quinta-feira, 3 de novembro de 2011

PELA CARRETERA PANAMERICANA

            Após caminhar e pedir carona por quase hora e meia na estrada,    pegou uma Chivita, como são conhecidos estes “ônibus artesanais” e psicodelicamente ornamentados nos quais ele já tinha andado no Equador e foi rumo norte, na Pan Americana, rumo a Talara.
            A alguns quilômetros desta cidade a Chivita parou com um problema no motor e Bino decidiu pedir carona até a cidade. Parou uma caminhonete Dodge, modelo bem anterior ao começo da segunda grande guerra, de um mercador de peixe. 
            A boléia estava cheia, mas o motorista apertou a todos e Bino se espremeu entre quatro pessoas. Todos fediam a peixe e estavam alegres. Eram pescadores em dia de sorte. Ofereceram-lhe uma garrafa de pisco em que todos bebiam. Bino deu uma golada sem fazer cara feia, eles gostaram do Brasilenho e se desculparam do aperto. A carroceria estava cheia de peixe e gelo, coberta por uma lona e pingava uma água avermelhada que também fedia a peixe. Mas Bino agradeceu a Deus pela carona - e aos trancos e barrancos chegou meio “alegre” a Talara, uma pequena vila pesqueira e, como os pescadores, fedendo a peixe.
            Ao chegar ao mercado, os locais começaram a gozar do Bino, uns dizendo que ele estava usando “El Perfume de Gardênia” e outros rindo e falando claro e em rima, diziam que ele estava “apestado de pescado.”
            Mas, novamente, aconteceu um incidente que foi uma constante em sua viagem pela América latina: um guri viu a bandeirinha do Brasil cozida na parte de trás de sua mochila e ao se darem contas que o Bino era um verdadeiro descendente dos Conquistadores da Copa, a sua sorte mudou, talvez crendo que um conquistador não devesse feder a peixe.
            Levaram-no até um banho público perto do mercado de peixe onde, por alguns centavos, se tomava um belo banho frio e com direito a um pedaço de sabão. Esses banhos públicos eram uns cubículos de madeira carcomida, comum a Ibero - América, com um cano jorrando água continuamente - e os mochileiros e alguns hippies mais asseados, freqüentemente os usavam.
            Bino lavou a sua roupa com sabão e um guri admirador da Raza de los Campeones o levou de calção e sandália de dedo até uma lavandeira perto dali, onde uma senhora lavou,secou e passou a ferro de carvão todas as suas roupas, também por quase nada.
            Depois Bino foi a um bolicho perto da praia e comeu uma bela sopa de cabeça de peixe e lá ele ouviu, em detalhes, pela primeira vez, a campanha da Seleção Brasileira com dois pescadores que se sentaram a sua mesa.
            Estes pescadores conseguiram-lhe um lugar numa caminhonete International muito velha com sua carroceria coberta de lona e com pranchas a guisa de bancos para os passageiros - sendo a maioria deles nativos e mochileiros; era uma versão compacta do “pau-de-arara” brasileiro que transportava nordestinos pobres para Rio e São Paulo e Brasília, no passado. Nesse pau-de-arara, Bino chegou a Tumbes.
            Como já era quase noite e Bino estava exausto, ele se encaminhou ate uma pequena praia de areia muito branca que estava literalmente entre manguezais.
            Apesar de Tumbes ser uma cidade verde e não desértica, à noite pareceu que a temperatura esfriou um pouco, talvez até porque Bino estava com fome.  O vento soprava na praia em rajadas fortes, de direção não determinada, como se o ar mais aquecido do oceano começasse a brigar as camadas frigidas vindas das cordilheiras distantes. Bino retirou o seu saco de dormir, preso por correias de couro no topo da mochila, tirou também uma folha de plástico de metro e meio por dois, desdobrou-a e a colocou sobre a areia, firmada por quatro pedras. Em seguida, entrou no saco de dormir colocado sobre o plástico, se ajeitou nele, como sempre, passou braço direito da alça da mochila para não ser furtado, usou-a como travesseiro, e ficou a contemplar a lua e o céu, ouvindo as ondas a se espocarem na praia e dormiu, Dormiu pesado e só acordou quando o sol já brilhava forte.

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            Durante este período as estradas estavam fervilhando de gente pedindo carona e as aduanas entre os países latino americanos estavam tão movimentadas que os agentes aduaneiros estavam aceitando qualquer tipo de identidade dos sul-americanos, na ausência de seus passaportes, para desafogar as fronteiras. Entre estes mochileiros Bino conheceu o mexicano Victor Dominguez, o qual veio a se tornar um amigo fiel do Bino.
            Apesar de o Peru estar sob um governo Militar semelhante ao do Brasil, esta confusão nas fronteiras, certamente ira ajudar Bino a sair do Peru, assim ele pensava.
            Antes do reboliço da vitória da Seleção Brasileira de Futebol Bino ouviu muitos casos de pessoas que na apresentação do passaporte, foram presas e recambiadas ao Brasil ou Argentina; isto não era paranóia: era fato.  A verdade era que nos tempos da ditadura uma coisa andava muito bem organizada entre os países ditatoriais: a repressão.
            Enquanto Bino andava em direção ao centro da cidade ele se encontrou com dois mochileiros canadenses, e como sempre eles sempre fazem, pararam, “trocaram figurinhas”, endereços de pousos e albergues, falaram sobre os locais e cidades mais amigáveis, sobre tratamento em aduanas, enfim aquela mesma  estória de planejar com antecedência a logística de sobrevivência para a próxima parada.
            Os canadenses também falaram que chegaram de Guayaquil em uma barca, saíram de Guayaquil à tarde, navegaram toda a noite e chegaram a Tumbes de manha. Reiteraram que a burocracia portuária era pequena, que de terceira classe a viagem  custava centavos e no porão dava ate para dormir.
            Ao se despedirem, Bino já tinha um plano de ação: Sairia do Peru por Tumbes numa “Barca Quíchua”, como descrita pelos canadenses, uma “banheira velha e remendada que transportava os mais pobres dos pobres” até o porto de Guayaquil, no Equador - onde os oficiais aduaneiros não exigiam muita papelada de  entrada ao país.
                                                  
