentilmente fluindo por lisas pedras, com suas águas rolando mansas, cobrindo miríades de seixos em seu leito que brilham tênues sem ferir meus olhos envelhecidos. Foi deveras um tempo bom que tento manter vivo no menino que ha em mim,
* * * * * *
Educação sempre foi de grande prioridade em minha família.  Fui a terceira geração da minha família que estudou no Colégio Americano de Vitória;  e. nesta escola, eu contava os dias para chegar as férias, para embarcar no trem da Vitória-Minas e voltar à vila, ao chalé-sonho, que ainda sempre busco, talvez até mesmerizado em conseqüência de genes atávicos de imigrante que me impelem em diáspora contínua em busca do campo, da terra em busca de raízes. 
Bem, mais ou menos coberto o período de infância, estipularei a quota zero desta jornada como Ouro Preto. 
Quando terminei o segundo grau, fui para Ouro Preto para fazer o curso pré-vestibular de engenharia, para a venerável Escola de Minas; passei no vestibular e após um mês de severo trote eu me tornei um acadêmico da nobre escola.
Ouro Preto foi amor a primeira vista: encantei-me com a cidade, com a sua história e com os seus fantasmas, suas pontes, seus casarões históricos e a sua gente. Parei, ouvi e senti a vila a transpirar ecos de assombros, sussurros dos conchavos dos inconfidentes, e sentimentos de dejá-vù de quase ter participado de encontros secretos e intrigas dos que conspiravam pela liberdade e independência do Brasil.
Durante minha vida estudei o Tiradentes, mas em Ouro Preto me encontrei com ele - nas ruas e botecos, tornei-me camarada do Jovem Alferes Joaquim José Xavier do Exército Imperial, conheci seus amigos e amigas e triste sentei-me na praça que hoje tem o seu nome, debaixo do obelisco que marca onde a sua cabeça foi exposta depois de esquartejado.
Mais foi a Vila Rica do que a Escola de Minas que mais abriu minha imaginação e me expôs a diversas facetas da vida artística, política, filosófica, literária e religiosa.  A cascata de novos estímulos polinou a minha mente e me deu uma renovada concepção da vida.

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Ouro Preto é uma cidade serrana, localizada nas montanhas das Minas Gerais a cerca de novecentos metros de altura, com uma temperatura sempre agradável, nem muito quente nem muito fria. Fundada em 1698, ela parece estar congelada no tempo.
A arquitetura de suas construções é um raro estilo barroco colonial português. Igrejas foram construídas como fortalezas, e há por toda parte esculturas de santos, feitas no século XVIII em pedra-sabão, espalhadas pela cidade e co-habitando com seus habitantes. Por força de lei, suas construções foram tombadas, e assim a arquitetura da cidade permanecerá preservada, sem mudanças. Mas isso não se dá com a sua vida artística e literária: ela se agita, desenvolve-se e cresce entre os estudantes e também entre os cidadãos em geral.
Naquela vila, deparamo-nos em suas ruas com artistas e seus cavaletes fazendo pinturas a óleo sobre tela; outros fazem escultura em suas praças, artesanato pelas esquinas e outros tipos de arte; o velho Teatro da cidade está sempre em atividade e há música erudita, cantatas e madrigais em suas igrejas barrocas.  Ouro Preto dos anos setenta vibrava com o Festival de Inverno, realizado no mês de junho – onde seminários de arte, literatura, fotografia e cinema eram oferecidos gratuitamente ou por um preço nominal às pessoas da cidade e aos turistas que vinham de outras partes do Brasil e até do exterior. Os preletores desse Festival – especialistas em suas respectivas áreas artísticas – amando também seus ofícios e a cidade, ofereciam gratuitamente a sua arte e o seu ensino aos participantes desses festivais de inverno.
  Por um decreto da UNESCO em 1980, a cidade tornou-se um Patrimônio Cultural da Humanidade, assegurando-se desse modo, a preservação da sua arquitetura, da sua arte, e suas construções salientes, tais como: o mais antigo teatro em funcionamento da América Latina, a primeira Escola de Farmácia e a segunda mais antiga Escola de Engenharia do Brasil, seus casarões do século XVIII em estilo barroco colonial, pontes de granito em arquitetura romana, estátuas do aleijadinho, pinturas e obras de arte, em suas igrejas e ainda vários cemitérios centenários bem cuidados, mas esquecidos pelo tempo.
  A UNESCO protege também dezenas de antigas igrejas coloniais portuguesas, construídas com sólidas paredes feitas de pedra, cal viva e óleo de baleia. Suas paredes internas ricamente ornamentadas com seus santos de aparência piedosa e anjos cintilantes, cobertos com uma fina camada de ouro em pó.
Essas velhas igrejas são depositárias de antigas pinturas sagradas a óleo sobre tela, e de envelhecidas imagens de madeira esculpida, colocadas sob tetos em arco. Cada igreja reflete o feitio pessoal de seus antigos freqüentadores. Por exemplo, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, construída por negros, livres e escravos, em meados do século XVIII, é considerada a única igreja barroca no Brasil com fachada arredondada e com anjos, imagens e santos de pele de cor escura.
No dia da sua inauguração, o nobre ex-escravo Chico Rei lá chegou em sua luxuosa liteira dourada, com vários de seus compatriotas por ele alforriados, para dançar em frente da igreja um africano congado.
A tradição diz que Chico havia sido um escravo que na África era da nobreza local e que comprou sua liberdade - bem como a de dezenas de escravos da sua nação natal. Ele tornou-se muitíssimo rico por explorar minas de ouro, e estabeleceu sua própria corte na nobreza portuguesa de Ouro Preto. Sob a proteção da Igreja Católica e de homens de negócio que aferiam lucros provindos de sua imensa fortuna, Chico Rei foi um dos Gaius Maecenas da Nossa Senhora do Rosário e de outras igrejas de negros da cidade.
Outro exemplo em que o feitio pessoal dos membros foi o que influenciou a natureza da congregação acha-se na Igreja de Nossa Senhora do Pilar, a mais suntuosa igreja barroca da cidade. Seus freqüentadores eram principalmente abastados comerciantes, políticos e ricos “cristãos novos”, que literalmente esbanjaram mais de quinhentos quilos de ouro em pó no rico e luxuoso interior dessa Igreja. A branca Igreja de Pilar não podia ficar nada atrás do negro templo do Rosário...
O ritmo e a cadência suave da cidade de certo modo decorrem do freqüente badalar de dezenas de sinos de igrejas. Seus toques fluem como melaço, ressoando de forma vagarosa o dia todo, sempre chamando para missas, casamentos ou funerais – e anunciando também a hora de Ângelus, dando a impressão de que, na maioria das vezes, os sinos badalavam uns para os outros, sem produzir som. Eles pareciam soar para aqueles que haviam se tornado surdos a seus apelos, soavam para a irreverência dos turistas, e o seu som era uma advertência às armadilhas dos novos tempos – um triste lamento diante de uma já passada era de diamantes, cavalos e carruagens, luxuosas liteiras, exóticas sedas chinesas, licores, vinhos do Porto, diamantes, esmeraldas e muito ouro.
Uma riqueza de valor inestimável de ouro e pedras preciosas foi explorada em Ouro Preto, mas a maior parte dela foi embarcada para a Corte Imperial de Lisboa, e uma porção menor, se bem que substancial, contribuiu para alimentar a Revolução Industrial na Inglaterra. As migalhas que foram deixadas em Ouro Preto, no entanto, foram suficientes para torná-la mundialmente uma das mais ricas cidades do seu tempo.
Por mais de um século, até o dia de hoje, estudantes têm vindo de toda parte do país para se alojarem em grandes casas coloniais, estabelecidas como dormitórios pela Universidade. Os estudantes as chamam de repúblicas, cada uma delas tendo um nome que tenta refletir as características de seus fundadores: Os menos religiosos estão na república de nome Vaticano; os mais sensuais ficam no Jardim de Alá; os nordestinos agremiam-se na Verdes Mares – e assim por diante.
Quando cheguei a Ouro Preto, antes de entrar na Escola de Engenharia, minha primeira república localizava-se bem perto da Igreja de Nossa Senhora do Pilar, e seu nome era Buraco do Tatu. Este nome tem a ver com a condição de seus moradores, que viviam numa rua situada na extremidade mais baixa da cidade, perto da Igreja do Pillar.
A aldrava sobre a porta de entrada da república Buraco do Tatu era uma velha tampa de privada de madeira pintada de vermelho. Sobre ela estava, em letras brancas, a famosa frase atribuída ao imperador Constantino ao marchar contra Roma: In Hoc Signus Vinces. Essa infame aldrava, com um pouco da história bizantina, era um insulto aos bem-educados sacerdotes que conduziam procissões que passavam à frente daquela república, e mais ainda, uma permanente fonte de atrito entre os estudantes do Tatu e o povo devoto, em geral.
            Ao entrar na Escola de Minas, fui convidado a entrar numa república de estudantes de engenharia chamada Pureza, que ficava ao lado duma outra república, chamada Vaticano. Dizia-se que Pureza era tão pura como neve suja em beira de rodovias, mas na época, só conhecendo a neve em cinemas, pensava que toda neve era branca e linda... 
A maioria de seus estudantes, os assim chamados “os Puros”, eram bons meninos provindos de vários estados do Brasil. Eles eram um pouco desregrados, dedicados boêmios que tinham a reputação de serem beberrões, e, pior: em sua maioria, mantinha boas relações com as funcionarias da madame Santita, à guardiã do bairro proibido, localizado um pouco abaixo da Escola de Farmácia.
O povo da cidade nos tolerava, a menos que tentássemos sair com as moças da localidade – neste caso toda a tolerância terminava e eles tornavam-se tão “amigos” quanto foram os romanos de Átila. Somente com as moças que vinham de fora (turistas, por falta de conhecimento) e com as meninas da madame Santita (porque sabiam demais) é que podíamos ter encontros amorosos.
Nos primeiros anos da década de 70 a vida me era muito agradável: eu amava Ouro Preto e meus companheiros (meus “irmãos”, como dizíamos) da Pureza. A Escola era boa, e boa era também a comida servida no seu refeitório – e o meu futuro parecia ser promissor. Os que se formavam na Escola de Minas sempre encontravam um emprego com facilidade. Ouro Preto era um oásis de felicidade num país devastado por uma ditadura militar desde 1964.
Mas nesse assunto político eu não me metia e tampouco punha o meu nariz onde não era chamado; tentava me manter neutro em questões polêmicas e não confrontava os militares. Lia todo livro que me viesse à mão e estudava a história local. Dedicava meu tempo livre ao serviço de confortar e guiar mulheres solitárias que vinham como turistas em fins-de-semana e, por certo, sempre havia uma cerveja gelada que nos era servida nos bordéis da madame Santita.
Meus livros de estudo eram abertos o mínimo indispensável para eu obter uma média passável, e assim a vida me era confortável e muito agradável. Porem não demorou muito para que aquela situação tão boa de repente mudasse completamente.
O governo militar começou a atuar com maior prevalência sobre a população em geral. Em sua maioria, os estudantes por todo o país levantaram-se em protesto contra as injustiças, mas valentões da ditadura começaram a aterrorizá-los.
Que o diga o nosso querido João Bosco, hoje cantor e compositor e o César Maia, ex-prefeito do Rio, ambos ex-alunos da Escola de Minas sendo que o César, nome de guerra Do Cuzão, era nosso irmão da Pureza.
Menezes, um estudante de engenharia da República Amarra-Golo, desapareceu por algum tempo. Meses depois ele retornou à cidade: quieto, introvertido, bebendo muito, coxeando e andando com uma bengala. Sua perna tinha sido maldosamente quebrada.
            Alguns estudantes que não tinham papas na língua, que eram politizados e que protestavam contra o governo começaram a desaparecer.
Agentes enviados pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) entravam em nossas repúblicas estudantis para procurar livros “políticos”; por incrível que pareça Das Kapital de Marx era um dos livros colocados na lista negra, mas não o Mein Kampf de Hitler.
Revistas e jornais com idéias contrárias, como o Pasquim - e também as de conteúdo sexual, tais como Hustler, achavam-se na lista negra. O pessoal do DOPS divertia-se em apavorar os estudantes quando faziam diligências nas repúblicas, em altas horas da noite, sem os devidos mandatos legais – e, muitas vezes, os agentes exalavam bafos de cachaça barata.
Eles sempre traziam armas automáticas e submetralhadoras. Até mesmo livros escritos por Jean Paul Sartre, Franz Kafka ou um pôster de Mahatma Gandhi poderiam ser considerados subversivos e sujeitos a serem apreendidos e seus donos investigados dependendo do alto conteúdo etílico - ou do baixo nível cultural - dos policiais. A regra geral dos agentes do DOPS era a seguinte: em caso de dúvida a respeito de qualquer coisa, a regra era considerá-la subversiva.
Ouro Preto sentia-se abatida, tal como a população pensante da nação. Um irmão de Republica, Newton, apelidado de Esculacho, era um rapaz alto, esguio de boa aparência, que cursava o terceiro ano de engenharia. Um dia ele desapareceu. Diziam que seu pecado capital foi o de ter um pequeno pôster de Che Guevara, pendurado à parede de seu quarto, e que provavelmente ele o tinha para reforçar sua imagem com as namoradas com quem compartilhava o seu quarto. No pé do ouvido se dizia que ele e Do Cuzão bem como o Lincoln, “aprontavam” em Belo Horizonte, e se isto foi fato, que bom, e mais força para eles.
Quanto a mim, irritado, eu já falava abertamente contra a ditadura e depois do desaparecimento de Newton, comecei a abrir mesmo a boca, expressando-me livremente o que o que tinha em minha mente sobre democracia, liberdade e direitos constitucionais.
À boca pequena fui então informado de que o meu nome estava na lista negra do Departamento de Ordem Política e Social. Fiquei tão aborrecido e desgostoso com isso que nem mesmo comentei o fato com a minha família.

                                                             * * * * * *

            Meu pai havia sido um “pracinha”, que serviu com a FEB (Força Expedicionária Brasileira) durante a Segunda Guerra Mundial. Alem de ser um patriota era um homem bem respeitado e bem relacionado. Bastaria apenas arranjar uma declaração escrita por um advogado e por mim assinada, negando o meu posicionamento político, para que eu pudesse continuar a viver em paz. Mas eu não queria esse tipo ridículo de paz: eu já não me agüentava, estava farto de ver o meu amado Ouro Preto ser debochado, a minha República ser saqueada, a minha escola ser visada e muitos de meus amigos serem intimidados, escorraçados, mutilados ou desaparecerem.
Que o DOPS e a Ditadura dessa República de Banana fossem para o inferno!
Depois de dar de presente meus livros e outros pertences a alunos mais necessitados, e tendo arrumado numa mochila todas as roupas que nela coubessem, junto com documentos e meu passaporte, fui à estrada e dei início à minha jornada.