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            Em Tumbes Bino comprou uma passagem na terceira classe no porão de uma Barca Quíchua, como ele havia planejado que saia de tarde e pela manhã chegava a Guayaquil.
            Bino já sabia que em Guayaquil  circulava o dólar americano, bem como a moeda nacional, o Balboa e ali ele aproveitaria para cambiar todos os Cruzeiros  Pesos Argentinos, Condores Chilenos e Soles de Oros Peruanos  por dólares para facilitar sua viagem.
            A três da tarde, ele entrou na velha barca e desceu duas secções abaixo do convés se alojou na terceira classe, que era o porão.  Lá ele conheceu um casal argentino, uma ruiva Mignone chamada Myrta cujo rosto lhe lembrava a Janis Joplin e o seu namorado, cabeludo, pouco mais alto do que ela, um tipo pálido, magro e com uma barriguinha de cerveja e ainda por cima apelidado de Mono.
            Eles pretendiam visitar as pirâmides Maia em Guatemala e a caminho conhecer Belize, um protetorado inglês que praticamente cortava o acesso da Guatemala ao mar do Caribe, e segundo o casal era um local mui hermoso e tinha lindas praias mornas e banhadas pelo Caribe.
            Enquanto eles falavam da beleza do pequeno protetorado inglês, Bino olhando espantado o número de nativo que empacotava o porão, com suas trouxas de roupa, suas caixas, galhinhas frutas, e todo o tipo de tranqueiras. A mente de Bino estava ocupada em achar um banheiro e uma saída de emergência, mas aparentemente não havia nenhum nem outro. O porão era quente, úmido e fedia,
            Bino conversou pouco com a Myrta e Mono, se limitando a dizer que ia visitar uns amigos em Guadalajara, encostou-se ao casco enferrujado da barca e achou melhor nem abrir a mochila ali para retirar o seu plástico para sentar no piso sujo.
            Aceitou um cigarro da Myrta e fumou mais para matar o cheio do local.
            Após três apitos longos Bino ouviu o barulho do motor, sentiu a trepidação do casco e minutos após ele já sentia o balanço do mar.
            A viagem seguia tranqüila, mas havia algumas coisas preocupava o Bino alem do banheiro e saída de emergência: Uma delas era que não havia nenhum colete salva vidas a vista. Outra, não havia extintores de incêndio. Também ele notou que a saída   para o convés superior, ou segunda classe, estava fechada com uma grade de ferro e trancada com corrente e cadeado.
            Na terceira classe também havia muitos indígenas mascando folhas de coca, outros bebendo chincha ou pisco e outros até alguns fumando, “mota” ou maconha. Mas esta gente descendente de Incas é povo quieto, tudo estava em paz e Bino ia sossegado em seu canto, porem não vendo a hora de sair daquela arapuca e ver a luz do dia em Guayaquil.
            Mono puxou conversa com ele e trocaram alguns endereços de hospedagem em Quito e Bino tinha o endereço de um bom pouso na Cidade de Guatemala, trocaram suas figurinhas e eles conversaram sobre suas experiências de estrada, Mono falando praticamente todo o tempo, o que para Bino estava muito bom.

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            Quase ao lado de Bino havia uma escada íngreme de ferro que levava a segunda classe, mas havia a grade de ferro, fechada a corrente e cadeado, que não permitia o tráfico da terceira para a segunda classe.
            A cara do Mono estava sangrando, sua camisa em farrapos, e o moço insultado estava agora irritado com Bino, pois ele estava apartando a briga e evitando que o baixinho furioso esfaqueasse o Mono. Para complicar as coisas a Myrta estava também empurrando os nativos, em defesa do filho-amante e agora eles começavam a bolinar a guria.
            Bino gritou a ela para subir a escada e berrar por socorro, o que ela fez.  Enquanto isto Bino puxou o Mono escada a cima e disse para ele subir as escadas e juntar-se a Myrta também pedindo socorro.
            Em seguida Bino se viu acuado por dois caras com facas agora ameaçando, vagarosamente a dar um bote em cima dele.  Com a mochila em seu braço como escudo para se defender ele foi subindo de costas as escadas quando um deles furou a mochila.
            – Aí fechou o tempo; Bino se agarrou ao corrimão e se defendia com pontapés, com a bota pesada adquirida no Rio Grande do Sul, e Myrta gritava por socorro e freneticamente sacudia a grade de ferro e Mono tentando também dar pontapés - mais estava muito apalermado para qualquer tipo de ajuda.
            Ninguém apareceu para acabar com a confusão. Talvez fosse mesmo por estes tipos de brigas que a tripulação tinha colocado aquela grade e fechado-a a cadeado.  Então Bino gritou a Myrta, vamos gritar fogo:
            – E os três começaram a berrar: Fogo, fuego, fuego
            Quase de imediato um oficial vestido de branco apareceu com um extintor, Myrta gritou para ele que queriam esfaquear seu noivo e que ele já esta ensangüentado.
            O oficial abriu a arapuca, ela passou para a segunda classe arrastando a tralha do Mono. Bino continuava a dar pontapés para se defender das facas, quando um dos caras agarrou a sua perna. O oficial esguichou uma nuvem branca de pó anti fogo em Bino e na turba, e continuou esvaziando o extintor em direção a escada, enquanto Bino tossindo e de cara branca passava também para a segunda classe - e outro tripulante que tinha chegado para ajudar, fechava o alçapão.
            Por grande parte da viagem Bino ficou tentando se limpar do pó branco do extintor, e os três permaneceram o resto da viagem no “conforto” da segunda classe.