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Sem uma passagem para sair do Brasil de avião, caminhei pelas estradas e caminhos do Brasil. Cruzei as fronteiras para o Uruguai e para a Argentina; atravessei os Andes e cheguei ao Chile.
Peguei a rodovia Pan Americana, prosseguindo em direção norte. Caminhei, pedi caronas e caminhei muito mais ainda. Vi coisas que me deslumbraram com a sua beleza, outras que foram repugnantes e algumas me amedrontaram, mas nunca perdi o meu objetivo de sair do Brasil.
Fui caminhando e pedindo carona inicialmente para o Sul, cruzei os Andes e depois segui sempre para o norte até que um dia cheguei à Califórnia, nos Estados Unidos, um ano e meio depois.
O orgulho não me deixou pedir qualquer subsidio aos meus pais. Paguei meu curso universitário na América fazendo as entregas do jornal Los Angeles Times, e também dirigindo um caminhão de suprimento aos aviões no Aeroporto Internacional de Los Angeles.
Minha vida girava em torno do El Camino College. Fiz amizade com um professor, de nome Bruce Milton Brown, que, além de amigo, tornou-se meu confidente e guru intelectual.
As mesas do píer da praia de Redondo, e as do Centro de Estudos em El Camino tornaram-se o meu local de estudo. Os locais abertos junto ao lago Arrowhead e Big Bear ficaram sendo refúgios para mim, e uma Kombi Caravana me serviu para o transporte, casa de campo, casa de lago e residência de praia.

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domingo, 11 de setembro de 2011

RIO GRANDE DO SUL: PARADA ESTRATEGICA

Talvez as planícies dos pampas dessem mais visão aos gaúchos . Talvez as noites invernais, ao lado do fogo, da chaleira e a cuia de chimarrão os unissem mais. Talvez as campanhas abertas, os pampas lhes ensinassem mais a serem mais desprendidos e francos.

O gaúcho economiza em sofisticações desnecessárias e é liberal na simplicidade, na naturalidade dos quem tem auto-segurança, sem usar de muitos adornos sociais para reforçar as suas personalidades.

Também Bino notou o quão claro eles falavam. Parecia que ele estava escutando português em FM, com uma pronuncia compassada, quase que soletrada, com uma calma de mineiro e uma perfeição de imigrante relojoeiro.

Talvez a intensa imigração de diversos povos da Europa para o Rio Grande do Sul fez que naqueles Pampas de Babel, todos falassem um português o mais cla-ro pos-sí-vel, para facilitar o entendimento ao outro imigrante de diferente idioma, mas que também usava o português como língua franca, resultando daí o falar claro do sul-rio-grandense.

Bino se acostumou também ao jeito pau-sa-do e ca-den-ci-a-do  do Gaúcho falar, e de suas nuanças em seus falares locais,  cambiando entre o gaudério e o áspero, em situações  diversas e em querências distintas.

Outra coisa que Bino ficou fascinado era com o tal do “tchê”. E esta expressão estava indelevelmente associada em sua mente com o Guerrilheiro Cubano nascido na Argentina, seu pôster no quarto do Newton - e o seu desaparecimento.

Até então, para Bino, tal expressão era aplicável só para camaradas socialistas como o “Che Guevara”, mas com a “T” adiante, o tchê tornou-se Gauchês. 
  
Nas estradas do sul e desde que ele entrou no Rio Grande, esta expressão, tchê, começou a ter outra conotação em sua mente, ficando associada a carinho, amizade, calor humano e aconchego, parte da cultura do Tcheísmo.

O porongo ou cuia de mate, a arte de enchê-la de erva, os diferentes tipos de ervas, as bombas, ao tipo de bomba, o ritual do roncar do porongo e encher a cuia para o próximo, o “encilhar” do mate e a sensualidade de mãos nuas tocando a redonda cuia morna numa noite fria, tudo isto Bino via como a parte ritualística do Tchêismo e para ele era muito belo.
Ele sentiu pena dos muito brasileiros órfãos, que não tiveram a oportunidade de conviverem com aquela cultura.

Bino planejou descansar somente dois dias em Passo Fundo, lavar suas roupas secá-las e dobrá-las cuidadosamente na mochila, tentaria ganhar uns dois quilos dos sete perdidos, tomaria banhos quentes, longos e freqüentes, estudaria o mapa rodoviário e faria uma logística de estradas, de rotas alternativas até a Argentina.

No dia seguinte, Bino já tinha um plano de ação: Ele iria rumo oeste pela BR 285, pelas cercanias de Panambi ele rumaria sul pela BR 392 e pousaria na Universidade de Santa Maria, onde descansaria um dia e de lá tentaria de um só fôlego ir até Uruguaiana pela BR-158 e pelas bandas de Rosário do Sul se conectaria com a BR 290 indo direto ate Uruguaiana. Lá chegando, tentaria cruzar ponte internacional sobre o rio Uruguai que era a fronteira entre Uruguaiana, Brasil e Passo de los Libres, na Argentina.

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Paulo e Gundela convidaram Bino para jantarem um “prato típico” no apartamento deles no perto do campus e seria batatas com eisbein e sauerkraut e antes disso tomariam cerveja feita em casa e com wurst de tira-gosto.

Bino pensou que ficaria mais feliz com feijão preto, arroz, bife e batatinhas fritas, mas ele já havia notado que no mundo há vários tipos de comida e ele devia se habituar a tudo e, ademais, ele jamais iria ofender o prato “típico” que a Gundela queria fazer para o hóspede “mineiro” de Ouro Preto.

Paulo fazia a sua cerveja na cozinha e na sacada de seu apartamento, no terceiro andar havia uma barrica cheia dela. Tomaram vários Steins de cerveja e comeram tanto wurst frito na cebola que a Gundela dizia: – Olhe guris, guardem um pouco de espaço para a janta!
Nunca comida alemã desceu tão bem em Bino. Até o joelho do porco estava ficando bonito e o chucrute, doce. Depois, de sobremesa, veio uma linda cuca de morangos feita em casa, com sorvete de baunilha.

A temperatura esfriou e eles foram curtir o frio na varanda do apartamento,  tomaram um vinho, e ouviram muitas bossas novas, a Gundela colocou também musica da Bavária e tomaram mais vinho, e riram, e parecia que fechariam com chave de ouro uma das noites mais descontraídas na jornada do Bino.

Depois se provou o velho adágio que diz in vino veritas! Gundela contou algo sobre a sua família:

– Meu pai era Capitão do Exército. Era durão, mas justo e respeitado por todos. Ele pautava a sua carreira estritamente pelo código militar. Aí os milicos lhe convidaram a entrar no DOPS e na ocasião ele pensou que iria prender terroristas, mas cedo ele se decepcionou, e Gundela deu uma Pausa torcendo as mãos, e se recompôs e continuou:

– Ele era carinhoso em casa, abraçava a mãe e minhas duas irmãs e eu, mas ele foi  mudando, e começou a beber muito. Ele bebia até de manhã, ela disse abaixando a cabeça e limpando os olhos em seu avental, continuou:

 – Foi ficando quieto e desligado, continuou Gundela, há dois anos ele se matou dentro do escritório Central do DOPS em Porto Alegre, enquanto esperava instruções de um General sobre uma “Operação Especial”, na Capital.

– Note bem Vitali, continuou Gundela, – O Dr. André, o pai do Paulo, teve a sua casa invadida e toda revirada às duas da manhã! Eles não encontraram nada comprometedor e saíram frustrados. A Babuska, como nós chamávamos a Vó, a mãe do Dr. André, era de idade e quase teve um ataque do coração.

E Paulo continuou o relato:
– Vitali, a Babuska, que significava vózinha em Russo, começou a ter sonhos de que meu pai estava morrendo numa avalanche de livros. E para acalmá-la meu pai queimou todos os seus livros de história da Rússia e alguns eram do tempo do Czar.

Depois de dois meses deram outra batida em nossa casa de madrugada e cinco dias depois a Babuska morreu de um ataque do coração. E disse seco: esses macacos são uns filhos de umas putas

Paulo saiu quieto ao banheiro e voltou com uma garrafa de vinho, encheu sua taça e sem perguntar encheu todas as taças.
Houve um silêncio e Bino enfiou o rosto entre as mãos e assim ficou quieto, mordendo a sua língua.

Vitali, disse Paulo: – Se a Gundela não estivesse grávida, eu entrava na resistência.
– Pelo amor de Deus, Paulo, implorou Gundela, ai tu farias o mesmo que fez meu pai, mas ao inverso! Violência gera violência, tu sabes bem disto.
– Desculpe-nos Vitali. Você está aqui como nosso convidado, bebemos um pouco mais e começamos a falar muito...

– Sabe Vitali, disse Gundela, aqui a gente não pode desabafar. Nem aqui, nem em lugar nenhum. Agora tu és um novo amigo, carregas uma mochila, gaudério e todo faceiro conhecendo o mundo, aí a gente sentiu mais coragem para desabafar, entendes...
Bino levantou a cabeça de entre suas mãos e seu rosto estava coberto de lagrimas. Ele disse:

– Estou cansado de viver em mentiras, disse ele sério e também não sou gaudério: terminou o seu copo de vinho de uma só golada e continuou:
– Meu nome real é Bino Tedesco e ele começou a contar a sua estória bem devagar:
 – Por causa de um mísero pôster de Che Guevara, no quarto de um amigo que dividia o apartamento comigo no interior de São Paulo, eu ando fugindo para a Argentina e tenho os macacos atrás de mim. Alguns amigos que me ajudaram na fuga agora estão na lista negra dos macacos e um, seguramente, deve até estar morto.

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– Vitali – desculpe - Bino, eu creio que será melhor tu trocares de planos, disse Gundela apreensiva.
– Concordo plenamente com você, disse Paulo a esposa.
– E que devo fazer? Perguntou Bino.
– Deixe me ver a sua carteira de Ouro Preto.
Bino passou a carteira a Paulo e este a estudou longamente e disse: – Parece boa. Você é mesmo da Escola de Minas?
– Não, disse Bino eu sou estudante de engenharia, mas não de lá.
– Não passe tanta informação Bino. Mesmo aqui você tem que se policiar
– Paulo eu já estou cansado de mentir.
– Descanse Bino, e depois continue mentindo descansado, pelo menos durante certo tempo, e Paulo continuou: – Sabe Bino, creio que é melhor você pegar outra identidade estudantil?
 – Por quê?
– Suponhamos que você precisa mostrá-la. Com uma rápida investigação eles verificarão que você não estuda lá e você estará frito. Amanhã tiramos umas fotos e amigos de confiança lhe darão uma carteira com nome de uma pessoa que realmente estuda jornalismo aqui.
– E como eu vou justificar estar longe da escola?
– Ah você está de matricula trancada ou alguma coisa nesta área. Vamos fazer de você um colono da região, disse Paulo rindo.
Gundela adicionou, – Paulo, o Arthur está com a matricula trancada.
Paulo disse: É Bino, eu penso que seu nome agora será Arthur Lange.
– E esse tal Lange é também procurado?
– Que nada, ele é um boa vida – ele deve andar esquiando na Europa ou Bariloche..
– Vitali... Ah que hábito ruim. – Bino, tu tens contato lá na fronteira? Perguntou Gundela.
– Não sei ao certo. Eu tinha um número telefone, Gundela, mas em vista do que está acontecendo eu não sei mais de nada.
– Esqueça deles Bino, falou Paulo com firmeza. Eu creio que todo o seu esquema deve andar comprometido. Quem sabe se sob tortura alguém não deu com a língua nos dentes? Temos que procurar alternativas.

Bino pensou no Antônio e disse: – Bem sob tortura tudo e possível. Acho melhor fazermos outros planos, mas não sei o que pensar nesse momento.

O Paulo Lewaschin era bom em resolução de problemas, bem sabido em manipular papéis e tinha uma mente de mestre de xadrez. Ele pensava em tudo, em todos os detalhes e estava sempre vários movimentos a frente do Bino e Gundela. Analisou a situação de Bino sob vários cenários e tinha solução para cada situação e caso esta não desse certo ele tinha sempre um plano “b” alternativo para todas elas.

Naturalmente, era certo que Paulo andava fazendo isto antes; ele estava muito esperto, mas Bino nada perguntou e nem informações foram dadas.

Bino amanhã você vai sair do alojamento e escreva na portaria “Arroio Grande” como seu próximo destino. No caso de alguém se interessar por suas andanças, imediatamente eles vão pensar que você vai tentar entrar no Uruguai pela fronteira Jaguarão – Rio Branco. E deverão acreditar nisto mesmo porque Uruguai não está sempre recambiando refugiados políticos. Temos que esperar que as coisas se esfriem na fronteira. Mas vamos pensar no presente primeiro. Saindo do Alojamento ponha Arroio Grande como sua próxima parada.

– E amanhã, para onde eu vou?
– Calma Bino. Amanhã você sai de Passo Fundo oficialmente para Arroio Grande. Você andará até a rodoviária e eu estou lhe esperando em frente da igreja católica. Quase do lado da Rodoviária. Aí, eu ou a Gundela lhe pegamos lá e lhe trazemos de volta - e você ficará uns dias conosco, aqui no apartamento. Nada de campus.

Para que você não morra de tédio vamos levar você a alguns lugares seguros - mas para a Escola, você já foi embora.

– E a fronteira, quando cruzaremos?
– Cruzaremos no momento certo. Nós lhe levaremos até Uruguaiana, quando a coisa estiver mais fria. Você cruza a Ponte como se fosse um brasileiro da região. Gundela atravessa a ponte com a sua mochila no nosso carro. Aí ela lhe pega e você estará de volta ao velho plano. Paulo pensou em suas palavras e disse: – A propósito qual era o velho plano?


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Chegaram antes das doze com um amigo, comeram e depois o amigo da escola tirou
a foto de Bino para a carteira de identidade e o dia se passou sem nenhuma outra novidade.  Às oito da noite Paulo levou Bino para conhecer um CTG, um Centro de Tradição Gaúcha.

O CTG era colorado e se chamava Lalau Miranda, estava em dia de festa e muito animado. Bino pensava que conhecia algo sobre os gaúchos, mas lá ele viu quão ignorante ele era sobre a cultura daquele povo.

Havia todo o tipo de gente em trajes típicos andando ao redor de inúmeras mesas postas num amplo pátio, havia vinho em abundância e um cheiro de carne  assada na brasa permeava o local e dava fome a Bino.

As mulheres trajavam-se também a gaúcha. Algumas estavam com botas, vestidos rodados e compridos até os tornozelos, umas com tranças, outras de cabelos naturais e soltos; eram mulheres, em sua maioria, altas, bonitas e eram chamadas de “prendas”.