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            Subindo para Quito, começou a chover copiosamente na serra e havia momentos que o engenheiro tinha que colocar a cabeça para fora do toldo do Jipe para ver a estrada. Houve várias paradas por conta de deslizamentos de lama e pedras na estrada e numa delas chegaram a esperar por várias horas. Uma viagem simples e rápida para Rio Bamba tornou-se muito demorada.
            As 05h30min da manhã eles chegaram exaustos a cidade e o jovem era um engenheiro civil, radicado em Rio Bamba que trabalhava em manutenção e capacitação de estradas. Voltava  da Capital onde participou de um simpósio de reforço de encostas por meio de produtos têxteis geodésicos. Era um patriota e parecia ter a inabalável fé em mudanças radicais em seu país, acreditava no progresso e reclamava muito da corrupção governamental.  Era uma pessoa culta e no campo de engenharia Bino e ele tiveram amplo terreno de conversação.
            Ele parou o jipe para abastecer num posto de gasolina e tomou um café com Bino. Em seguida ele conversou com um conhecido no posto e este arranjou uma carona para Bino num caminhão Fargo antigo, com a boleia que mais parecia um oratório de macumbeiro, toda decorada de santos, fitas e franjas.
            No Equador era costumeiro aos motoristas complementarem os seus salários levando passageiros de carona na boleia por um preço bem em conta. Estando a cabine já cheia, Bino foi grátis em cima das batatas, enroscado no saco de dormir debaixo de uma lona furada. Ele estava muito cansado e dormiu quase até chegar a Latacunga.
            O motorista era um mestiço simpático chamado Henrique. Ele parou numa área de vendedores que parecia ser uma feira improvisada e chamada de “Mercado Central” e gritou para as batatas:
            Eh Brasilenho vamos a comer.
            E sentaram-se num quiosque bem rudimentar e o motorista ordenou dois ajiacos em Quíchua, para duas jovens índias que atendiam a banca.
            Era meio dia e quinze, e o motorista se apresentou como Henrique e conversaram alguma coisa sobre futebol.
Em seguida se desculpou que a boleia do caminhão estava cheia com passageiros, e perguntou se deu para Bino descansar e Bino disse que não estava cansado e que praticamente dormiu o tempo todo e o motorista se sentiu melhor.
            Depois o Henrique falou que muitos destes passageiros eram tão pobres que pagavam a viagem com ovos, galinha, frutas e uma vez ele até aceitou um iguana, a qual ele afirmou não ter comido e depois ele disse meio sem jeito: – Aqui Brasilenho, as coisas são muito difíceis e qualquer coisinha ajuda, disse o motorista rindo - o que Bino interpretou como uma cobrança da viagem.
            Disse também que ele estava vindo direto de Loja, quase divisa com o Peru, onde ele pegou o carregamento de batatas. Ele disse a Bino que dirigia por quarenta e oito horas praticamente sem dormir, tirou algumas pestanas só em alguns trechos de manutenção da estrada, mas somando todas paradas, toalete incluído, não alcançava a duas horas de sono.
            Chegaram os ajiacos, servidos em uma tigela grande, acompanhado com tortilhas de milho. O cheiro era delicioso e o gosto ainda melhor. O Ajiaco era uma sopa com batatas com um bom pedaço de flanco de boi gorduroso, com salsinhas, coentro e que se comia de colher, como uma sopa, com as tortilhas.
            Bino pretendia a cooperar com o motorista, pagando pela comida modesta e ficar quites com a carona, pois “qualquer coisinha ajudava”, como tinha falado o motorista.
            Na comida o motorista confessou que agüentava o tranco das muitas horas acordado, mascando folhas de coca.
            Enquanto comiam a saborosa sopa andina, Bino falou que conheceu o mate-cola em Las Cuevas, e que em Cuzco tinha mascado umas folhas para melhorar o mal estar das alturas. Disse também que ele se sentiu triste quando viu o pobre do velho Inca que vinha morro acima, mascando as folhas e carregado de caixas como um animal de carga.
            O Henrique riu para Bino, com seus dentes pequenos, perfeitos, mas esverdeados, mordeu vagarosamente sua tortilha e disse:
            – Jovem não se sinta mal. O velho esse devia estar alegre e bem disposto. Estas folhas são a energia dos Incas e com elas um império foi criado. Também com elas o pobre do índio de Cuzco, consegue existir, pois vida, sem as folhas, eles não têm.
            – Em relação à “energia” isto é verdade; mas vi muitas cenas tristes com os nativos, e talvez estas folhas não sejam tão boas assim. E em São Paulo vi muita miséria causada pela cocaína.
            – Brasilenho você está enganado. Meu povo usa essas folhas medicinalmente e como estimulantes, a milhares de anos nos Andes.  Nunca esse costume, como o seu de beber café, causou problemas para nós.  E continuou:
            – O que criou problemas entre os nossos nativos foi o álcool. O pisco que o europeu empurrou aos índios. Ai está a raiz do problema, os hábitos trazidos pelos brancos a América.
            – Mas e a cocaína?
            – Também porcaria trazida pelos brancos. Eles não se contentam com as coisas boas da natureza e estão sempre querendo mais e mais. Tiram em laboratórios os cristais da pasta de folhas de coca para fazer a cocaína, a tal que você viu maltratando a gente no seu país. Tudo coisa dos brancos, tudo de laboratório, sem querer lhe ofender.
            Bino ficou quieto, partindo um bom pedaço de carne com a colher enquanto comia sua tortinha que estava enrolada como um charuto.
            O motorista acabou de comer a carne e as batatas, segurou sua tigela com as duas mãos e bebeu todo o caldo que sobrava. Em seguida limpou os lábios na manga da sua camisa comprida e depois colocou a mão numa bolsa artesanal de lã, e cheia de desenhos coloridos de motivo andino e retirou um bocado de folhas verdes as pôs na mesa.
            Depois pediu uma folha de jornal a uma das meninas atrás do balcão; ela trouxe, o motorista colocou as folhas no papel de jornal, fez um pacotinho e disse:
            Brasilenho ponha em sua mochila, você poderá necessitar da energia inca na estrada.
            – Mas isto pode me dar dor de cabeça, disse Bino.
            – Não nos Andes. Só as masques no interior. Autoridades em Quito nos perseguem por mascar as folhas de cocas, mas sabe por quê? Estão cansados de ter as ruas sujas, cheias de folhas cuspidas pelos nativos. Nada a ver com os efeitos das folhas, somente se aborrecem com a limpeza da cidade, em mostrar as coisas superficiais bem bonitas para os turistas.
            De novo ele riu calmo, resignado, com seus dentinhos verde-esperança.
            Bino terminou também o seu ajiaco, que desceu maravilhosamente na tarde fria, chuvosa e sombria dos Andes, e disse:
            – Por favor, deixe-me pagar a conta.
            Henrique o olhou confuso e um tanto irritado.  Ele disse:
            – Você é um estrangeiro em meu país - e meu convidado. Por favor, guarde o seu dinheiro.
            Bino se desculpou sem graça, e mais uma vez, a generosidade do povo inca, desta vez exercida por um caminhoneiro pobre, o comoveu.
            Ele saiu do modesto comedor com o motorista e este perguntou:
            – Você esta indo para Quito, não é?
            – Sim, é a minha próxima parada.
            Foram andando até uma Praça Colonial ainda do tempo dos espanhóis e lá o motorista encontrou foi em direção um caminhão Mercedes Benz, importado do Brasil. Era de um amigo dele chamado Zamora, que tinha acabado de entregar para um depósito uma carga de cobertores e retornava de caminhão vazio a Quito.
            Os dois conversaram em Quéchua e Zamora sorriu para Bino e disse:
            – Vamos Brasilenho, entre na cabine, pois sairemos daqui a pouco. Bino deu a mão a Zamora, e se despediu abraçando o amigo Henrique.
            – Brasilenho, como es mismo tu  nombre?
            – Mi nombre és Bino, e Henrique riu-se:
            – Você é o primeiro Bino que eu conheço.
            Henrique una preguntita, disse Bino, sorrindo: – Quando devo mascar estas folhas?
            – Somente em grandes alturas, quando lhe faltar um pouco o ar ou quando tiver que estar acordado e alerta de qualquer maneira - a guevos, disse ele rindo.
            – Mas isto não vicia?
            – Sim. Muito. Quando o homem branco brinca com as folhas, transformando-as em cristais, em droga.
            – Obrigado, disse Bino andando com Zamora para a sua mercedinha “cara chata” e o Henrique disse as suas costas: Que vayas com Dios!

sábado, 22 de outubro de 2011

ADEUS AO CHILE

            Bino subiria rumo leste, passando por Chaluanca e Abancay e chegaria ao cume do lindo Parque Nacional de Ampay, e depois a estrada iria rumo sudeste por uns cem quilômetros de subida até Cuzco, Capital Imperial dos Incas. Seria uma subida contínua de cinco mil metros de altura.
            O plano era simples: um dia em Cuzco, pegar uma carona ou mesmo andar até Machu Pichu. Ele iria pela rota antiga dos incas, uma estrada secundária ligando Cuzco a Machu Pichu, onde Bino pretendia passar o resto do tempo. Voltaria pelo mesmo caminho e se encontraria com a expedição em San Nicolas, no litoral, no final de semana.
            Sem problemas com o professor que achou fantástica a idéia de conhecer estas cidades milenares. Bino estava de mochila preparada e desta vez levava um cantil. Fez o café da manhã para a turma, comeu alguma coisa, brevemente se despediu e começou a pedir carona para Cuzco.
            Não demorou muito parou uma Kombi alemã, modelo Westfalia, com placas estrangeiras negras e de números amarelos, nunca antes vista por ele.
            Do you speak English? Você fala inglês? Perguntou o rapaz sentado no banco de passageiro, com óculos de aros pequenos, lentes de fundo de garrafa, cabelos louros, longos e encaracolados, com uma cara de intelectual surfista.
            Enough to make you laugh, bastante para fazer você rir, disse Bino com forte sotaque brasileiro e sorrindo. Os dois americanos riram e perguntaram de onde ele era e para onde ia.
            – Sou do Brasil. Pegando uma carona para Cuzco.
            – E nós para Machu Pichu, você conhece a estrada?
            – Sim, já a estudei no mapa. Disse Bino ao motorista, um jovem magro, simpático cabelo raleando com um rabo de cavalo, óculos escuros tipo John Lennon, com uma jaqueta do exército americano, parecendo um hippie estudioso.
            – Basicamente é direto nesta estrada; sim, a estrada tem umas quebras, mas é só pedir informação.
            – Você fala Espanhol?
            – Relativamente bem. O bastante para me virar, respondeu Bino.
            – Então vamos conosco, disse o motorista de rabo de cavalo, continuando: – Estudei espanhol quatro anos e ninguém me entende. E rindo disse: E também detesto ler mapas.
                                                          
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            A estrada estava pior do que eles esperavam. Demorou 09h30min para percorrem 500 quilômetros de Nazca a Cuzco.
            Os rapazes eram irmãos e vinham da Califórnia. Eram os irmãos Mike e Mark Zimmerman, Mark o motorista de rabo de cavalo era professor de História das Civilizações e era o mais velho; Mike, o louro de cabelos encaracolados estava fazendo o seu Máster em História Pré-Colombiana, ambos na Universidade de Berkeley, na Califórnia.
            Mark obteve uma licença Sabática sem remuneração por seis meses e o Mike englobou a viagem como parte de seus estudos privados.
            Bino mencionou a expedição científica que ele participava e os irmãos ficaram extremamente interessados pelo trabalho do Dr. Luis Pena Guzman e mais ainda quando Bino mencionou que ele era adido a Universidade de Harvard. Bino comentou que o número de espécies e subespécies de insetos coletado e catalogada pelo professor chegava a centenas, a admiração foi imensa. Fizeram várias perguntas sobre a expedição, didaticamente conheciam o deserto de Atacama e ficaram impressionados que em lugar tão inóspito, tanta vida persistia nas areias secas.
            Ambos os irmãos tinham um conhecimento profundo da civilização pré-colombiana andina e por excelência o Mark, PhD no assunto. Eles falavam de lugares históricos como se fossem suas vizinhanças. Falaram das linhas de Nazca, meras fileiras de pedras ao nível do mar, que iam por muitos quilômetros afora, formavam desenhos de pássaros, Insetos, animais, que eram vistos somente a centenas de metros de altura.
            Mike afirmava que as pedras que as formavam, deviam ser parte de um antigo sistema de irrigação e que as figuras que elas representavam eram meramente ritualísticas ou religiosas. Já o Mark aceitava a explicação do irmão como viável, mas, disse que ele pensava que elas poderiam ser de origem extraterrestre conforme propôs Erich Von Daniken em seu livro Chariots of the Gods.
            O Mike, empolgado, pediu a Bino para passar sua mochila para o banco da frente e depois mostrou várias fotos das linhas de Nazca vistas de um pequeno avião que eles alugaram para tirar fotos e Bino ficou admirado com a aranha, o pássaro e outras figuras que as pedras formavam do alto e disse:
            – Estive acampado lá perto e não vi nada. Algumas vezes estamos tão perto da verdade que acabamos cegos pela proximidade.
            Mike e Mark ficaram quietos pensando nas palavras de Bino e Mark falou:
            – Bino, você está certo. Repare bem: nestas três horas e meia que estamos subindo a serra já passamos por dúzias de ruínas pré-colombianas. Há tantas delas ao nosso redor, e nós estamos tão próximos delas, que nem mais prestamos atenção nelas. Sim, as olhamos, mas não as vemos. Há tanta abundância de cultura Inca por aqui  que ela ainda parece ser a norma e a construção ibérica a exceção, disse Mike baixo, como se falasse consigo próprio.