Algumas delas estavam de ponchos elaborados e finos, outras de lenço colorado e algumas a Anita Garibaldi, como adorno típico levavam  facas - não muito escondidas - nas botas ou na cintura, usavam diversos tipos de lenços vermelhos no pescoço, tinham vestidos compridos com elaborados cinturões de couro.

Os homens usavam  bombachas brancas, botas e cinturões adornados de prata, e freqüentemente tinha um revólver a cintura. Seus ponchos eram mais grossos de lã de ovelha, chamados de pala e também estavam de lenços colorados ao redor do pescoço e alguns presos por anéis de prata. Outros usavam um pequeno chapéu de feltro, geralmente negro, bem diferente dos que Bino já tinha visto.

As facas dos gaúchos tinham bainha de prata trabalhada e com motivos campestres e eles as usavam para cortar as carnes, que queimavam abundantemente em duas churrasqueiras enormes. Alguns carregavam até revólveres e depois o Paulo disse que para os CTGs, não havia problema em levar os revólveres, uma vez que eles estivessem descarregados.

A música era vaneirão e fandango, e algumas vezes um grupo de homens dançavam a chula, sapateando furiosamente num tablado. Mas também no Rio Grande do Sul da época se ouvia muito as músicas do Teixeirinha, que a propósito, disseram ao Bino que ele era também da região de Passo Fundo.

O churrasco era bem diferente do resto do Brasil: A carne era assada em porções enormes num fogo aberto na churrasqueira que parecia mais um braseiro em nível do chão; e aí, espetadas em estacas cravadas em ângulo no chão, havia cortes de carne de todos os tipos.

A faca dos Gaúchos do Lalau Miranda não era de adorno, pois nas mesas do CTG não havia facas; cada gaúcho usava a sua e com elas eles sempre tiravam um pedaço de carne do fogo para provarem e ninguém se importava porque havia carne de sobra.

Na cantina se vendia cerveja de barril e vinho em garrafões de cinco litros, quase todos estavam bebendo bem, mas o ambiente sempre familiar, tudo era tradição, era alegria, e fartura e aqueles CTGs, pensou Bino, poderiam ser os templos da Religião “Tchêísta”.

Ali no CTG, o falar Gaúcho era ainda mais compassado e cheio de ibérico. Várias pessoas passaram pela mesa do Paulo e Gundela, que também estava vestida de prenda. Na boa tradição do gaúcho interiorano, sempre antes de se apresentarem, começavam o “dedo de prosa” com um “Bueno” e freqüentemente agradeciam com um “gracias” e não faltava um “porongo” ou uma cuia de mate, tamanho família, para lavarem o bem fígado e eliminarem todo o mau colesterol antes de irem para as suas casas.

A Gundela tinha dado um lenço colorado ao Bino e aquele lenço no pescoço abria ainda mais a ele as portas da cordialidade. Alguns convidados passavam pela mesa deles, gastavam um dedo de prosa amiga com Paulo e Gundela, eram apresentados ao Bino, e outros até se sentavam a mesa e contavam um ou dois causos ao forasteiro.

Na mesa ao lado deles sentava-se o Paulo Roberto Pires e a sua linda esposa de cabelos negros, sedosos e compridos e de um sorriso enigmático. Ele era o Diretor do jornal O Repórter, de Passo fundo.

Conversaram bastante com os Lewaschins e o Bino; Paulo Roberto tratou Bino como um igual, como ele também fosse um jornalista, e mais uma vez ficou-se comprovado que o Tchêismo não era somente propriedade exclusiva dos Gaúchos mais simples, mas era generalizado até aos mais cultos e sofisticados.

* * *  * * * * * * * * * * *

Ele ouviu estórias e historias de entreveros entre Colorados e Blancos.  No passado os Chimangos Republicanos, eram inimigos mortais. Os Chimangos usavam de lenços brancos, e os revolucionários Maragatos, eram os de lenços vermelhos.

Mas passadas as peleas antigas, agora, irmanados na cultura gaúcha, eles orgulhosamente ainda mostram as suas cores, em seus lenços nas suas festas e churrascos, - mas cada qual em seu CTG.

Para Bino a coisa agora não passava de uma rixa como a de Gremistas e Colorados sem maiores conseqüências - e com mortes muito esporádicas... Agora quase todas as manchas de sangue foram lavadas pelo tempo, e em Passo Fundo os Colorados seguem a tradição do Bento Gonçalves no Lalau Miranda e os Blancos as suas, em seu CTG, o Getúlio Vargas.

Agora todos eram somente gaúchos, uma gente altaneira de um bravo estado. Não sendo Bino do Rio Grande do Sul, pensava que ainda não sendo gaúcho, mesmo assim morreria cantando o Hino de Ataque dos Colorados. Bino iria morrer Colorado - e isto estava decidido e inegociável.

As cinturas das calças do Bino já estavam mais apertadas. É difícil se comer, ou beber, ou se divertir pouco no Rio Grande do Sul. A cerveja no Lalau Miranda rolava solta. Gaúcho não admite o copo, prato e a cuia de mate de um convidado ficar vazio. E quando se servia a carne era em grandes porções e num ritmo rápido e furioso, pensou Bino.

A cerveja começou pegar um pouco e Bino via as lindas prendas e os amigos gaúchos, crianças e velhos naquela linda coreografia de alegria; ouvia os risos, os sons, as músicas e os falares; cheirava os perfumes, o churrasco e a comida: Tudo naquela noite era bonito e o CTG Lalau Miranda era o céu na terra.

Calado ele olhou para o céu aberto com centenas de milhares de luzes cintilando sobre os pampas, e visivelmente ele delineou o Cruzeiro do Sul e sentiu um aperto no peito e disse para si próprio:

– Que pena. Ficaria feliz se a minha jornada pudesse  terminar aqui...

  * * * * * * * * * * * * * * * *

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

EM FUGA, ATRAVESSANDO O BRASIL

Bino ouvia e enfiava os sacos de papel com os lanches na mochila e
tentava acomodar de qualquer jeito a pequena garrafa térmica na mochila.
Ele estava lívido de medo.
– Você tem que chegar a Uruguaiana, no Rio Grande do Sul. Este e o
seu destino final. Se puder evite as capitais: principalmente Porto Alegre.
Lá a barra pesa. Os milicos são fortes por lá.
– Entendi.
– Memorize este número: 48-5000. Pense rápido: o numero começa
com o numeral quatro, o segundo e o dobro do primeiro e o terceiro
numero e cinco mil. Memorize isto.
– Mas...
– Memorize homem; estamos chegando. Termine de enfiar esta térmica
nesta merda de mochila, logo!
– quatro – oito - cinco mil, repetiu ele.
– Nunca escreva este número. Guarde só na cabeça.
– Chamando o cara de Uruguaiana de cara ele vai lhe perguntar se você
viu o Fidelis. Aí você perguntara a ele: Qual Fidelis?
– Ele lhe respondera: – O amigo do Lelé do Rio. Lelé Boca Mole, só isto.
– Amigo do Lelé Boca Mole repetiu Bino.
– Se ele não falar no fulano este, saia fora, deu zebra.
– Os contra-revolucionários já devem ter também a sua ficha. Não
se espante se receber ajuda de fontes inesperadas. Ainda por cima,
por trás de você parece haver um “costa quente”. E parece ser ele
um “cachorro grande”.
– Começando agora e ate o final do mês, ponha sempre um pontinho
preto no pulso direito, acima do seu relógio; um pontinho discreto. Isto
poderá abrir algumas portas.
– Mas tem muitas coisas a guardar na cabeça e estou nervoso, gaguejou
o Bino suando fedido de medo.
– Olhe seu merda, você vai se sair bem. Você tem que salvar seu pelo,
pois você tem muito a testemunhar!
– Já estamos quase lá: Gritou Antônio pisando a fundo no acelerador.
E continuou num só fôlego:
– Primeiro a Kombi. A o cara trocando pneu é louro. Placas de São Paulo.
– Cara louro placas de São Paulo, gaguejou Bino.
– Se não aparecer, se vire! Pegue carona e suma daqui e depois vá
para o litoral, por lá tem mais caras de mochila, estes turistas baratos
e andarilhos argentinos. 
– Sim. Pelo litoral...
– Telefone de emergência; 248-...
– Cinco mil, completou Bino.

    * * * * * * * * * * * * * *

Saiu sorrateiramente do silo sujo e o ar na noite quase lhe fez mal.
Ele pegou capim seco que havia ao redor e tentou cobriu a evidencia
de sua estadia naquele buraco da melhor maneira possível e em
seguida agarrou a sua mochila e foi pelo mato beirando a estrada
em direção ao Scania.
Encontrou um local onde as cordas de amarração da lona não
estavam tão apertadas e afrouxou-as ainda mais e conseguiu
entrar na carga.
Sabendo que o motorista poderia notar o ponto de entrada na
carroceria ele se encolheu entre dois fardos bem na dianteira
da carga, se enrolou num plástico que devia ser sobra para embrulhar
algum fardo, e mais ou menos se enterrou em algodão.
Ao redor das duas da manhã o caminhão saiu e o motorista nem
notou que parte da lona estava frouxa. Aparentemente para Bino o
caminhão ia em direção oposta ao porto, mas depois de um tempo
na estrada sinuosa ele perdeu totalmente o seu senso de direção.
O caminhão seguia devagar e Bino adormeceu. Mais ou menos uma
hora depois o caminhão parou, parecia ter parado num posto da
policia rodoviária, ele ouviu a conversa do caminhoneiro e policiais,
mas era assunto de documentação e peso de carga, e o caminhão
seguiu em frente.
Bino escutou que a lona frouxa do lado do caminhão, por onde ele
tinha entrado, começava a bater no vento.
Às três da manhã o caminhão parou num posto. O motorista reclamou
com um dos atendentes que a lona havia se afrouxado e batia tanto
que ele nem podia se concentrar na estrada; após o abastecimento o
motorista e o atendente apertaram as cordas e prenderam bem a lona;
em seguida o caminhão deixou a bomba de gasolina e ganhou a estrada.
Tudo estava escuro e ele pensou ouvir o nome São Jose dos Pinhais.

       * * * * * * * * * * * * * *

Joinville era uma cidade pequena e linda, praticamente espremida
entre a majestosa Serra do Mar e a linda Baia de Babitonga. Lá, sem
maiores problemas, Bino conseguiu pouso num alojamento Católico.
Quase tudo parecia ser bem organizado em Joinville: O alojamento,
os padres, o povo e a cidade. Ele se sentiu como se estivesse numa
vila européia de um dos filmes que tinha visto.
Não parecia Brasil. Certamente não a sua João Neiva. A cidade pulsava,
os locais andavam rápidos e com propósito em seus movimentos,
suas respostas eram breves, educadas e no ponto, não havia sujeira
nas ruas e mais: o jornal local era escrito meio a meio: em português -
e alemão gótico.
Uma coisa que Bino nunca se esqueceu de Joinville é que lá foi o
primeiro local do Brasil que ele viu louras tingindo o cabelo de preto.
Joinville tinha muita influência nórdica: Na cidade ele comeu muita
comida alemã e até comeu sauerkraut, como eles chamavam o chucrute.
Nas padarias havia pães que ele nunca tinha visto - como os pães de
centeio, as cucas e muitas variedades de confeitaria, Bino comeu muita
batata, quase não viu o feijão e nunca viu tantas variedades de salsichas,
as quais os locais chamavam de wurst.
Cerveja nem se fala: tomavam em grandes copos de vidro grosso que
eles chamavam em alemão de Stein e tinha uma cachaça alemã chamada
de Steinhaegger que deixou Bino com dor de cabeça.
A cidade era pitoresca, a bem perto da Baia de Babitonga, local
deslumbrante, na época com muitas praias e enseadas prístinas.
A cidade tinha um distrito industrial muito grande, e Bino pensou que
voltando ao Brasil, lá seria um bom lugar para encontrar trabalho e se viver.


domingo, 21 de agosto de 2011

COMEÇA A PERSEGUIÇÃO POLITICA

O pequeno mundo criado por Bino no interior de São Saulo era pequeno,
mas bem organizado e ele jamais imaginaria que a sua aparente
segurança na sua querida Papabesourolandia em breve iria
desintegrar-se.
Um de seus colegas de quarto, Newton, tinha um quadro com uma
foto de Che Guevara, retirada da capa de uma velha revista. Esse
quadro estava afixado numa das paredes do apartamento deles.
O jovem estudante não tinha inclinações políticas e, além da
engenharia, seu único foco de interesse eram as moças.
Newton era um rapaz atraente, alto, de cabelos ondulados bem
escuros, e tinha um grande número de moças à sua disposição.
Ele era um rapaz do tipo despreocupado, confiante em si mesmo,
e sua pretensa atitude de protesto era muito bem representada
pelo pôster de Che Guevara ali no seu quarto – o que lhe propiciava
até mesmo uma popularidade maior com as garotas.
Todo o mundo gostava muito de Newton. Ele não ligava para
dinheiro. Alguns dias depois de receber a mesada de seus
pais ele já estava curto de dinheiro, mas era feliz tanto quanto
podia. Ele jogava futebol no time da Unicamp, e era um dos
atacantes da equipe. Ele sempre marcava gols, até mesmo
quando jogava com ressaca de bebidas.

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Numa quarta-feira, Bino e Newton estavam em seu apartamento
em Atibaia sem mais ninguém, pois o outro colega de quarto,
que tinha uma personalidade um tanto evasiva e tímida, havia
se retirado por alguns dias.
Às três horas da madrugada, cinco agentes do DOPS, esse abjeto
Departamento de Ordem Política e Social, arrombaram a porta de
entrada do apartamento, armados com armas de mão e
submetralhadoras.
Bino e Newton foram levados para a sala. Um dos oficiais
retornou ao quarto de Newton, arrancou o quadro de Che Guevara
da parede e o levou para a sala. Os oficiais pisotearam no quadro,
esmagaram com seus pés a figura e depois puseram a cara do
Newton nos estilhaços de vidro, pedaços de moldura quebrada
e papel espedaçado e gritavam para e que Newton comesse os
fragmentos do Guevara com vidro e tudo.
Ele se levantou, e então o atingiram na cabeça com a coronha
de uma submetralhadora. Foi um golpe tão forte que Bino ouviu
o som de um osso quebrar-se. Caído no chão, de cara nos estilhaços
de vidro, Newton foi maldosamente chutado e batido.