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No final da tarde chegaram a Cuzco, a quatro mil metros acima do nível do mar. Eles pararam numa área de descanso a beira da estrada onde havia outros carros parados e algumas barracas. Devia ser um tipo primitivo e improvisado de camping um pouco acima da cidade de Cuzco.
            A altitude incomodava a todos. Mark tinha náusea, Mike não respirava direito e Bino tinha um pouco dos dois e se lembrando de Las Cuevas e do mate coca ele contou esta experiência aos amigos.
            Mike o ouviu com toda a atenção, mas seus olhos estavam direcionados para um pobre nativo que laborava montanha a cima com uma carga de caixas nas suas costas, postas, de algum modo, em uma tira de couro que encontrava ponto de apoio passando-se ao redor de sua testa.
            – Bino, disse o Mike com um sorriso maroto, – Ai subindo o morro vem o nosso mate.
            – Que? Disse Bino confuso.
            – Olhe bem a boca dele.
            – Não vejo nada.
            – Espere até o velho chegar mais perto.
            E aí Bino notou que o pobre indiozinho parecia estar mascando fumo de rolo, como fazia o Vito em João Neiva. Só que o velho devia estar com meio quilo de fumo de corda na boca, quinhentos gramas em cada bochecha e disse.
            – O pobre está de boca cheia de fumo de rolo.
            – Não, Bino: o pobre está com a boa cheia de folhas de coca.
            – O que?
            – Sim senhor. – É a mesma cena pelos Andes afora e até mesmo em certos pontos da América Central. Folhas de coca, eu creio, foram o catalisador das obras da cultura Inca.
            E Mike pediu ao Bino para negociar o alforje de folhas do velho. Ele baixou as caixas, cuspiu um bolo de folhas mascadas, sorriu com poucos dentes esverdeados, falando espanhol misturando com Quíchua, acabou vendendo ao Mike a metade das folhas a um preço bom, de fazê-lo sorrir.
            Depois, o velhinho meteu a mão em seu alforje, encheu a boca com folhas frescas, não aceitou ajuda com as caixas, arrumou-as bem na tira de couro, passou-a pela testa, segurou-se nas caixas firmando-as em suas costas e subiu com a sua carga cantarolando alguma música nunca antes escutada por eles.
            As folhas foram escondidas num dos muitos armariozinhos do camper; Bino esquentou a água numa plataforma dobrável ao lado da Kombi, num fogareiro a gás butano. Fez um belo mate-coca, beberam bastante e o mate foi o salvador da pátria.
            Eles decidiram acampar por ali mesmo, mas desceram de carro até a cidade, compraram uns tamales, voltaram ao camping já de faróis acesos, e comeram tamales com mate-coca no camper.
            À noite conversaram muito, enrolados em ponchos, e sentados em cadeiras de lona vendo as luzes da cidade abaixo. Mike realmente era uma enciclopédia em Historia pré-colombiana.
            Quando Cuzco foi a capital do império Inca, tinha uma população de umas quinze mil pessoas e era uma cidade bem diferente. Em Cuzco havia muito ouro, o imperador num palácio belíssimo cercado de servos, concubinas, nobres e com inúmeras trilhas incas sempre cruzadas por velozes chasquis, ou maratonistas imperiais, carregando mensagens importantes de e por todas as partes do império.
            – “Ao entrar na Capital do Império, o estrangeiro ouvia: Ama sua, ama quella, ama lulla - Não minta, não roube e não seja preguiçoso”
            E Mike continuou: Há um mito persistente na América Latina de que os povos indígenas são preguiçosos. Ora esta gente foi trucidada pelos europeus, reduzidos a escrava e é claro que não produziam muito baixo a chibata. A industriosa cultura dos Incas está mais do que provada em suas construções e sistemas de estradas. Não eram preguiçosos, e sim operosos. Os europeus sim, que viviam no ócio e em busca de riquezas e escravos e os seus trabalhos eram o de pilhar a terra.
            Eles foram dormir ao redor da meia noite. Os irmãos Zimmerman se enfiaram com seus sacos de dormir na cama dupla desmontável e Bino, acima deles, na cama de lona na barraca formada pelo teto de fibra levantado.
            Cedo de manhã estavam de pé. Bino já tinha baixado o topo da Kombi, desarmado sua cama de lona e estava de poncho esquentando água para o café. De um dos armários o Mark tirou saquinhos de chocolate em pó e barras de cereais. Mike enchia um canecão bombeando água da pequena pia para escovarem os dentes e o banheiro seria mesmo  numa casinha no final do camping onde já se formava uma fila.
            Após o café, estavam animados e desceram de carro até Cuzco. Bino ficou encantado com a cidade, um formigueiro de descendentes de incas vendendo de tudo que se possa imaginar e entre si a maioria falava em Quíchua. Viram a Igreja Del Triunfo, sim do triunfo dos conquistadores sobre um povo que receberam os “conquistadores” de braços abertos. Bino tirou fotos da Plaza de Las Armas, lugar onde suntuosas cerimônias eram feitas pelos incas, pois aquele local era considerado o centro geométrico do império.

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Cedo nos preparamos para seguir rumando norte e esticar ate Trujillo, mas não chegamos nem a Chimbote. Uma hora antes de lá chegarmos a terra tremeu e deu para sentir as ondulações na estrada balançando o ônibus. Atemorizados encostamos o camper. Havia muitas ambulâncias e carros militares rumando em direção norte e sabíamos que o tremor de terra causou em algum lugar mais a norte um grande estrago. O trafego vindo do norte, praticamente parou. Horas depois, e cautelosa e apreensivamente fomos a Chimbote, que nos informaram foi a cidade que estava mais perto do epicentro do tremor de terra. Durante o trajeto paramos duas vezes por conta de tremores secundários.
            Na chegada àquela cidade só vimos destruição: Sentimos várias vezes cidade tremer, grande parte dela foi destruída, especialmente as construções mais antigas, datando dos espanhóis - e muitas vidas ceifadas.
            Praticamente todo o alimento e medicamento de primeiro socorro que havia no ônibus foram usados para alimentar alguns famintos e cuidar de uns poucos feridos; depois de quatro dias de atraso, circunspetos com a tragédia recomeçamos a jornada norte, temporariamente sem provisões, até sermos re-supridos em Trujillo.
            Esta Vila seria o ponto da triste despedida de Bino e seus amigos chilenos. De Trujillo a expedição faria um turno leste em direção aos Andes, e retornaria sul por estradas secundárias bordejando algumas trilhas de incas em terras altas.
            Também nas cercanias de Trujillo o Professor Luis, Lucho e Pablo continuariam as suas pesquisas para encontrar outros insetos desconhecidos pelo mundo, mas ao sair do deserto, subindo os Andes a expedição estaria numa área rica em pássaros e ali, o Dr. Gastón MacLean, começaria a sua pesquisa ornitológica.
            E também eles pretendiam demorar bastante por lá, bastante até se sentirem confiantes que retornariam para um Chile mais estável.
            Dizer adeus àqueles amigos não foi fácil: À noite, na despedida, nos derrubamos algumas garrafas de vinho. Lucho, Bino não sabe de onde, novamente materializou uma garrafa de pisco. Bino bebeu bastante e desta vez até o Pablo. Lucho dedilhava triste o seu violão, sempre em busca de um arranjo novo ou de um acorde perfeito, e Bino lhe disse:
            – Tenho uma surpresa para você. E disse somente isso: Se Vás Para Chile.
            Bino cantou toda a canção, sem errar uma estrofe, uma palavra.
            Todos aplaudiram e o Professor Luis disse solene: Ahora tu eres un Chileno.
            E Lucho tomou um gole muito grande, direto da garrafa sem pestanejar. Com a sua intensidade de músico, ele afundou o rosto em direção às cordas do violão, sussurrando alguma coisa para elas, e começou a dedilhar os primeiros acordes da Garota de Ipanema, e depois com uma voz bem baixinha a cantou em português do começo ao fim.
            Às cinco da manhã quando Bino se levantou de ressaca para fazer o café, lá estava o Dr. Gastón de cozinheiro, já pondo ovos na frigideira.
            – Hoje o cozinheiro sou eu. Com a sua saída é melhor eu me acostumar logo, disse ele brincando.
            Deixaram Bino num posto de gasolina Texaco, e saíram de dentro do ônibus. Bino disse aos amigos:
            – Eu não tenho, nem nunca terei palavras para agradecer o que vocês fizeram, e como fizeram, por mim, e pela amizade e fraternidade que encontrei com vocês. Eu sou muito pobre com as palavras, mas quero lhes dizer que sempre, em meu coração, eu terei um pouco do Chile, do Chile que aprendi de vocês.
            Dizendo isto ele abraçou a cada um individualmente e o Lucho estava com lágrimas nos olhos. Abalado, Bino não ficou no posto a espera de uma carona - foi caminhando rumo norte pela Carretera Pan Americana.  Dr. MacLean gritou para ele:
            – Bino cuide bem dos documentos que estão dentro de seu passaporte.
            Bino fez um sinal de positivo com o dedo polegar sem entender nada - e continuou andando, olhando para o acostamento da estrada e as lágrimas pingavam a beira do Deserto de Atacama,

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            Bino saiu de Trujillo de coração partido. A expedição científica do Dr. Guzman e seus associados o tinha recebido de braços abertos e com eles Bino aprendeu a amar o Chile, os chilenos, e a solidão deslumbrante das noites no deserto de Atacama.
            A solidão fria do deserto a noite é profunda e incoerentemente extasiante. A pessoa se sente em íntima companhia com o universo que parece se aproximar do silêncio e mostrar um pouquinho de sua grandeza ao que ali anda só. A companhia, a aproximação da lua, planetas, estrelas e galáxias realçam a pequenez do homem - mas em contra partida lhe dá uma sensação de êxtase, talvez por indicar que ele de algum modo é parte de um mecanismo infinitamente maior do que a si próprio.
            De todas as boas memórias que Bino teve do Professor Guzman, a mais gratificante foi a de aprender apreciar e amar o deserto. Depois deste contato com o deserto Bino passou a entender os beduínos, e senso de aceitação do destino, da sina e o fatalismo do povo do deserto: Eles vêem algo que nós não vemos.


terça-feira, 11 de outubro de 2011

O DESERTO DO ATACAMA - UM NOVO AMOR DE BINO

A noite vários estudantes se reuniram no quarto do Bino, trouxeram uma garrafa de pisco, que era aguardente de uva, um violão e começaram a cantar músicas chilenas e forçaram Bino a cantar algumas músicas de Jobim e a bossa do Vinícius, Garota de Ipanema.  
O consenso geral dos novos amigos do Chile era para Bino sair bem apressado de Santiago e se possível do Chile. A despedida foi até as 03h00min e depois de um café da manhã rápido, as 08h00min Bino já estava pedindo carona em direção a Carretera Pan Americana, indo em direção norte, para o Peru, e havia pouco movimento de carros, e os poucos veículos na estrada não paravam para ele.
            Bino andou mais de 20 quilômetros até às 14h30min, já estava na Estrada Pan Americana indo norte, dezenas de carros e caminhões passaram por ele e ninguém parava. Ele estava exausto, seus pés doidos e inchados, suas pernas exaustas, seus ombros feridos pela alça da mochila, mas ele seguia andando temendo que se, parasse, poderia ser recolhido pela Policia Militar para investigação.
            O solzinho da tarde fria se escondia rápido e em breve viria à noite, mais carros passavam e continuavam a ignorar o Bino, um caminhão e duas camionetes até chegaram a diminuir a marcha como se estivessem relutando em parar, mas quando Bino corria até eles, como que se mudassem de idéia, os motoristas aceleravam e seguiam viagem. Outros passavam por Bino, visivelmente chateados por não poderem ou não terem coragem de parar, mas seguiam viagem mesmo assim.  A grande maioria dos carros ia à direção norte e aparentemente poucos queriam estar em Santiago. Alguma coisa deve estar bem errada na capital, pensou Bino. Talvez os motoristas estivessem com medo de pegarem um terrorista ou fugitivo com uma mochila nas costas fugindo da capital.
            Então Bino se lembrou de uma bandeira brasileira que tinha ganhado dos Lewaschins em Passo Fundo. Ele abriu a mochila, tirou a bandeira que estava cuidadosamente dobrada, a abriu, e com ela começou a fazer sinal para os carros agora identificando a sua nacionalidade.
            Já caia a tarde quando Bino viu um tipo de lotação, que os chilenos chamam de micro; era um Chevrolet 1956, mas sem identificação ou placas designando seu destino.