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

Seu apartamento havia sido totalmente revistado – em busca
de armas e de literatura subversiva. Esta gente certamente tinha
levantado a ficha do Bino e deviam saber que ele não era um
“subversivo”, mas temendo a sua morte deviam estar procurando
algo para também o incriminar.
Embora nada pudesse ter sido encontrado ali, isso não significava
nada, pois era muito comum o DOPS forjar falsas evidências e
Bino era o perfeito candidato.
Tommy, pelo fato de ser estrangeiro, não estava numa posição
muito confortável com o governo militar, contratou o mesmo advogado
para si próprio e para avaliar a condição em que Bino se encontrava.
Por enquanto, pelo que se soubesse nada havia sido “plantado”
em seu apartamento.
Newton, porém, havia desaparecido, e não se sabia do seu
paradeiro. E versão oficial era de que ele havia fugido. Mas,
prevalecia o pensamento de que ele estava morto, tendo o
DOPS eliminado qualquer evidência do ocorrido, inclusive
dando sumiço ao corpo do rapaz.
Como Bino era uma testemunha ocular do crime, ele corria
grande perigo.
O advogado disse que o pessoal do DOPS já começava a
referi-se a ele como com cúmplice do Newton - e ele tinha se
tornado um arquivo a ser queimado.
Então o Bino sumiu também.

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Uma circular foi emitida no estado de São Paulo para a prisão de
Bino. Através de companheiros maçons, Tommy deu um jeito junto
a Policia Federal e um passaporte de Bino rapidamente lhe foi
enviado, através do estado do Espírito Santo. O passaporte foi
emitido antes que uma cópia da circular chegasse naquele estado
e não deixaram vestígios sobre a emissão do tal passaporte. 
O pastor Haroldo informou a Tommy que os Consulados Americanos
e a Embaixada em Brasília estavam cheios de agentes secretos da
CIA. Ele disse a Tommy, em resumo, que um agente americano da CIA,
de nome Dan Mitrione, tinha vindo para dar um treinamento ao DOPS.
Mitrione era perito em extrair confissão até de gente morta; era um
psicopata e torturador profissional, calejado da guerra fria e agora
transferia parte de sua propriedade intelectual para o Brasil.
Tommy não podia confiar no Consulado dos Estados Unidos, pois
estava também comprometido. Ele podia somente falar com o seu
amigo, o Adido Comercial, que era bem próximo do vice-cônsul.
À surdina, os dois cuidaram dos Termos de Responsabilidade
assumidos pelo Rev. Tommy para que Bino entrasse e permanecesse
nos Estados Unidos.

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *


O Consulado, através do adido, expediu então a Bino um visto
americano para estudante e no seu passaporte carimbaram uma
Visa F-4, válida por cinco anos.
Uma vez resolvidas todas essas questões, surgiu inesperadamente
outro problema. Uma passagem de avião num vôo internacional, que
levasse Bino para fora do Brasil, precisaria ser desembaraçada
antecipadamente pela Policia Federal. Além disso, era necessário
um Atestado de Idoneidade Política antes que o DOPS carimbasse
a passagem com a expressão “válida para viagem” estabelecendo
o dia e a hora da partida.

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *


Os que morriam nada podiam falar, e os loucos não tinham credibilidade
alguma, ao mencionarem os tormentos por que haviam passado.
O caso de Mitrione e a CIA ter sido exposto pelos jornais, bem como a
notícia de frei Tito ter sido preso e torturado, e ainda o caso de um
estudante de engenharia desaparecer sem possuir antecedentes
políticos ou criminais, tudo isso fez com que os militares passassem
a pressionar o DOPS a pôr ordem em toda aquela embrulhada.
A Gestapo Tropical pretendia “queimar o arquivo” que Bino era.
Pois ele sabia demais e precisava “desaparecer” antes de tornar-se
um caso de grande repercussão.
Haroldo conseguiu fazer com que Bino fosse levado a amigos de
amigos que providenciaram uma caminhonete para levá-lo até para
fora do Brasil de carro. A fronteira escolhida foi em Uruguaiana,
uma tríplice fronteira entre Brasil Uruguai e Argentina.
Decidiram sair para a Argentina. Percorreriam quase dois mil
quilômetros e lá chegando, o plano seria que Bino entrasse naquele
país passando pela Ponte da Amizade sobre o Rio Uruguai que ligava
a cidade de Uruguaiana a de Passo de Los Libres. Pela ponte havia
sempre um grande trânsito de pedestres, onde tanto argentinos como
brasileiros passavam sem a apresentação de documentos.
            A caminhonete o deixaria em Uruguaiana; Bino atravessaria
a ponte com a sua mochila e seus documentos do Brasil.

http://blog.zequinhabarreto.org.br/2008/09/04/memorias-de-um-ex-guerrilheiro

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Um simbolo de resistencia na ditadura militar

...Em menos de meia década aquela pequena comunidade em
Ibiraçu cresceria e se tornaria um grande complexo Zen Budista, com
muitas edificações e parques de meditação; tornar-se-ia uma respeitada
força religiosa naquela região, e estava organizada para prestar um trabalho
de natureza social e para a redenção da dignidade humana.
O zelo daquele pequeno número de adeptos faria com que se
reproduzissem, por todo o Brasil, muitos outros templos e retiros da linha
Zen Budista. Naqueles dias, porém, Hare Krishna era ainda um movimento
embrionário, que apelava aos jovens e aos que estavam em busca de
algo novo.
Os Krishnas, bem como os Hippies, se tornaram quase um símbolo
da resistência pacífica contra a ditadura militar e nos Estados Unidos
um protesto à Guerra do Vietnam - e em ambos os países uma forma de
protesto contra as religiões institucionalizadas e “donas da verdade”.
Naqueles dias de tribulação, o movimento Hare Krishna, silenciosamente
e com grande coragem, abraçou e protegeu muitos jovens que
eram fugitivos da perseguição política.
Muitos daqueles refugiados políticos trouxeram suas próprias
ideias religiosas e filosóficas ao Retiro. Algumas foram misturadas dentro
do caldeirão fervente dos exóticos rituais do Hare Krishna, e posteriormente
essa mistura se consolidou, numa forma Zen Budista de crenças.
Lentamente essa nova seita foi encontrando espaço entre os adeptos do
judaísmo, do cristianismo, do espiritismo, do xintoísmo, do islamismo e
das seitas afro-brasileiras.
Toda essa variada mistura teológica passou a coexistir
harmonicamente no acampamento: os religiosos cultuavam o Senhor
Krishina, mas com a liberdade alguns deles acrescentavam ao hinduísmo
alguns matizes de outras religiões ou mesmo de seitas exóticas.