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         Pararam num posto de gasolina e restaurante. Lucho desceu rápido para comprar balas de hortelã para esconder um pouco do cheiro de álcool. Atrás dele, desceu o Pablo, seu escudeiro fiel. Dr. MacLean desceu se espreguiçando e esticando as pernas, Professor Luiz em seguida e esperou Bino descer também e disse a ele:
            – Você é parte da expedição.
            – Muito obrigado.
            Em seguida o professor deu uma tapinha no ombro de Bino, sorriu e disse:
            – Está ficando tarde e vamos é comer aqui; e aproveitaremos agora tomar um bom café que não seja de vidro, disse ele rindo, se referindo ao café instantâneo do ônibus.
            Após o jantar, Bino foi ao toalete e se espantou porque o local, apesar de ser bem adequado e moderno não tinha teto. Depois Dr. Gastón lhe explicou que praticamente nunca chovia em La Serena.
            Estacionaram o ônibus em uma área reservada ao pernoite de caminhoneiros, fecharam as cortinas e se preparam para dormir. No ônibus ensinaram a Bino como montar a sua cama. Levantou o encosto do assento atrás da mesa de estudo do professor, e puxou uma armação de ferro e lona tipo maca, e deu para ele se acomodar.
            La Serena era quente durante o dia e bem frio à noite.  Da janela entrava uma brisa quente do mar misturada com golfadas frias da noite, mas no final prevaleceu o frio, o ventinho gélido dos Andes e do deserto. Bino colocou o alarme para as cinco para preparar o café e a partida para o deserto seria as 05h30min, hora de começar o dia na expedição.
            As cinco, numa mesa de alumínio desmontável, Bino já bombeava o fogão de querosene pressurizado, água fervia para o café instantâneo com leite desidratado em lata, cortou uns tomates, fritou ovos com bacon e quando desceram do ônibus já havia sanduíches de tomate e bacon, ovos fritos e café. Elogiaram o café forte do Bino, comeram no ônibus, foram ao banho e as quinze para as seis estavam na estrada em direção ao deserto de Atacama.
            O Professor dirigia feliz como um menino em férias. Falava muito das táticas de levantar as pedras e rapidamente passar a peneira nas areias que estavam encobertas e peneirando-a poderia encontrar insetos. Poderia ser até uma formiga bem conhecida, tudo tinha que ser catalogado e o local de captura devidamente marcado. Muito cuidado com os escorpiões que também gostavam de ficar debaixo das pedras.
            Em meia hora saíram da Carretera Pan Americana, rumo leste em uma estrada de pó de pedra e duas horas depois montaram acampamento à sombra de uma grande construção que foi um grupo de minas de cobre abandonadas pelos ingleses há mais de meio século . Bino ficou surpreso com a relativa conservação dos edifícios e equipamentos pesados abandonados no deserto.
            Ao redor das minas, começariam a procurar novas espécies de insetos.
            Professor Luis dirigia animado, parecia um adolescente. Mas mesmo assim não esqueceu o seu profissionalismo. Ele explicou a Bino bem detalhadamente os procedimentos de segurança no deserto: Lucho e Pepe explicaram a Bino no local como passar a peneira rapidamente ao remover a pedra, a estar atento para escorpiões, deram a Bino um par de luvas para o trabalho, enquanto o Professor. Luiz explicava ao Dr. Gastón o mesmo procedimento.
            Os escorpiões também deviam ser capturados, catalogados e depois imersos em frascos com formaldeído, mas somente pelos assistentes. Havia poucas serpentes no local, mas mesmo assim no ônibus tinha soros antiofídicos, antiaracnídio e antiescorpiônico, na geladeira.
            Novamente o Professor alertou o grupo a usar luvas, tênis e meias grossas todo o tempo. Frisou que o grupo deveria sempre trabalhar próximos de tal modo que todos possam ver todos a qualquer momento. Todos tinham que ter uma cantina sempre cheia d’água com eles todos os momentos e estar sempre bebendo água, com sede ao não. Disse que não queria ver ninguém de volta ao ônibus de cantina cheia.
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Dr. MacLean sempre falava ao Bino sobre a complexa marcha do Chile para encontrar a sua autodeterminação: a Espanha colonialista estava tão ocupada em encher seus navios com o abundante ouro do Peru que aparentemente não deu atenção aos minerais do Chile e o relegou a ser uma colônia pastoril e agrícola para alimentar a Vice-Realeza do Peru.
            A independência do Chile foi muito problemática por também terem problemas de fronteira com a Bolívia, Peru e Argentina. Foram muitas lutas e os líderes chilenos Juan Martinez Rozas e Bernardo O’Higgins somente a obtiveram em 12 de Fevereiro de 1818.
            Mas a paz durou pouco. Em 1879, Chile foi atacado por uma aliança de Bolívia e Peru, conflito este chamado A Guerra do Pacifico, e os derrotou somente em 1884. Mas o troco veio: Chile tomou do Peru as suas terras ricas em minerais na fronteira do norte e tomou da Bolívia o seu corredor para Atacama, que lhe dava acesso ao Oceano Pacifico – tornando-a um país central.
            A expedição entomológica agora pesquisava o deserto nas áreas do norte, perto de Vallenar e Copiapo e depois foi para Antofagasta e Iquique e ficou duas semanas nas redondezas de Arica onde seis novas espécies foram encontradas.
            Algumas vezes o grupo ficava até cinco dias no deserto, só voltando a cidade para encher os tanques de água, re-suprir o ônibus e em alguns finais de semana acampar numa bonita praia do Pacifico, mas suas águas eram frias e Bino não gostava de nadar nelas, preferindo o calor do deserto, suas tardes de dramáticos por-de-sol,  suas noites cristalinas, estreladas e frias e seu  silêncio tão profundo que por vezes parecia gritar. No silêncio do deserto as vívidas discussões existenciais do Dr. MacLean e do professor Luis, pareciam muito mais inteligíveis.
            Quando uma noite estava mais fria eles punham uma lona presa no topo do ônibus e levantada por estacas na areia. Sentavam-se em cadeiras de lonas desmontáveis postas debaixo do toldo, acendiam um fogo, acompanhados pelo violão do Lucho cantavam cuencas ou bossas novas.
            Tornou-se também um hábito deitarem-se na areia do deserto, antes de irem dormir, sob as luzes das estrelas e do luar, que eram tão intensas ali, que dava para ver os Andes, com seus picos cobertos de neves perenes, e o mar de areia, como um sonho, tornava-se prateado.
            A Jornada de Bino, exceto quando com sua família em Buenos Aires, foi tensa e dificultosa, mas o deserto o acalmava muito e era um bálsamo para  sua alma.
            A expedição lhe dera uma paz diferente, entre gente inteligente e amiga, e no deserto ele sentiu uma solidão aconchegante. No deserto ele não  necessitava de mantras, cantos e rezas, nem de exercícios mentais. O deserto trazia uma paz profunda, entre suas areias, pedras e dunas ele se sentiu em comunhão, o cântico da solidão lhe dava paz, as estrelas, os astros e a lua pareciam lhe unificar com o universo, e ele pode entender porque Jesus e alguns profetas buscavam paz na solidão dos desertos.   Bino começou entender porque Saint-Exupery colocou o Saara como seu ponto de encontro com o Pequeno Príncipe e assim como o autor francês, Bino começou também a amar o deserto.
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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

CHILE - UM OUTRO 11 DE SETEMBRO





E no sonho, o Expresso San Juanino se tornou uma embarcação etérea, como um feliz Holandês Voador que navegasse em estradas de ferro, com sua tripulação fantasma passando célere por estações do mundo afora, numa viagem de harmonia dolorosa entre assombros, dúvidas, esperanças e sem um determinado ponto final de parada.
            E Bino se abraçava a sua mochila, com um sorriso em seu rosto, cruzando a província de Mendonza em direção aos Andes.
            Em dado momento ele vagarosamente abriu os seus olhos e aninhou-se no seu poncho gaúcho, sobre o seu blusão de náilon, e em espanto se deu contas de que estar desperto naquela hora não era muito diferente de seu sonho: O San Juanino, na curva sob o luar parecia uma curta meia lua de prata colada a terra. Bino elevou os seus olhos para o globo de luz cheio de besouros mortos e não gostou da visão. Se pos então a olhar os campos enluarados enquanto a locomotiva diesel subia laboriosamente  em marcha mais lenta, num matraquear de cremalheiras, quase que tentando despertar os seus passageiros que iam em direção aos Andes.
            O cansaço venceu e Bino cerrou seus olhos, e retornou aos seus estranhos sonhos.