* * * * * *

A difamação dos Hare Krishnas realizada por alguns sacerdotes
italianos de João Neiva fez com que Bino ficasse irado e decepcionado
com eles. Os Hare Krishnas eram pessoas boas. Tinham apenas um modo
diferente de cultuar seus muitos deuses, e a Bino, à primeira vista, parecia
que o Krishna era um deus peso-pesado, entre outros da mesma categoria,
e mais outros pesos-médios e leves. Sim, os Krishnas eram meio esquisitos,
sem dúvida, porém, não eram bárbaros, nem gastavam tempo depreciando
outras religiões.
Bino se viu enganado: ele havia confiado nas palavras dos padres
e chegara a se convencer que eles eram do mal e disfarçava o medo e a
ignorância deles com ódio. Nas férias passadas, com os gêmeos Fantini,
e outros rapazes de Ibiraçu e João Neiva, chegaram até cogitar a queima
do Retiro deles, por acreditarem serem soldados cristãos e se sentiam
importantes com este titulo. Por que razão os sacerdotes mentiram? Seriam
os padres ignorantes ou pior, eram maliciosos? Por que teriam mentido
para os paroquianos?
Talvez suas mentiras tenham sido trazidas pelo medo de perder
ainda mais os seus paroquianos, como já tinha ocorrido para os maçons
e para as congregações evangélicas que mais e mais se proliferavam.
Bino notou que os sacerdotes colocavam apelidos em todos os
que não jogavam em seus times: eles chamavam os maçons de “bodes” e
os batistas de “bíblias” e, quanto aos últimos, ponderou Bino, foram assim
apelidados, por andarem o tempo todo esquentando suas bíblias debaixo
de seus sovacos.
A experiência que Bino estava tendo com os Hare Krishna lhe fez
pensar muito – como nunca antes – sobre a intolerância entre as pessoas
e sobre o malévolo dogmatismo de muitas religiões.
Ele pôde ver que era vantajoso para os sacerdotes manterem os
habitantes da Vila tão ignorantes quanto possível. Nada de estudos bíblicos
como os bíblias, nada de leituras como os bodes, nada de um permanente
pensar, de ler, estudar e meditar como os Hare Krishna – e assim a
palavra obscura dos padres tornou-se lei.
Bino sentiu-se manipulado e ressentido; ele se lembrou que, quando
criança, ele e outros meninos foram incitados a urinar na Igreja Batista.
“Poxa, isto foi uma grande sacanagem”, pensou ele.
Sim à noite, antes dos cultos dos bíblias, Bino e a garotada urinavam
na frente e lado da igreja Batista e faziam com que o lugar ficasse
fedendo como mictório de estação de trem. Ignorados pelos bíblias, que
resignados punham-se a lavar as mijadas, eles começaram então a apdrejar
as janelas da Loja Maçônica.
  

sábado, 13 de agosto de 2011

A 'boca do capeta' - lembranças do jovem Bino

A primeira pedrada ao vitral, como profetizado e colocado em
palavras pelo Vito, foi um “caminhão de bosta que bateu na hélice de um
avião Hércules”:
O prefeito Andrade no mesmo dia foi ao Palácio do Governador
na Capital e o cumprimentou com o “verdadeiro” aperto de mãos de Mestre
Maçom.
Aliás, alguns parasitas que orbitavam em volta do governador
ficaram perplexos e enciumados pelo modo “afetuoso” com que o prefeito
de João Neiva cumprimentava o governador. Para eles esta “agarração
de mão” era “um modismo matuto de um prefeitinho pé-de-chinelo e
bajulador”. Um dos assessores do governador chegou até a brincar:
– Está bem, Senhor Prefeito, agora o Senhor pode largar a mão do
Governador –, mas os dois o ignoraram.
O Governador e alguns sábios políticos, incluindo-se gente de
seu gabinete, deram atenção ao relatório verbal do prefeito sobre as tribulações
que a Loja Azul vinha enfrentando em João Neiva.
Bino não sabia a estória toda, mas certamente o prefeito devia
ter “soltado os cachorros nos padres,” que andavam “comendo o cérebro”
do povo da cidade: Alguns até já deviam acreditar que o templo dos
bíblias era mictório infantil, que os bodes adoravam o Diabo na figura do
Bode Negro, e que vitral de Loja Maçônica era alvo de pedradas.
O Vito, em sua linguagem arcana, bem tinha avisado ao Bino:
– Não entre nesta, Bino. É “boca de capeta”. Esta gente anda cutucando
onça de vara curta e ainda pior – "eles não sabem por onde o peixe
mija!” E por muitos anos Bino não entendeu esta alusão ao urinar de
peixes.
Mas, de qualquer forma, o governador convocou a cúria e teve
uma reunião com uns poucos “entendidos do assunto” e entre eles, estava
o Juiz Hudson de Aguiar, o Prefeito Andrade, o Pastor Wilson do Amaral
Tanini, vindo de Niterói e o bispo Fuchs da Capital.
O que foi dito e concordado entre eles ninguém sabe, mas os
sacerdotes italianos foram transferidos para outro Estado e os substitutos
deles deixaram os maçons em paz daquele dia em diante.
Eles também se retrataram da estória por eles criada de “bodes
pretos” e, a partir de então, passaram a referir-se aos frequentadores da
loja como “nossos amigos maçons”.

* * * * * *
Com respeito ao problema que os “Bíblias” estavam enfrentando
em sua igreja, para eles a solução veio de um modo mais simples.
Um dia um corpulento texano foi até a Vila numa caminhonete
Ford F-100 novinha em folha, calçando botas do faroeste, usando chapéu
enorme e, como se diz no Texas, de cinco galões, que segundo Vito
“cabia água dentro dele para dar de beber a meia dúzia de vacas.” Vito, não
se sabe como, descobriu depois que seu nome era Larrison H. Pike.
A visita do Gringo curiosamente se deu num dia de reunião na
Loja Maçônica. Desta história poucos conhecem seus detalhes, pois a
maior parte dela aconteceu dentro da tal Loja Azul. Muitos viram aquele
corpulento americano de rosto avermelhado, estava com um lenço na
mão e suava bastante.
O carteiro de João Neiva disse que ouviu da irmã de um Bode,
que o Gringo era familiar a todo o procedimento secreto deles. Ela notou
que depois de apertar mão do pessoal em frente da loja e falar um
pouquinho com o tal Mestre de lá, o Gringo voltou à caminhonete, pegou
um tipo de batina preta e uma vestimenta que parecia um babador
ou avental trabalhado em azul - e conversando e rindo familiarmente
entrou na loja com os bodes.
Na reunião foi-lhe dada uma oportunidade de dirigir-se a seus
irmãos e ele deu início à sua palavra com um sinal que era conhecido
somente por eles, o Grande Sinal de Socorro.
É pensamento geral que ele falou com seus irmãos sobre a perseguição
aos batistas, e eles certamente o ouviram com atenção. Ao deixarem
a loja, todos se abraçaram e quase nada de importante falavam.
Vito Cuzzuolli, sempre velhaco, escutando às escondidas, conseguiu
captar alguns pontos das conversas deles e começou a espalhar
rumores. Uma coisa que ele contou para todo o mundo foi que o pai do
texano era falecido, pois ouviu o americano dizer meio choroso que sua
mãe era viúva.
“Certamente”, dizia Vito “com dó do gringo órfão, os bodes lhe
disseram que fosse em paz e que eles se encarregariam de acabar com a
mijação de igreja.”

* * * * * *
A solução veio assim: em João Neiva havia um luterano gigante,
meio brasileiro, meio alemão, de nome Otto Kahle, que era quieto, de
pouca conversa, muito controlado, mas de gênio explosivo.
Este Otto foi sumariamente declarado o Delegado Interino da
vila. A pessoa que ele escolheu para ser seu braço direito, também era um
filho de Bode.
O delegado Kahle era um colono aparentemente calmo e de muito
boas maneiras, mas era sempre muito objetivo, ou no linguajar do povo,
“curto e grosso”.
Em seu primeiro dia como Delegado, ele foi visitar os párocos
locais e convocou uma reunião na Casa Paroquial. O que lá aconteceu,
todas as velhas senhoras da Vila, com ligeiras alterações, até hoje contam
com certo excitamento e com risinhos nervosos.
O delegado foi à Casa Paroquial e expôs casualmente aos padres
e seus párocos que na reunião estavam, como um fato consumado, que
“a partir daquela hora, ninguém vai causar qualquer dano na propriedade
da Igreja dos Bíblias” e, com polidez, sorrindo afavelmente, continuou a
discipliná-los:
– Senhores, eu detestaria ser forçado a castrar alguns dos meninos,
pois esses são bem jovens e deles se espera que cresçam se tornem
homens de respeito: – Que se casem e tenham uma família -, disse ele
acentuando algumas palavras.