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            A meia noite Bino chegou a Las Cuevas, fronteira da Argentina e Chile nos Andes. As montanhas ao redor e nas circunvizinhanças estavam cobertas por uma camada de gelo endurecido e perene. Bino sentia vontade de tocar o gelo, mas não o fez.
            Alguns atendentes passavam garrafas de oxigênio para os passageiros do trem, mas Bino não as usou. Sua cabeça parecia um pouco leve, mas ele não sentiu nenhuma sensação de náusea e nem de dor de cabeça.
            O trem demoraria mais tempo no topo da América do Sul, porque era fronteira e seria feito o cheque dos documentos e bagagens dos passageiros em ambos os lados da fronteira.
            Ao cruzar para o lado do Chile e ver um oficial verificando os passaportes Bino fingiu que estava  tonto e pediu a garrafa de oxigênio ao atendente e começou a respirar o oxigênio em grandes golfadas e a tossir seco e convulsivamente.
            O oficial chileno que checava os passaportes aproximou-se dele e o perguntou:
            – O senhor acha que precisa de um médico?
            – Não, só estou um pouco nauseado, mentiu Bino.
            – O oficial com o passaporte de Bino a mão, visivelmente preocupado, pediu ao atendente que preparasse um Mate-Coca, e carimbou o visto de entrada no passaporte de Bino, mal olhando para ele.
            – O que é mate coca? – perguntou Bino.
            – Ah é mate boliviano. É um mate estimulante que só servimos aqui ao cruzar esta fronteira. Ele ajuda a respirar e estimula a passagem do sangue no cérebro.
            E o oficial aduaneiro gentilmente retornou o passaporte a Bino.
            Veio o atendente Argentino e falou com ele que só ao cruzar a fronteira para o Chile ele poderia a servir o mate e o agente chileno disse:
            – Eu sei, eu sei, mas pegue logo a água quente, dois saquinhos de mate, pois já estamos para dar a partida. E com um olhar preocupado, finalizou:
            – Entrando no Chile traga o mate para este jovem. Ele parece que não está se adaptando bem a altura.
            Mal o trem começou a descer para o Chile, o Bino bebeu uma infusão de mate com folhas de coca e se sentiu bem confortável. Quase todos no seu vagão bebiam o mate, que era perfeitamente legal em muitos países andinos.
            Ainda que o este tipo de mate seja formalmente ilegal na Argentina, ele é também muito usado pela população andina da Argentina e lá a lei só era cumprida no trem - lei para turista ver.
            A infusão do mate-coca manteve os passageiros do Expresso San Juanino bem alertas, tagarelas e estimulados até o raiar do dia.
            Bino deu graças a Deus e o incidente da garrafa de oxigênio por entrar no Chile sem problemas.

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Bino se lembra bem de sua chegada a Santiago porque foi um dia depois dos jornais locais proclamarem a morte em Londres do grande guitarrista americano Jimi Hendrix.
            A capital chilena é uma cidade alta e ainda estava fria em meados de setembro quando Bino nela chegou e após descer na estação de trem ele logo se encaminhou para o Campus da Universidade Católica, recomendado a ele desde o Brasil por mochileiros que por lá pousaram. Lá havia um pouso para estudantes, um bandejão bom em conta e o campus era relativamente tranqüilo com poucas manifestações estudantis.
            A caminho do Campus, Bino notou com apreensão que em quase toda esquina tinha uma patrulha militar ou um carro de assalto de prontidão e em alguns edifícios governamentais havia até tanques; Bino sentiu que algo não andava bem naquele país e decidiu que Santiago era uma panela de pressão prestes a explodir e seria bom para ele dar o fora dali  rapidamente.
            Bino chegou cedo ao Campus, foi ao Centro Acadêmico, apresentou a documentação da UFPF com o nome de Artur Lange e conseguiu encontrar alojamento bem barato com direito o café da manhã no refeitório.
            Ele se acomodou num pequeno apartamento dividindo quarto com outro estudante do Peru que estava indo para o Uruguai. Ele fez o seu toalete, colocou uma camisa limpa, colocou a mochila num armário com cadeado e como ainda se servia café da manhã ele se dirigiu ao refeitório.
            Lá ele sentou-se com um grupo de estudantes argentinos e chilenos, pegou o seu café com pão Francês e compota, queijo e leite, e também um pãozinho circular como se fosse pão de Hamburgo, poroso, mas pesado, que os chilenos gostavam muito e o chamavam de muffin - ou panecito inglês.
            Bino ficou encasquetado com o tal pãozinho inglês, e veio a ser educado em história que houve muita influência inglesa e, até, norte americana no Chile, começando com mercenários destes países que desde os anos 1800 ajudaram a formar a Marinha de Guerra do Chile.  Quanto ao exército, os Prussianos ajudaram a estruturar  e organizar aquela instituição militar..
            Um detalhe que logo Bino notou nos universitários do Chile era a sua cultura geral, sua simplicidade e desejo em dividir conhecimentos com os amigos.
            Bino provou no refeitório, o “Ketchup chileno”, uma pasta deliciosa chamada ají, que era um molho apimentado muito saboroso. Bino passou ají no pãozinho inglês e riram-se muito quando ele sentiu o ardor do delicioso molho picante e chorou.
            Os chilenos, Bino logo observou, são tranqüilos e gostam de uma boa prosa: Eles conversaram sobre artes, historia e curiosidades gerais de seu país, e na ocasião se falou muito sobre a arte e vida de Jimi Hendrix. Mas, os estudantes eram reticentes quanto ao tema de política.
            Quando Bino perguntou a razão de tantos carros de assalto, tanques e soldados nas ruas houve um silêncio, e depois um dos jovens chamado Poblete, num tom sério e grave começou a explicar:
            – Duas semanas antes da chegada do Bino, o Salvador Allende, apoiado pelas esquerdas foi eleito numa acirrada votação contra um Randomiro Tomic, este apoiado pelas direitas e também pelos EUA.  Perdendo a eleição os direitistas tentaram com a CIA evitar a posse do Allende, houve tentativa de golpe com um tal  General Schneider  e o Presidente incumbente Frey, para manter o estado de ordem, colocou o exército nas ruas e a situação era explosiva.
           

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